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“Retrato de uma Jovem em Chamas” mostra como paixão pode ser eternizada em imagem

Depois da morte de Eurídice, que foi picada por uma cobra, Orfeu desce ao mundo inferior para apelar pela vida do grande amor. Ao obter autorização para levá-la embora, ele concorda em só voltar a olhar para a amada quando chegassem à atmosfera. No meio do caminho, no entanto, Orfeu se vira para a esposa, que andava atrás dele, e só tem tempo de esticar os braços e abraçar o ar antes de perder a mulher pela segunda vez.

A história de Eurídice e Orfeu está muito relacionada ao romance que sustenta o filme “Retrato de uma Jovem em Chamas”, ambientando na França do século 18. Em uma ocasião, a jovem Héloïse (Adèle Haenel), recém-saída do convento e na expectativa por um casamento que não deseja, lê o mito e tenta refletir sobre o desfecho dos personagens. Para ela, Orfeu estava louco de amor e, por isso, não resistiu à proibição de olhar para Eurídice. Na mesma discussão, Marianne (Noémie Merlant), uma pintora chamada para fazer um retrato, diz que Orfeu “não fez a escolha dos apaixonados, e sim a dos poetas”, preferindo permanecer com a lembrança da amada.

Antes de falar sobre a importância da história de Orfeu e Eurídice para o filme, é necessário detalhar mais o enredo do longa. Héloïse é retirada do convento pela mãe depois da morte da irmã. Em seguida, Marianne é chamada para pintar um retrato da jovem, obra que seria enviada ao pretendente da garota antes do casamento. Há, no entanto, uma dificuldade: Héloïse já tinha espantado um artista antes e, por isso, a pintora deveria se passar por dama de companhia e não revelar o real motivo para estar lá.

Durante os passeios com Héloïse, Marianne presta atenção aos traços e detalhes da retratada, tentando fazer isso sem que ela perceba. Ao terminar o trabalho, a pintora pede para revelar a verdade à jovem, por conta do laço que criaram. O retrato não agrada e uma provocação faz com que Marianne decida recomeçar a pintura, agora com Héloïse posando para ela.

Ao longo do tempo que passam juntas, Héloïse e Marianne se apaixonam, mesmo sabendo que o casamento da primeira era inevitável, especialmente por conta das convenções da época. Enquanto a pintora finaliza a segunda versão do retrato, as duas se entregam ao desejo e constroem uma sólida afinidade, capaz de decodificar gestos e palavras sem grandes esforços.

Em determinado momento de “Retrato de uma Jovem em Chamas”, Marianne é colocada em uma situação parecida com a de Orfeu, que tentou viver o amor ao lado de Eurídice. Depois de finalizado o trabalho e da proximidade do casamento de Héloïse, a pintora abraça a jovem e vai embora tentando não olhar para trás. Antes de dar o último passo para fora, provocada por um pedido da amada, ela se vira e registra a lembrança que carregaria daquela paixão para sempre. Além da escolha dos poetas, também fez a escolha dos pintores, uma vez que essa imagem teria influência artística sobre o trabalho dela.

“Retrato de uma Jovem em Chamas” é um filme que chama atenção pela sutileza com que a relação de amor das personagens é construída. Gestos, olhares e instigação aparecem em uma narrativa de ritmo lento, que valoriza a contemplação dos momentos em que Héloïse e Marianne estão juntas e vivenciam as etapas da paixão. Essa abordagem delicada, em determinado momento, dá lugar a um intenso desejo entre elas, que “explode” na tela diante do espectador.

Responsável por roteiro e direção, Céline Sciamma, mesmo já partindo de um texto rico e repleto de nuances, consegue intensificar ainda mais os sentimentos através das imagens. Aliado à fotografia de Claire Mathon, o olhar da diretora produz ações e registra momentos que são verdadeiras pinturas em movimento, que o espectador tem o privilégio de admirar.

Além do amor, o filme levanta um tema ainda muito pertinente: o feminismo. Em uma conversa com Héloïse, Marianne explica que as mulheres da época não tinham autorização para pintar modelos nus. Essa falta de acesso e o fato de ter que usar um pseudônimo masculino para expor os próprios trabalhos demonstra a tentativa de limitar o espaço e o êxito das mulheres nesse universo.

Enxergo o feminismo também inserido durante a citação da história de Orfeu e Eurídice. Na discussão sobre os motivos que levaram ao desfecho do mito, Héloïse levanta a possibilidade de a personagem feminina ter instigado o amado a se virar antes de chegar à superfície. Essa hipótese subverte a narrativa usual com um olhar que coloca na mulher a responsabilidade pela ação que define o destino dos personagens.

Muito vivo no roteiro, o desejo entre protagonistas resulta dessa forma também por conta do desempenho das atrizes. Adèle Haenel consegue imprimir em Héloïse o mistério e o ardor necessários. Ao mesmo tempo em que é sutil, o olhar da intérprete “engole” o espectador em determinados momentos. Noémie Merlant sustenta a interpretação na força e na independência de Marianne, marcada, ainda, pela incerteza daquele amor.

“Retrato de uma Jovem em Chamas” é uma história que equilibra perfeitamente sutileza e desejo para retratar uma bela paixão, que, mesmo depois de uma separação, é eternizada em uma imagem inesquecível. Diante de algumas situações, a lembrança pode ser muito valiosa.

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS

ONDE VER: Now (Net/Claro)

COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)

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