Cinema, mais do que entreter e assim como todas as artes, tem a capacidade de provocar reflexões sobre questões íntimas e coletivas, de nos tirar de um estado confortável e abrir os nossos olhos para problemas urgentes, de nos conectar a emoções. É fácil perceber essas características no trabalho do cineasta britânico Ken Loach, especialmente nos dois últimos filmes lançados por ele: “Eu, Daniel Blake” e “Você Não Estava Aqui”.
Nos dois longas, Loach aposta em uma crueza narrativa para destacar um processo de desumanização pelo qual a sociedade passa, além de abordar a exploração dos indivíduos por um sistema cruel que visa o lucro e se aproveita das crescentes necessidades da população.
“Eu, Daniel Blake” e “Você Não Estava Aqui” marcam uma parceria de Loach com o roteirista Paul Laverty e contam com histórias aparentemente simples, que retratam situações e rotinas diárias vividas por milhões de pessoas. Com um olhar naturalista, o cineasta aposta na força dos dramas dos personagens para estabelecer uma conexão rápida com o espectador, sem apelar para recursos sonoros ou efeitos visuais.
Nesses casos, no entanto, Loach entende que apenas criar empatia entre público e personagens não é suficiente. O diretor também parece querer chacoalhar quem assiste e estimular indignações sobre os caminhos e as constantes privações de direitos básicos as quais o ser humano é submetido. As narrativas são construídas como um apelo urgente por mudanças.
Para entender melhor a potência e a urgência do trabalho de Loach, vamos detalhar melhor as discussões propostas nessas duas obras do cineasta.

A exploração do trabalhador
Muita gente, especialmente durante esse período de pandemia, já olhou para entregadores de encomendas ou comida e, por conta da crescente demanda, pensou: “eles devem estar faturando”. Poucos, no entanto, enxergam além da aparência e ignoram a jornada sobrecarregada e as condições de trabalho. “Você Não Estava Aqui”, filme mais recente de Loach, coloca uma lente de aumento sobre a rotina desses profissionais.
Atingido em cheio pela crise, Ricky (Kris Hitchen) compra uma van para trabalhar com entregas. Para isso, associa-se a uma empresa que considera os entregadores como autônomos, mas exige o cumprimento de regras e condutas. “Livre” para escolher a jornada, Ricky mergulha em uma rotina sem folgas, que, além de esgotá-lo, ainda compromete o convívio dele com a família.
Mesmo não tendo um vínculo formal com a empresa, Ricky fica preso a uma série de exigências e multas aplicadas pelos “parceiros”. Se falta e não arruma substituto, ele é obrigado a arcar com o prejuízo financeiro do dia. Também é exigido que pague um valor exorbitante pelo equipamento que usa e, se precisa se cuidados médicos, é pressionado a voltar ao trabalho rapidamente. Isso sem contar a necessidade do cumprimento de uma rigorosa e absurda escala de horários para as entregas.
Com uma câmera que segue a rotina de Ricky, “Você Não Estava Aqui” trata dos efeitos de um fenômeno conhecido como “uberização do trabalho”, modelo adotado por grandes corporações e caracterizado pela ausência de responsabilidades com a mão de obra, convenientemente chamada de “prestadores de serviço”.
Essa forma de trabalho, incentivada por políticos e empresas, passou a ganhar mais espaço a partir de afrouxamentos de regras trabalhistas e do fortalecimento do discurso de conferir mais autonomia aos trabalhadores. Crises econômicas e a diminuição de postos de trabalho formais também passaram a expor profissionais a rotinas desumanas e de consequências severas, ainda que pouco evidentes.
A dupla Loach e Laverty mostra, ainda, que essa informalização da mão de obra também afeta outras áreas, com a da saúde. Abbie (Debbie Honeywood), esposa de Ricky, trabalha cuidando de idosos, mas não é contratada formalmente. Por conta disso, ela se desdobra para atender a um grande número de pessoas em um espaço curto de tempo. O modelo é conveniente para os contratantes, que não pagam encargos trabalhistas e garantem uma atenção básica aos familiares.
A pandemia do novo coronavírus, que aumentou a demanda por entregas de diversos tipos, conferiu mais força à reflexão proposta em “Você Não Estava Aqui”. Por trás de um discurso ilusório sobre oportunidade e autonomia, empresas se aproveitam das necessidades e urgências de muitos trabalhadores para propor acordos que exploram a mão de obra dessas pessoas, sob a proteção de políticas de flexibilização de regras trabalhistas.

Desumanização e negligência do Estado
Garantir direitos básicos a todos é uma das funções do Estado, mas que nem sempre é cumprida. Aliás, não é raro que sejam criados entraves para dificultar esse acesso. O carpinteiro Daniel Blake (Dave Johns), depois de um ataque cardíaco, enfrenta muitos obstáculos para conseguir um auxílio-doença, benefício que garanta a sobrevivência dele enquanto fica incapacitado para o trabalho.
Por não ter nenhuma limitação evidente, Blake tem esse direito negado e, enquanto recorre da decisão, é orientado a entrar com um pedido de seguro-desemprego. Para contar com o benefício, no entanto, ele precisa acessar a internet, mesmo sem ter computador; se comprometer a procurar emprego, mesmo impedido de trabalhar pelos médicos; e comprovar esforços para sair dessa condição, mesmo sendo sabotado pelo próprio sistema que faz a exigência.
Para garantir que toda a burocracia seja cumprida, funcionários são treinados para ignorar necessidades e situações vividas por aqueles que pleiteiam os benefícios. Preocupados em “abrir precedentes”, servidores negam ajuda e ignoram as condições precárias as quais essas pessoas estão expostas, contribuindo para que elas permanecem em um estado de miséria.
Em “Eu, Daniel Blake”, Loach retrata essa engrenagem nefasta, corrompida por hábitos e pessoas, que contribui para um processo de desumanização pelo fato de desconsiderar necessidades básicas da população e ignorar que foi criada justamente para supri-las. O resultado é um Estado negligente, que estimula comportamentos indiferentes e ignora desigualdades.
Não é só o protagonista do longa que é afetado por esse processo. Katie (Hayley Squires), desempregada e mãe solo de duas crianças, passa por dificuldades, é completamente ignorada pelo Estado e pelo mercado de trabalho. Influenciada pela urgência e pela falta de perspectiva, toma decisões desesperadas para não deixar faltar o básico em casa. Em uma cena que estraçalha o coração, a fome faz com que ela ataque uma lata de feijões em público. É o desespero.
Uma sociedade que estimula a indiferença; desconsidera a empatia e um olhar mais humanizado; e se acostuma ao não cumprimento de direitos básicos pelo Estado não pode dar certo. Enquanto não houver indignações e ações eficientes que mudem atitudes, muitos vão engrossar a fila dos necessitados e outros tantos vão morrer esperando socorro. Ken Loach sabe bem disso e quer que o espectador dos seus filmes também tome consciência.
VOCÊ NÃO ESTAVA AQUI
ONDE: Telecine Play
COTAÇÃO: ★★★★ (ótimo)
EU, DANIEL BLAKE
ONDE: Netflix e Telecine Play
COTAÇÃO: ★★★★ (ótimo)
