Há quem diga que assistir ao “Big Brother Brasil” é uma perda de tempo, que não acrescenta nada ao intelecto ou que é mais uma forma de estimular que pessoas cuidem das vidas de outras. Talvez tudo isso esteja certo, mas ficar restrito a essa definição de entretenimento vazio é cometer uma injustiça com o programa e com a força que a televisão tem de entrar na casa do espectador e refletir a sociedade, trazer assuntos à tona, expor comportamentos e ensinar.
Boa parte dos acontecimentos desta semana no programa giraram em torno de um comentário racista feito pelo cantor sertanejo Rodolffo, eliminado nesta terça-feira (6). Vestindo uma roupa de homem das cavernas para cumprir um castigo, o ex-participante do reality comparou a peruca que usava ao cabelo do professor João Luiz, que, depois, desabafou com alguns outros colegas de confinamento sobre como aquela fala repetia um preconceito com o qual ele precisou lidar a vida toda.
Sem ter conseguido reagir no momento do comentário de Rodolffo, João desaguou tudo o que tinha sentido durante uma dinâmica do “Jogo da Discórdia”, que tradicionalmente acontece no programa às segundas-feiras. Além de confrontar o cantor sobre a fala racista, João também revelou como aquilo expunha feridas abertas desde muito cedo nele. Também estimulou a influencer Camilla de Lucas a contar sobre suas experiências.
A reação de Rodolffo no programa ao vivo foi uma das mais explícitas demonstrações de racismo estrutural que a televisão brasileira já transmitiu. Além de usar o já batido discurso do “mas eu tenho amigos ou familiares negros”, o cantor sertanejo não demonstrou nenhuma disposição ao escutar quando tentavam mostrar que ele estava errado e, ainda, tentou se colocar na mesma posição das pessoas que sofriam preconceito, alegando que o cabelo dele também era crespo.
Aqueles que vivem em um Brasil inventado, onde o racismo não existe, se apressaram em ir às redes sociais para defender o cantor e condenar a atitude de João em trazer o assunto ao programa. “Vitimismo” e “mimimi” foram alguns dos termos utilizados para justificar e defender a fala de Rodolffo, que, lá dentro da casa, mesmo ouvindo argumentos de Camilla, continuava dizendo que o comentário não era racista pelo fato de ele também ter um cabelo que não é liso.
A repercussão do fato fez com que, pouco antes de anunciar a eliminação da semana, o apresentador Tiago Leifert quebrasse o clima de jogo para conversar com Rodolffo sobre a dor de João acionada pelo comentário. Foi um discurso didático e importante para que o programa e a televisão como um todo pudessem cumprir com uma função primordial: apontar, ponderar e ensinar. O cantor se desculpou, mas não ouviu e, em seguida, voltou a reduzir a questão a uma comparação com o cabelo dele.
É muito importante que um tema como o racismo estrutural seja apresentado de uma forma tão explícita na TV e que ganhe desdobramentos no próprio veículo e nas redes sociais. É claro que, assim como o cantor, há aqueles que não escutam e continuam dizendo que é “mimimi” ou “vitimismo”. Outros insistem que aquilo foi uma “brincadeira” e muitos verdadeiramente não enxergam maldade em uma fala dessas.
O racismo ainda está muito entranhado na nossa sociedade e, mesmo estando no século 21, ainda não conseguimos acabar com ele. Falta escuta, disposição para ouvir quando alguém diz que estamos reproduzindo um comportamento preconceituoso e coragem para assumir verdadeiramente o erro, sem “mas” ou “porém”. Se alguém aponta uma atitude racista, aquele que praticou o ato deve ouvir, se desculpar e não fazer de novo. Aliás, não se pode mais esperar que algum negro aponte o erro, cabe aos brancos a iniciativa de buscar informações. A desculpa do “errar é humano”, que é repetida à exaustão, não cola se não fizermos algo a respeito.
Aliás, falemos de respeito, outro artigo em falta na sociedade. Quando um branco chama a reação a um comentário racista de “mimimi” ou “vitimismo”, não só desrespeita a dor e a vivência de quem foi alvo do preconceito, como também esquece de tentar entender a situação sob a ótica do outro, de ter empatia. É preciso respeitar a fala do outro, levar em consideração a experiência e o conhecimento alheios.
Tanta exposição, discussão e reflexão saiu de um programa de televisão como o “BBB”, que também já abordou temas como machismo, relacionamentos tóxicos, tortura psicológica, preconceitos sobre sexualidade, bulimia e outros. Pode ser um programa fútil sobre a vida alheia, mas não é só isso. É claro que há quem não goste do formato ou da maneira como os debates chegam ao público, isso nem se discute. Não dá, no entanto, para ignorar a importância que o programa ganha levando esses temas para dentro da casa das pessoas. Entretenimento vazio? Longe disso.
