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Proposta bem-intencionada é única qualidade de “A Festa de Formatura”

Depois de emplacar várias séries de sucesso nos canais Fox, Ryan Murphy foi contratado a peso de ouro pela Netflix para produzir conteúdo na plataforma de streaming. Uma das características do trabalho do diretor/roteirista/produtor é não poder ser classificado por meios-termos: ou ele acerta muito ou erra na mesma proporção. A segunda opção define o musical “A Festa de Formatura”, que só não é um equívoco maior por conta da proposta bem-intencionada.

No filme, Dee Dee Allen (Meryl Streep) e Barry Glickman (James Corden), dois atores egocêntricos da Broadway, têm o espetáculo cancelado logo após a estreia por conta das péssimas críticas recebidas. Desestabilizados, eles decidem procurar uma causa para defender e utilizar a boa publicidade para reposicionar as carreiras. A ideia também é abraçada por Angie Dickinson (Nicole Kidman), uma atriz que nunca consegue o posto de protagonista; e Trent Oliver (Andrew Rannells), ator que paga as contas trabalhando como garçom.

Após uma rápida busca nas redes sociais, o grupo sobe em um ônibus e parte para uma cidade conservadora de Indiana, local onde vive Emma (Jo Ellen Pellman), uma jovem que está sendo impedida de ir com a namorada ao baile de formatura da escola. Para evitar que a garota vá ao evento, a associação de pais da instituição cancela a festa para todos os estudantes.

Em meio aos debates sobre a decisão, os atores da Broadway desembarcam na cidade e começam uma campanha para que a escola realize um baile inclusivo, ideia também defendida pelo diretor da instituição Tom Hawkins (Keegan-Michael Key), podado pelos pais conservadores dos alunos, liderados pela personagem de Kerry Washington.

“A Festa de Formatura” tem a premissa tirada de um fato ocorrido em 2010, no estado norte-americano do Mississippi. Na ocasião, uma aluna conseguiu na justiça o direito de levar a namorada ao baile da escola, depois que uma associação tentou cancelar o evento. A ação judicial forçou a instituição a realizar uma festa inclusiva, mas a maioria dos estudantes acabou indo a um baile paralelo, esvaziando a celebração oficial.

Inspirado também em um espetáculo da Broadway, o musical de Murphy tem na proposta a principal e, talvez, única qualidade. É sempre importante que surjam projetos cinematográficos que defendam tolerância, respeito e inclusão. A história da garota que quer ter assegurado o direito de ir ao baile com a namorada, assim como os colegas, sozinha já é uma oportuna mensagem contra o preconceito.

A escolha do projeto mostra a boa intenção dos envolvidos em discutir uma temática tão importante, só que “A Festa de Formatura” não passa de uma promessa. O roteiro ruim, repleto de frases de efeito e clichês mal desenvolvidos, é o principal inimigo da intenção de levar ao público um discurso mais consistente.

O ritmo da narrativa também é um problema. A pressa em apresentar o enredo no começo dá uma impressão de superficialidade aos conflitos e à construção dos personagens, prejudicando o envolvimento do espectador na história, o desenvolvimento e a conclusão da trama.

Mais do que apenas defender o tema, em alguns momentos, o musical parece ter a intenção de usar a comédia para fazer uma crítica sobre celebridades que buscam uma causa para abraçar com o objetivo de ter uma boa imagem pública, ainda que não sejam necessariamente envolvidas com ela. Isso não funciona justamente pela má qualidade do roteiro, que até acaba imprimindo uma sensação contrária: a de que o filme embarca no oportunismo que parece condenar. Só não me convenço disso por conta do histórico de Murphy, responsável por algumas obras que equilibram humor e críticas sociais.

Produto de um gênero em que excessos estéticos costumam ocorrer, o longa consegue pecar pelo exagero nessa área e também na construção dos números musicais. Ainda é preciso dizer que as canções que pontuam a história são totalmente esquecíveis.

“A Festa de Formatura” tem no elenco grandes nomes de Hollywood, mas isso não ajuda o filme em absolutamente nada. James Corden está péssimo e parece não conseguir se descolar da personalidade de apresentador de talk show. Nicole Kidman foi escalada para uma figuração de luxo, já que a personagem dela tem pouca importância na trama. E o que dizer de Meryl Streep? Não me lembro de ter visto a atriz tão mal em um trabalho como nessa produção e ela ainda deixa a impressão de estar incomodada em cena.

Apesar da boa intenção de levar ao público um filme com uma temática oportuna, “A Festa de Formatura” acaba não tendo uma mensagem tão forte quanto poderia, prejudicado pelo roteiro ruim, construção superficial dos personagens e sofríveis desempenhos dos atores. Li algumas opiniões que classificam o musical como um bom escapismo para o difícil ano de 2020. Mas, acreditem, há escapismos infinitamente melhores por aí.

A FESTA DE FORMATURA

ONDE: Netflix

COTAÇÃO: ★ (ruim)

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