Autores de novela costumam reservar reviravoltas e guinadas para um folhetim quando ele chega ao centésimo capítulo. Funciona como uma espécie de transição para o terceiro ato de uma trama, um ponto de virada que encaminha para o final. No caso de “Amor de Mãe”, essa marca foi atingida de outra maneira. A pandemia do novo coronavírus impediu que as gravações da história de Manuela Dias continuassem e a exibição foi interrompida no capítulo 102, em março de 2020. Um ano depois, voltamos a ver dona Lurdes (Regina Casé) na tela para a melhor conclusão possível diante de tantos obstáculos.
A novela das 21 horas foi construída tendo como base três tipos de amores maternais. Lurdes representou o amor incondicional, aquele que não esmorece, que enfrenta qualquer problema, incansável. Além da rotina pessoal e de se envolver com os dilemas dos quatro filhos que criou, a protagonista nunca desistiu de encontrar Domênico, vendido pelo pai ainda criança. Já Vitória (Taís Araújo) simbolizou um amor urgente, que carregava culpa pelo abandono de um filho e que encontrou caminhos para o desenvolvimento de uma família. O terceiro foco era o amor insano de Thelma (Adriana Esteves), que buscava suprir a dor de uma ausência e não via limites para satisfazer um desejo de posse. Todos são amores de mães. É possível julgá-los? Eu não me atreveria.
Nos 23 capítulos da fase final de “Amor de Mãe”, vimos Thelma agir contra Lurdes para manter em segredo que Danilo (Chay Suede) era Domênico, comprado depois que o filho dela morreu em um incêndio. Já com algumas mortes nas costas, Thelma escolhe manter Lurdes em um cativeiro e fazer com que a protagonista fosse dada como morta. A personagem acabou sendo resgatada pelo filho que tanto procurou e a mãe de criação dele passou a ser perseguida pela polícia.
Armando para fugir com o neto, filho de Danilo e Camila (Jéssica Ellen), Thelma é presa e vai parar no hospital por conta do aneurisma que carregou ao longo da novela. Antes de morrer, tem um acerto de contas com Lurdes e um breve momento com o foco desse amor insano. O tempo passa e o tão procurado Domênico aprofunda os laços com a família de sangue até chamar Lurdes de mãe pela primeira vez.
A saga da mãe em busca de um filho perdido não é nenhuma novidade, mas segue arrebatando o espectador como se estivesse sendo contada pela primeira vez. O mérito é de Manuela Dias e da equipe de colaboradores, que construíram Lurdes com características fortes e um texto muito inspirado. Regina Casé também é responsável por esse sucesso, uma vez que soube compor uma personagem muito brasileira, popular e que representou um pouco todas as mães. A cada demonstração de amor, Lurdes parecia acolher também o espectador. É um trabalho que já entrou para a história da televisão brasileira.
Desde a estreia, “Amor de Mãe” se colocou como uma novela realista, que dialogava com questões do dia a dia e equilibrava isso com ingredientes do folhetim tradicional. Sempre foi uma história intensa, mas, na volta para a fase final, isso pareceu incomodar alguns espectadores, que pediam por mais leveza em um momento difícil de pandemia. Até posso entender essa necessidade, afinal, quase todos estão impactados por essa situação que se prolonga, mas, por outro lado, essas críticas são um pouco injustas.

A dramaturgia é feita de conflitos e não dá para contar uma história sem situações que criem embates, oposições e dramas. A vilã precisa se empenhar ao máximo para atrapalhar a protagonista, do contrário, a personagem central não terá uma trajetória, um arco dramático. “Amor de Mãe” não podia voltar com tudo estando em harmonia ou como uma comédia. Essa nunca foi a proposta da novela e ela seria extremamente chata sem as maldades de Thelma ou os planos de Álvaro (Irandhir Santos). Para haver movimento, é preciso ação.
A pandemia, também inserida na história até como uma forma de justificar o distanciamento entre os atores e o uso de máscaras, inegavelmente afetou os capítulos finais e, talvez, tenha contribuído para essa sensação de que a trama estava mais pesada. Em muitas cenas, uma frieza se impôs, ainda que todo o possível tenha sido feito para possibilitar contatos e a naturalidade de sempre. É um efeito que também deve ser observado nas produções que ainda vão estrear e estão sendo gravadas com esses rígidos e necessários protocolos de segurança.
De alguma forma, a pandemia pareceu ter afetado, ainda, a construção da história e a trajetória dos personagens. Reduzida a 23 capítulos finais, quando faltavam cerca de 50 originalmente, a novela precisou concentrar o que seria mais diluído. Thelma, por exemplo, demorou 100 capítulos para “virar a chave” de vilã e, um ano depois, já apresentou uma experiência em maldades de uma antagonista nata. A trama de Vitória também foi impactada, deixando a sensação de que ideias interessantes não tiveram tempo de ser desenvolvidas.
Sobre a inclusão da pandemia na rotina dos personagens, houve críticas sobre a forma como a novela abordou algumas informações, como a imunidade de pessoas já acometidas pela doença e casos de reinfecção, e até por uma visão positivista sobre um prazo para o fim desse cenário. Acho importante lembrar que a trama precisou ser reescrita e gravada em um período de descobertas diárias e revisões de conhecimento. Não podemos olhar pensando nela como datada, mas como um recorte, o reflexo de um tempo que passa numa velocidade absurda tamanha a quantidade de detalhes.
Além da atuação extraordinária de Regina Casé, é preciso destacar o trabalho de Adriana Esteves, que soube entregar um novo resultado mesmo “vestindo a roupa” de vilã mais uma vez. Juliano Cazarré, Taís Araújo, Humberto Carrão, Tuca Andrada, Jéssica Ellen, Chay Suede, Enrique Diaz, Arieta Corrêa, Malu Galli, Clarissa Pinheiro e Irandhir Santos também tiveram desempenhos que merecem ser lembrados. Palmas, ainda, para a direção da equipe de José Luiz Villamarim, fundamental para o tom naturalista da novela; e para a fotografia de Walter Carvalho.
Não deve ter sido fácil enfrentar a situação inédita de interromper uma novela, reescrevê-la, planejar protocolos e lidar com restrição de mão de obra para entregar ao espectador o desfecho de uma história. Só por isso, “Amor de Mãe” merece a maior consideração. Fica marcada mais pela primeira fase impecável e pelos desfechos de Lurdes, Domênico e Thelma nos últimos capítulos. Acabou com o final possível diante de tantos obstáculos e, mesmo que possa ser criticada em um ou outro ponto, continua sendo uma das melhores novelas dos últimos 15 anos. Talvez até mais.
