Lurdes (Regina Casé) tem comido o pão que o diabo amassou na reta final de “Amor de Mãe”, novela das 21 horas, da TV Globo. A protagonista da trama de Manuela Dias foi dada como morta e trancafiada em um sítio por Thelma (Adriana Esteves), tudo isso para que Danilo (Chay Suede) não descubra que, na verdade, é o filho perdido da protagonista. O calvário de Lurdes gerou protestos dos fãs do folhetim nas redes sociais, que se revoltaram com o sumiço da personagem por um ou dois capítulos, além do sofrimento extra pelo qual ela tem passado.
As manifestações do público vão além de queixas sobre a narrativa densa da trama, antes vista como uma esperança para o espectador que procura um alívio à dureza da realidade lá fora. A verdade é que o espectador se afeiçoou muito a Lurdes e não aceita a ideia de vê-la sofrer mais do que a história já mostrou. Além de ser uma figura maternal para Magno (Juliano Cazarré), Camila (Jéssica Ellen), Ryan (Thiago Martins), Érica (Nanda Costa) e Domênico (Suede), a protagonista também virou um pouco mãe de quem acompanha a novela.
O mérito desse sentimento é todo de Manuela Dias e Regina Casé. Lurdes é uma mãe corajosa, que se desdobra para trabalhar fora, cuidar da casa, dos filhos e ainda procurar Domênico, que foi vendido pelo pai e entregue a uma traficante de crianças. Levanta todos os dias antes do sol nascer e enfrenta as inúmeras adversidades da vida sem perder o humor e o afeto.
A personagem é colocada em todo tipo de situação, dos problemas mais graves com os quais os filhos se envolvem aos momentos mais triviais. Já defendeu Magno, por exemplo, de uma acusação de assassinato; se revoltou quando Érica foi agredida pela ex-esposa ciumenta do namorado; e enfrentou bandidos para tirar Sandro (Humberto Carrão), que ela pensava ser Domênico, da vida do crime.
A simpatia do público por Lurdes não vem apenas das exibições de coragem da protagonista. A simplicidade e a naturalidade dos comentários da personagem também se refletem nessa popularidade. Lurdes verbaliza preocupações, dá conselhos e tem a inconfundível habilidade materna de constranger os filhos em determinadas situações. Quando Érica colocou um vestido de gala para sair, foi obrigada pela mãe a passar por uma sessão de fotos segurando o telefone e apontando para uma samambaia. Também fez drama pouco antes de ser operada e se desesperou ao subir pela primeira vez em um avião.
O texto de Manuela Dias encontrou em Regina Casé a intérprete ideal. Além da naturalidade em cena, a atriz mostra ter acumulado um repertório muito vasto sobre mulheres como Lurdes, certamente adquirido pela personalidade dela e pelos projetos que encabeçou como apresentadora de atrações que se dedicavam a mostrar o cotidiano de brasileiros e classes sociais menos privilegiadas.
Lurdes é um pouco como a mãe de cada um de nós, por isso é tão difícil vê-la sofrer nas mãos de Thelma, a mulher que sente inveja da intensidade da maternidade dela. Destemida, engraçada, afetuosa e intensa, a personagem já entrou para a galeria de grandes mães da teledramaturgia e, certamente, deve marcar ainda mais quando o desfecho sobre o paradeiro de Domênico for ao ar.
Assim como Lurdes, outras personagens já exerceram esse papel de mãe-coragem na ficção. Lembremos de algumas delas:

– Dulce (Morde & Assopra)
A personagem vivida por Cássia Kiss Magro trabalhava como faxineira e vendia cocada na rua para mandar dinheiro para o filho Guilherme (Klebber Toledo), que dizia estudar medicina. Só que, na verdade, ele nunca tinha pisado na faculdade e esbanjava com a grana suada que a mãe enviava. Quando voltou para casa, o jovem ainda fingiu não conhecer Dulce para conquistar Alice (Marina Ruy Barbosa), uma rica esnobe. Quando a farsa de Guilherme veio à tona, Dulce foi dura com o filho, mas nunca desistiu dele. Ainda que muito magoada, fez de tudo para reforçar valores e colocar o garoto no caminho certo. A simplicidade, a batalha e a retidão de caráter de Dulce ajudaram na redenção de Guilherme no fim da trama.

