Todo ano é a mesma coisa. Depois que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anuncia a lista de indicados ao Oscar, começam a surgir os nomes de filmes, atores e diretores que sequer foram lembrados para a premiação.
Esses nomes, de um modo geral, aparecem quando obras que geraram grande expectativa ou tiveram as qualidades amplamente reconhecidas não foram consideradas para disputar a estatueta mais cobiçada do cinema.
Com a proximidade do Oscar 2019, que acontece no próximo domingo (24), vale lembrar daqueles que acabaram sendo ignorados pela Academia em algumas categorias do prêmio:
ESNOBADOS PELO OSCAR

– Fé Corrompida (melhor filme) e Ethan Hawke (melhor ator)
Um dos melhores filmes do ano passado, “Fé Corrompida” não conseguiu agradar a Academia a ponto de emplacar em duas categorias que merecia estar. Uma delas é a de melhor filme, reconhecendo a qualidade da história do padre que passa a questionar a própria fé diante de ideias sobre o futuro da humanidade. Por fazer um mergulho na personalidade do religioso, o longa exigiu muito de Ethan Hawke, que não decepciona e acaba entregando o melhor trabalho da carreira. Por conta disso, merecia estar entre os indicados ao prêmio de melhor ator, mas também ficou de fora. “Fé Corrompida”, pelo menos, foi lembrado na categoria de melhor roteiro original.

– O Primeiro Homem (melhor filme)
Depois que foi lançado, o longa de Damien Chazelle não demorou muito para começar a aparecer entre as apostas para a categoria de melhor filme. “O Primeiro Homem”, que foca na trajetória do astronauta Neil Armstrong para chegar à Lua, até conseguiu algumas indicações, mas ficou faltando a lembrança entre os prováveis vencedores da principal estatueta da cerimônia. Mantendo o nível dos trabalhos anteriores, Chazelle soube focalizar as fragilidades e incertezas do protagonista, além de usar efeitos sonoros para dar mais potência à narrativa. Mais uma vez com uma câmera detalhista, o diretor contou com os bons trabalhos de Ryan Gosling e Claire Foy para contribuir com o êxito do filme.

– Bradley Cooper (melhor diretor)
Para escolher os integrantes de uma das categorias mais disputadas do Oscar, a Academia acabou deixando Bradley Cooper de fora, que surpreendeu com uma direção segura em “Nasce uma Estrela”. Envolvido em quase todas as etapas do longa, já que também atuou e escreveu o roteiro, Cooper soube modernizar a história adaptada de outras versões consagradas, especialmente as protagonizadas por Judy Garland e Barbara Streisand. A impressão é que o diretor tinha muita certeza do sentimento a ser passado e soube conduzir Lady Gaga no papel central. No fim, Cooper conseguiu uma indicação como melhor ator e o filme emplacou outras oito, incluindo para melhor filme. Para ter seu trabalho como diretor citado no prêmio, no entanto, só em uma outra oportunidade.

– Lucas Hedges (melhor ator)
Com bons desempenhos em “Manchester à Beira-Mar” e “Lady Bird” no currículo, Lucas Hedges merecia ter tido o nome lembrado na categoria de melhor ator do Oscar 2019. Como protagonista de “Boy Erased: Uma Verdade Anulada”, ele interpretou um jovem que é convencido pela família religiosa a se submeter a um processo de “cura gay”. Exposto a violentas e traumáticas etapas para conseguir deixar o caminho do pecado, como acreditam os pais e instrutores do programa, o garoto sofre e tenta se livrar do que sente por outros homens. Sensível e firme, Hedges segura bem a função de protagonista e consegue expressar com muita clareza a ideia de que o nome de Deus não deve ser usado em ambientes onde não há amor. No Brasil, “Boy Erased” teve o lançamento nos cinemas cancelado, segundo o estúdio, por análises de mercado, e deve ser lançado direto em DVD ou serviços on demand.

