Horas depois da entrega das estatuetas do Oscar 2019, manchetes destacam o número recorde de prêmios para mulheres e negros na história da cerimônia que aponta os melhores da indústria do cinema. É claro que esse é um passo importante para a valorização da diversidade, mas eu diria que a mensagem enviada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood não chega com a força pretendida por conta da última e mais esperada escolha da premiação: a de melhor filme.
Neste ano, as mulheres ganharam 15 estatuetas e negros venceram em sete categorias, fazendo história em algumas delas, como na de melhor figurino, onde Ruth E. Carter foi a primeira negra a levar um prêmio pela função. Isso sem contar a predominância dos mexicanos na categoria de direção. É um saldo importante e que deve ser celebrado para que o cinema se sustente, cada vez mais, por uma diversidade maior de talentos, ideias e olhares. Algo, no entanto, ficou faltando e está relacionado a vitória de melhor filme por “Green Book – O Guia”.
Desde que foi lançado, o longa de Peter Farrelly foi comparado a “Conduzindo Miss Daisy”, filme que abordou com leveza e otimismo o preconceito racial entre uma mulher branca e um motorista negro, superado pela convivência entre os dois. Apenas invertendo a dinâmica da história, com um pianista negro convivendo com um motorista branco, o longa do diretor saiu vencedor do principal prêmio do Oscar 2019, mas, assim como a trama comparada a ele, que venceu o mesmo prêmio em 1990, deixou uma sensação de que, apesar de segura, não foi a melhor escolha.
“Conduzindo Miss Daisy” foi criticado, na época, por ter uma visão superficial e bastante otimista sobre o racismo e a superação do preconceito, abordagem semelhante a de “Green Book”, que escolheu seguir no tom de “feel good movie” para falar sobre as dificuldades enfrentadas por um negro que decide fazer uma viagem ao sul dos Estados Unidos e muda as ideias racistas do motorista, que o conduz por essa jornada.
“Green Book” está longe de ser um filme ruim, mas pode ter aplicadas a ele as mesmas críticas feitas a “Conduzindo Miss Daisy”. A partir de uma visão otimista e, em certos momentos superficial, sem mergulhar em discussões mais essenciais sobre o racismo, o longa foi, na verdade, uma escolha para deixar a indústria dentro de uma “zona de conforto”, transmitindo uma mensagem sobre diversidade menos forte do que se o resultado privilegiasse “Roma” ou “Infiltrado na Klan”.
“Green Book” foi alvo de polêmicas antes da vitória no Oscar. A família de Don Shirley, o pianista retratado no longa, veio a público para criticar a abordagem que o artista ganhou na história. Segundo eles, ao contrário do que mostra o roteiro, Shirley nunca foi um negro distante das origens. A mensagem do filme sobre a força de uma grande amizade que supera preconceitos também foi questionada pelos parentes do pianista, que disseram que a relação entre os dois não foi tão profunda e marcante como fizeram parecer os roteiristas.
Com esse estilo de narrativa, o agora vencedor do Oscar de melhor filme se sustenta, também como em “Conduzindo Miss Daisy”, pelo desempenho dos atores, em especial, Mahershala Ali, que faturou o prêmio de melhor ator coadjuvante. Com o material que tinha em mãos, o intérprete do pianista Don Shirley soube dar a profundidade necessária ao personagem e que faltava ao roteiro, amparado por uma narrativa previsível e simplista para chegar ao desfecho.
Para que a mensagem sobre diversidade fosse transmitida com muito mais força, faria sentido, por exemplo, a vitória de “Infiltrado na Klan”, que mescla o entretenimento com um discurso mais profundo sobre o racismo no mundo e, especialmente, na cultura norte-americana. Como o Oscar também tem uma importância política, o filme de Spike Lee mostraria que a Academia está mais atenta e preocupada com o contexto das histórias. Talvez por isso, como apontou o portal Deadline, o diretor tenha dado as costas diante do anúncio de “Green Book” e disse que essa foi uma “decisão ruim”.
Também teria sido uma transmissão de mensagem interessante se “Roma” fosse o grande vencedor da premiação. Primeiro, em um campo mais específico, mostraria que Hollywood está mais aberta aos conteúdos vindos de outras plataformas. Feito para a Netflix, “Roma” foi alvo de muitas críticas, especialmente entre os mais conservadores, que acreditam que a Academia deve valorizar o hábito de ir aos cinemas. No fim, venceu o conservadorismo da indústria.
Uma possível vitória de “Roma” também passaria um discurso político fundamental, citado muitas vezes por vencedores de estatuetas na cerimônia. A escolha pelo longa, um dos mais ousados e belos da premiação deste ano, seria uma resposta aos que valorizam apenas a cultura norte-americana e acreditam em restrições a imigrantes, pregando que essas pessoas não contribuem efetivamente com uma nação. Assim como os Estados Unidos, Hollywood não seria nada sem a presença de talentos do mundo todo, ainda que a indústria continue a deixar isso em segundo plano. “Green Book” manteve essa questão no patamar em que está.
Confortável e conservadora, a escolha do Oscar 2019 para o prêmio de melhor filme vai ser esquecida daqui algum tempo. O que vai ficar desse ano é, de uma forma geral, uma mensagem de diversidade, mas deixando a sensação de que ainda há muito a caminhar. “Roma” e “Infiltrado na Klan”, outros longas que poderiam contribuir mais com esses discursos, vão ser lembrados, no futuro, como os melhores filmes que a Academia, ainda amparada por visões acomodadas, não premiou.