– Maria do Carmo (Senhora do Destino)
Na novela de Aguinaldo Silva, Maria do Carmo (Carolina Dieckmann) migrou do Nordeste para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Chegando na cidade, exatamente no dia da decretação do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), o mais duro decreto da ditadura militar, a protagonista tem a filha mais nova sequestrada por Nazaré (Adriana Esteves). Sem descuidar dos outros quatro filhos, Do Carmo se estabelece, enriquece e nunca deixa de procurar pela criança desaparecida. Vivida por Susana Vieira na segunda fase, a protagonista encontra Lindalva (Carolina Dieckmann) e a sequestradora, Nazaré (Renata Sorrah). A obstinação em rever Lindalva e a forma como se envolvia com os demais filhos foram características que ajudaram na popularidade da personagem e, por consequência, no sucesso do folhetim.

– Piedade (Velho Chico)
Ao lado do marido Belmiro (Chico Diaz), Piedade (Cyria Coentro) foge da seca carregando o filho Santo (Rogerinho Costa) e o pouco que tinha. A família se estabelece em Grotas do São Francisco, na Bahia, e acaba se envolvendo no meio de um conflito entre os Rosa e os Sá Ribeiro. A “guerra” dura anos e contabiliza perdas dos dois lados. Piedade, vivida na fase mais madura por Zezita Matos, se transforma em um vetor de força e sabedoria do núcleo contrário ao coronel Afrânio (Antonio Fagundes), além de ser uma conselheira para Santo (Domingos Montagner), que se apaixona por Maria Tereza (Camila Pitanga), a herdeira dos Sá Ribeiro. Além de moldar o caráter da família, Piedade também se envolve diretamente na rixa entre as famílias, inclusive, para interceder pelos filhos e pedir a paz.

– Helena (Laços de Família)
A protagonista da novela de Manoel Carlos não hesitava em abdicar dos próprios interesses em nome da filha. Primeiro, ao descobrir que Camila (Carolina Dieckmann) tinha se apaixonado por Edu (Reynaldo Gianecchini), Helena (Vera Fisher) se afastou e deixou o caminho livre para que os dois pudessem concretizar a paixão. É claro que a relação das duas foi conflituosa por um período, mas Helena nunca pensou nela em primeiro lugar. Depois, quando já estava envolvida com Miguel (Tony Ramos), terminou o relacionamento para engravidar de Pedro (José Mayer) e, assim, tentar salvar Camila, que tratava uma leucemia e precisava das células-tronco do cordão umbilical da futura irmã. Sempre reservando dilemas fortes para suas Helenas, Manoel Carlos colocou essa relação mãe e filha em primeiro plano e fez de “Laços de Família” um sucesso incontestável.

– Lucinda (Avenida Brasil)
A moradora do lixão de “Avenida Brasil” tinha dezenas de filhos, mas apenas um do próprio sangue. Lucinda (Vera Holtz) alimentava e protegia as crianças que chegavam no local, deixando-as longe da influência de Nilo (José de Abreu). Cuidou de Rita (Mel Maia), a menina abandonada pela madrasta Carminha (Adriana Esteves) e pelo amante dela, Max (Marcelo Novaes), que era filho biológico de Lucinda. A personagem também tinha uma relação maternal com Carminha, acolhida no fim da novela. Mãe Lucinda, como também era chamada, ainda foi capaz de assumir o assassinato do filho para livrar Nina/Rita (Débora Falabella), que era uma das suspeitas. Lucinda não se prendia a laços sanguíneos e acolhia todos que precisassem de um carinho materno, mesmo aqueles que tinham atitudes condenáveis.
