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“Os Últimos Jedi” traz abordagem corajosa do enredo e se firma como um dos melhores da saga

Além de ser considerada uma história familiar, a saga “Star Wars” é, essencialmente, uma trama do bem contra o mal, dos rebeldes que lutam pela república contra a obediência ao Império. Com isso estabelecido ao longo de sete filmes da saga original, além da aposta certeira em “Rogue One”, seria muito corajoso se um longa desafiasse tudo que já foi posto e impusesse um aprofundamento dessa discussão. Acontece que isso deixou de ser uma hipótese com “Os Últimos Jedi”, o oitavo episódio da cronologia principal e que se mostrou um dos melhores já produzidos.

Retomando os ganchos deixados em “O Despertar da Força”, o episódio oito mostra a resistência dos rebeldes diante da Primeira Ordem, que, aos poucos, vai abafando a voz dos fiéis à república. Enquanto o grupo liderado pela general Leia Organa (Carrie Fisher) resiste bravamente aos homens e naves inimigos, Rey (Daisy Ridley) trabalha para convencer Luke Skywalker (Mark Hamill) a voltar para ajudar os rebeldes.

Encurralados pela Primeira Ordem, Poe (Oscar Isaac) e Finn (John Boyega) colocam em prática um plano que pode impedir que os rebeldes percam mais aliados e recursos. Paralelo a isso, a insistência de Rey começa a impressionar Skywalker, mas ela também continua despertando a atenção de Kylo Ren (Adam Driver), afetado pelos acontecimentos de “O Despertar da Força” e posto de lado pelo líder supremo Snoke (Andy Serkis). Isso é tudo que dá para dizer sem spoilers.

Do ponto de vista do enredo, “Os Últimos Jedi” é um filme impressionante. A coragem do roteiro em “sacudir” um universo mais do que estabelecido é mais do que louvável. Respeitando tudo que já foi mostrado até aqui, o novo longa aprofunda questões ao fugir dos tradicionais conceitos de luz e sombras. Aqui, pela primeira vez, o público é apresentado ao “lado cinza da Força”, que traz novas facetas para construções clássicas de personagens. Mais do que o maniqueísmo, o filme está interessado em revelar que hesitações e fraquezas podem surgir em qualquer um, independente dos rótulos de “herói” ou “vilão”.

Além disso, “Os Últimos Jedi” também desconstrói o conceito de que as grandes forças da disputa entre os rebeldes e a Primeira Ordem se concentram no “sangue nobre” da família Skywalker. Como nunca antes, “Star Wars” mostrou que a esperança da galáxia pode surgir na mais simples das criaturas, independente da linhagem. Isso fica claro com a revelação da origem de Rey e da fé depositada nas novas gerações que podem surgir de rebeldes.

Também é muito interessante e, ao mesmo tempo, inusitada para a saga a crítica sobre os “ganhos” de uma guerra. Enquanto visões de “certo” e “errado” se destroem, há um grupo que aproveita para contabilizar as vantagens com o conflito estabelecido, como o enriquecimento.

Em relação ao elenco, coesão é o principal adjetivo. Corretos, os atores parecem entender a trajetória dos personagens e as funções para a trama. Entre os destaques, é importante citar Mark Hamill, que, mesmo não sendo propriamente um bom ator, se mostra entregue ao destino de Skywalker, mesmo não concordando com os caminhos escolhidos pelo roteiro, como já revelou em entrevistas.

O filme tem, no entanto, algumas escorregadas. O humor do roteiro é totalmente desnecessário e não funciona como alívio cômico por ser usado em momentos errados e em demasia. Faltou, também, uma contextualização maior sobre a importância de Snoke para a criação dos conflitos da nova trilogia iniciada em “O Despertar da Força”. Acho, ainda, que o longa não precisava ser tão longo, especialmente por ter um primeiro ato um tanto quanto arrastado. Todos esses problemas, é bom que se diga, são superados pelas qualidades da trama e não comprometem o andamento da obra.

Controverso e questionado pelos fanáticos pela saga, “Os Últimos Jedi” é, de longe, o filme mais corajoso de “Star Wars” e se estabelece como um dos melhores da franquia. Plasticamente impecável e trazendo uma abordagem nova e importante para uma história conhecida, o longa dá um passo a mais no enredo, ao invés de girar em torno do mesmo eixo. Valorizando o lado épico da história, a obra se encaminha bem para um desfecho moderno e cada vez mais interessante.

STAR WARS: OS ÚLTIMOS JEDI

COTAÇÃO: ★★★★ (ótimo)

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