Mesmo diante de tantas facilidades e novas formas de assistir filmes, como os serviços de streaming, por exemplo, o ritual de ir ao cinema ainda se mantém vivo entre as pessoas. A prova disso é que, levando em conta essas ferramentas e outros fatores, como deslocamento e preço do ingresso, as bilheterias seguem registrando resultados positivos ano após ano. Isso se deve, em grande parte, a experiência inigualável de ver um longa-metragem na tela grande, com um som potente, o escurinho da sala e, em alguns casos, com as emoções coletivas geradas nos espectadores que compartilham aquele momento.
A beleza da sétima arte e de todos os rituais que envolvem o ato de ir ao cinema ganharam, há 30 anos, a mais bela de todas as homenagens: “Cinema Paradiso”, um filme emocionante sobre a influência dessa arte na vida das pessoas e de como os longas-metragens podem ser verdadeiros aprendizados e alimentos para a alma.
Dirigido por Giuseppe Tornatore, “Cinema Paradiso” conta a história do menino Totó (Salvatore Cascio), que é fascinado pela magia dos filmes e vive circulando pelos bastidores do cinema de uma cidade italiana. O garoto usa truques e pequenas mentiras para conseguir assistir aos longas em cartaz, mas se mostra especialmente interessado pelas técnicas de projeção.
Essa paixão faz com que Totó crie uma amizade com Alfredo (Philippe Noiret), o projetista do cinema, que, a princípio, tenta manter o garoto afastado dos bastidores e dos rolos dos filmes. O interesse do menino, no entanto, é tão grande que o homem logo se convence de que o jovem deve aprender todas as técnicas do ofício.
Com o tempo e após um acidente que deixa Alfredo cego, Totó se torna o projetista oficial do cinema, considerado uma figura importante para o entretenimento da cidade, que gira em torno da exibição dos filmes. Na juventude, ele se apaixona por Elena (Brigitte Fossey), mas a história de amor entre eles se mostra marcante e improvável, ao melhor estilo cinema romântico.

Os caminhos da vida e um conselho de Alfredo fazem com que Totó abandone a cidade e nunca mais volte, deixando para trás a família e o saudoso Cinema Paradiso. Anos depois, quando passa a ser vivido por Jacques Perrin, o protagonista retorna para enfrentar as lembranças do passado e descobrir um importante presente deixado pelo velho amigo.
Vencedor do Oscar e do Globo de Ouro, “Cinema Paradiso” continua sendo, após três décadas do lançamento, a maior declaração de amor que o cinema já recebeu. Através da paixão de Totó, o espectador é conduzido por todo o fascínio e emoção que a sétima arte pode causar na vida das pessoas. As cenas que mostram plateias reagindo aos filmes exibidos são retratos dos efeitos do que cada espectador sente diante das telonas. Angústias, choros, gargalhadas, sustos, tudo vem à tona diante de uma obra cinematográfica que nos arrebata.
O filme de Tornatore também fala sobre a importância da arte e do entretenimento na vida das pessoas, especialmente em um tempo anterior à influência da televisão, quando os rituais eram mais formais e o hábito de ir ao cinema tinha mais importância no cotidiano da população. Esse olhar para o passado também mostra ao espectador dos dias de hoje que, mesmo depois de tanta modernidade e novos meios de desfrutar das obras cinematográficas, o ato de ir ao cinema ainda se mantém vivo e capaz de levar plateias a ocuparem as cadeiras das salas de cinema, ainda que elas tenham se distanciado de uma parcela do público por diversos motivos de mercado.
Em relação ao elenco, o grande destaque do longa é o trabalho da dupla Salvatore Cascio e Philippe Noiret, responsáveis pela construção da empatia da relação entre Totó e Alfredo. As atuações deles conduzem a emoção do filme, mesmo quando eles não estão mais em tela. Seria injusto não lembrar que os desempenhos dos demais atores também faz diferença no resultado final.
Ao som da trilha sonora inesquecível de Ennio Morricone, “Cinema Paradiso” ainda é a maior declaração de amor que o cinema já produziu sobre si próprio, destacando a emoção que os filmes podem fazer brotar nas pessoas e como tudo isso pode servir para a vida. O longa de Giuseppe Tornatore faz rir, chorar e ainda deixa a certeza de que, como em citações de Fernando Pessoa e Ferreira Gullar, a arte é a confissão de que a vida não basta!
CINEMA PARADISO
COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)
