Filmes

“AmarElo” vai muito além do registro musical e faz chamado afetuoso à realidade

“Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje”. Não é à toa que Emicida começa o documentário “AmarElo – É Tudo pra Ontem” com esse ditado iorubá, etnia africana da maioria dos negros que foram escravizados na América e que foi responsável pela introdução do candomblé no Brasil. A frase é a síntese de uma reflexão sobre ciclos e reparações proposta pelo rapper com muita propriedade e afeto a partir de um chamado à realidade.

Dizer que “AmarElo” é um documentário sobre o processo de criação do álbum homônimo do artista ou apenas um registro de um show é reduzir demais a importância do projeto. Emicida propõe sim um passeio por essa obra, mas entende que a própria trajetória está diretamente conectada ao contexto histórico do país e aos caminhos que ainda precisam ser desbravados.

Entre bastidores de gravações e cenas do dia a dia, Emicida, narrador do documentário, revisita o passado e mostra sem floreios como a escravidão, a tentativa de embranquecimento da população e o processo de gentrificação produziram desigualdades absurdas na sociedade brasileira. Jogando luz nesses aspectos históricos, o longa deixa claro que o racismo estrutural também está presente na forma como os acontecimentos são ensinados.

“AmarElo” revela o tamanho da nossa ignorância quando descobrimos que não sabemos o suficiente sobre figuras negras importantes da história brasileira, como Joaquim Pinto de Oliveira, mais conhecido como Tebas, arquiteto que chegou a São Paulo escravizado e deixou marcas relevantes na arquitetura da cidade; e Lélia Gonzalez, intelectual e ativista do movimento negro que inspirou figuras como Angela Davis.

Ainda nessa linha, o documentário enaltece figuras culturais que nem sempre recebem o justo reconhecimento, como o músico e compositor Wilson das Neves; o conjunto Oito Batutas; e a grande atriz Ruth de Souza. Todos se conectam de alguma forma ao repertório musical de Emicida. A jornada do filme é marcada, ainda, por uma análise sobre as origens do rap brasileiro e as influências de outros ritmos, como o samba, nessa forma de expressão.

Enquanto narra os bastidores do show que ocorreu em 2019, no Theatro Municipal de São Paulo, o rapper destaca a importância de negros das mais diversas faixas etárias ocuparem locais como aquele, considerando que o racismo e desigualdades sociais acabam por excluí-los desses espaços.

Outro ponto importante do documentário é a proposta feita ao espectador para uma reflexão sobre ciclos e reparações, que, além de se encaixar nas discussões sobre a sociedade brasileira, também utiliza como exemplos a natureza e a pandemia do novo coronavírus.

Não pensem, no entanto, que “AmarElo” chama o espectador à realidade de maneira agressiva e chata. O roteiro e a narração de Emicida convidam afetuosamente o público a acompanhá-los nessa jornada, deixando, com isso, poderosas mensagens de justiça, esperança e amor.

Muito mais do que um registro musical, o documentário “AmarElo” se consagra como um afetuoso chamado à realidade, sem pedantismo ou sisudez. É um convite para nos conectarmos com os outros, valorizarmos a nossa história e darmos as mãos para superarmos obstáculos e combatermos injustiças. É esse o único caminho, afinal, como diz a letra de “Principia”, uma das canções do álbum, “tudo que nóis tem é nóis”.

AMARELO – É TUDO PRA ONTEM

ONDE: Netflix

COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)

Deixe um comentário