– A Balada de Buster Scruggs (melhor filme)
Lançado pela Netflix, o mais recente trabalho dos irmãos Joel e Ethan Coen teve três indicações ao Oscar, mas a verdade é que ficou faltando a de melhor filme. “A Balada de Buster Scruggs” traz uma antologia de histórias muito bem amarrada, ainda que elas funcionem de forma independente. Tendo o Velho Oeste como cenário, os diretores usam um humor muito característico para subverter algumas características tradicionais de filmes do gênero. Além disso, é prazeroso ver como os personagens dessas histórias são apresentados ao espectador e provocam desfechos melancólicos, divertidos e trágicos. Estaria, tranquilamente, na principal categoria deste ano.

– Em Chamas (melhor filme estrangeiro)
Poderia ter sido a primeira vez que a Coreia do Sul teria um filme indicado ao Oscar, mas isso vai ficar para outra oportunidade. Levando em conta a profundidade e a tensão criados no longa “Em Chamas”, essa indicação merecia ter vindo agora. Dirigida por Chang-Dong Lee, a trama de um jovem que reencontra uma amiga de infância demora propositalmente a engrenar, com a intenção de fazer o espectador mergulhar na rotina daqueles personagens. Depois disso, o filme constrói uma tensão crescente, gerada a partir de uma revelação inusitada. “Em Chamas” teve as qualidades reconhecidas com indicações em vários prêmios no mundo, mas acabou de fora do Oscar. Um lapso praticamente imperdoável da Academia.

– Charlize Theron (melhor atriz)
A maternidade, apesar de bonita, pode não ser fácil e isso fica muito claro com Charlize Theron vivendo a protagonista de “Tully”, filme do diretor Jason Reitman. Com muita naturalidade, a atriz vive uma mãe de três filhos completamente atropelada pela rotina do dia a dia. Inicialmente resistente a ter ajuda, ela acaba aceitando os serviços de uma babá, que parece ter o dom de facilitar tudo para que essa mãe tenha um merecido descanso. Contando com o ótimo desempenho de Charlize Theron, que acabou não sendo reconhecido pela Academia, “Tully” conduz o espectador para um desfecho surpreendente, que faz qualquer um entender os pesos, responsabilidades e cobranças da maternidade.

– A Esposa (melhor filme)
Glenn Close garantiu a única indicação de “A Esposa” ao Oscar deste ano e, muito provavelmente, também deve contabilizar essa estatueta para o filme, mas é fato que a história merecia mais. Chamando atenção para comportamentos sutis do dia a dia, que escondem um machismo profundo, a trama mostra como a mulher de um vencedor do prêmio Nobel é diminuída por palavras e atitudes, quase sempre geradas a partir de supostas gentilezas. Sustentado por uma abordagem sutil e eficaz, “A Esposa” só se beneficia do ótimo desempenho de Glenn Close, que transmite todo o peso carregado por aquela mulher, alvo constante de um machismo generalizado e, mesmo parecendo que não, do próprio marido.

– Poderia Me Perdoar? (melhor filme)
Inspirado em uma história real, “Poderia Me Perdoar?” até apareceu em algumas categorias, entre elas, as merecidas menções aos trabalhos de Melissa McCarthy e Richard E. Grant. Faltou, no entanto, uma indicação de melhor filme. A história da escritora Lee Israel, que mergulha no mundo das falsificações por conta de fracassos no universo literário, vai revelando, aos poucos, a personalidade dessa mulher que se acovarda diante da vida. O resultado é um filme de ritmo agradável e crescente, que só se revela plenamente quando a protagonista é confrontada pelas atitudes erradas que cometeu falsificando e vendendo cartas de escritores famosos. Mesmo se dedicando a crimes, a escritora descobre um lado bom nisso tudo: finalmente encontra coragem para revelar a própria voz no trabalho.

– John David Washington (melhor ator)
Filho do também ator Denzel Washington, John David Washington se entrosou bem à proposta do diretor Spike Lee para contar a história absurdamente real de “Infiltrado na Klan”, um dos melhores filmes lançados no ano passado. Rápido e cínico, ele dá vida ao detetive Ron Stallworth, que consegue fazer contato telefônico com membros da Ku Klux Klan e, com um discurso bastante convincente, vira um dos integrantes do grupo. Quando precisa se apresentar pessoalmente, ele conta com o parceiro Flip (Adam Driver) para participar das reuniões dos supremacistas brancos. John David Washington é parte importante de “Infiltrado na Klan” e poderia ter sido indicado ao Oscar pelo papel. Vai ficar só na torcida pelos colegas.
