Estranho, incômodo e provocativo. Esses adjetivos podem ser facilmente usados para descrever os trabalhos do cineasta Yorgos Lanthimos. Com 46 anos, o diretor grego é, sem sombra de dúvidas, um dos profissionais mais interessantes da indústria do cinema atualmente.
Lanthimos ficou mais conhecido mundialmente depois do filme “Dente Canino”, lançado em 2009, e ali já mostrou que não estava interessado em fazer qualquer tipo de cinema. Na ocasião, revelou o que viria a ser uma constante nos trabalhos futuros: a criação de personagens e universos estranhos, que até podem incomodar quem assiste, mas, também, provocam reflexões interessantes sobre a natureza humana, hábitos e costumes da sociedade.
O cineasta ganhou mais notoriedade nos anos seguintes, mas ainda não é possível dizer que seja popular para o grande público da sétima arte. Capaz de proporcionar experiências cinematográficas incomuns, Lanthimos merece ser cada vez mais conhecido pelos fãs de histórias que hipnotizam e, ao mesmo tempo, provocam muitos outros sentimentos e reflexões.
Escolhi quatro filmes da carreira do diretor para destacar aqui e que possam, de alguma forma, estimular o interesse pelo trabalho do cineasta. Vamos a eles:

– Dente Canino (2009)
Escolhido como melhor filme da mostra “Um Certo Olhar”, do Festival de Cannes, “Dente Canino” é um trabalho de uma estranheza fascinante. o que se revelou uma marca do diretor em trabalhos futuros. É compreensível, inclusive, que o espectador nem queira piscar para não deixar passar nada da rotina de uma família que vive isolada do mundo real. O pai (Christos Stergioglou) é o único daquele núcleo que pode ultrapassar os portões da casa onde vivem. Os filhos são educados ali mesmo, mas, ao contrário do que desejam os pais, acabam sendo tentados pelos próprios instintos e por uma realidade que eles não têm ideia de como seja. Aqui, Lanthimos, que também assina o roteiro, provoca muitos incômodos no espectador com a intensidade, violência e a forma como as relações se estabelecem naquele núcleo familiar. Se olharmos bem de perto, o diretor quer, com tudo isso, nos confrontar sobre a maneira que o ser humano pode ser moldado na sociedade. É uma experiência, no mínimo, curiosa, eu garanto.
ONDE VER: Telecine Play

– O Lagosta (2015)
É o meu filme favorito do cineasta e, assim como os outros, tem uma crítica muito pertinente inserida na história, também estranha à primeira vista. O roteiro se passa em um futuro não tão distante, onde é proibido ser solteiro. Aqueles que não estão em relacionamentos amorosos são enviados a um hotel e ganham um prazo para encontrarem parceiros. Os que não conseguem nenhum são transformados em animais no fim do processo. Na chegada ao local, David (Colin Farrell) escolhe virar uma lagosta se não encontrar uma mulher para dividir a vida, mas o dia a dia o faz questionar essa obrigação. Com ares de ficção científica, “O Lagosta” apresenta um roteiro muito inteligente, com ótimos toques de humor refinado, e questiona a pressão da sociedade para que as pessoas se encaixem no “padrão de normalidade” de ter um relacionamento amoroso, como se isso fosse garantia de felicidade. Essa pressão, ainda que velada, pode provocar escolhas erradas e criar seres humanos muito infelizes.
ONDE VER: Google Play Filmes

– O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017)
Talvez o filme mais enigmático do diretor. Colin Farrell vive um renomado cardiologista, casado e pai de dois filhos. A rotina aparentemente feliz daquela família é impactada pela aproximação de Martin (Barry Keoghan), o filho de um paciente que morreu quando estava sendo operado pelo médico. Quieto e educado, o garoto passa a conviver mais com aquele núcleo familiar até que acontecimentos estranhos começam a ocorrer, transformando a vida de todos. Inspirado na tragédia grega “Ifigênia”, de Eurípedes, “O Sacrifício do Cervo Sagrado” é uma história perturbadora sobre escolhas e culpa, marcada por violências tanto físicas quanto psicológicas, daquelas que acompanham o espectador por dias depois da exibição. É necessário destacar o tom de thriller impresso por Lanthimos, assim como as ótimas atuações, especialmente de Keoghan e Farrell.
ONDE VER: Amazon Prime Video e Google Play Filmes

– A Favorita (2018)
O poder e as imperfeições humanas estão no centro de “A Favorita”, que chamou atenção no Oscar do ano passado e rendeu uma estatueta para a atriz Olivia Colman, irretocável no papel da rainha Anne, monarca da Inglaterra no século 18. Emocionalmente fragilizada e com dores físicas, a rainha se mostra pouco focada em questões do reino, o que abre espaço para Sarah Churchill (Rachel Weisz), que usa a intimidade com Anne para tomar decisões por ela. Isso é ameaçado com a chegada de Abigail (Emma Stone), que passa a disputar o favoritismo da rainha. Adotando um tom de farsa, Lanthimos parece querer discutir os tipos de poder que marcam a humanidade, especialmente quando aspectos íntimos interferem, por exemplo, em interesses de uma nação. O longa também usa as personagens para falar sobre as imperfeições do ser humano e a indiferença dos afortunados sobre os menos favorecidos. Não dá para deixar de falar, ainda, do trio de atrizes que sustenta a história, ótimo e muito responsável pelo êxito da produção.
ONDE VER: Telecine Play
