Produções britânicas costumam apresentar elevado nível de qualidade. Além de saberem construir boa dramaturgia, geralmente também contam com ótimas atuações. Para toda regra, existe uma exceção e ela atende pelo nome de “Por Trás de Seus Olhos”, minissérie disponível na plataforma de streaming Netflix. Enganando o espectador no início, quando parece construir um suspense minimamente instigante, a atração logo mostra que é uma grande perda de tempo.
Baseada no livro de Sarah Pinborough, “Por Trás de Seus Olhos” começa com o encontro ocasional de Louise (Simona Brown) e David Ferguson (Tom Bateman) em um bar. Não demora muito para que ela descubra que ele é psiquiatra e vai começar a atender pacientes no consultório onde trabalha alguns dias por semana. Para complicar mais essa relação, David é casado com Adele (Eve Hewson), uma mulher que guarda mais segredos do que aparenta.
A relação de David e Adele carrega um clima de tensão, o casamento parece estar se desfazendo e há insinuações de que o marido tem um comportamento agressivo e mantém a esposa à base de remédios. Para fazer isso, usa como desculpa o passado de Adele, que já esteve internada em uma clínica para tratamento de transtornos mentais.
Além da mistura dos relacionamentos profissional e pessoal com David, Louise complica ainda mais a situação ao começar uma amizade com Adele. A esposa do psiquiatra descobre que Louise sofre de sonambulismo e com pesadelos constantes e, por isso, compartilha com ela um diário escrito por Rob (Robert Aramayo), um jovem que ela conheceu na clínica e que registrou algumas técnicas que acabam com os sonhos ruins.
No primeiro episódio, “Por Trás de Seus Olhos” até consegue enganar o espectador. Ainda que não apresente novidades, a história aguça a curiosidade sobre a relação misteriosa de David e Adele, mais impactada pela chegada de Louise e pela forma que ela passa a se envolver com os dois. A ilusão de suspense psicológico, no entanto, dura pouco e o público fica preso em acontecimentos repetitivos e tediosos, que não levam a lugar algum.

Também fica gritante, a partir disso, uma mudança na narrativa, que abandona a sutileza e a dubiedade dos personagens para dar espaço a clichês e exageros. No meio da maratona, o espectador pensa: “não pode ficar pior do que isso”. Mas, fica.
Para explicar os mistérios apresentados, “Por Trás de Seus Olhos” introduz uma temática sobre projeção astral que parece totalmente aleatória, jogada mesmo no roteiro, e que termina de desvalorizar o que já vinha em decadência. Que fique claro: nada contra o assunto, há diversas teorias, estudos e pessoas que creem nisso, esse não é o ponto. Só que a forma como o tema é colocado, sem qualquer encaminhamento anterior, transforma a história numa completa bobagem. O desfecho, apesar de surpreender um pouco, surge sem vigor.
O elenco até tenta, mas não ajuda a minissérie a melhorar. Simona Brown tem bons momentos, especialmente com Tyler Howitt, que interpreta o filho de Louise, mas é só. A falta de química dela com Tom Bateman é evidente, o que deixa o casal principal gelado. Eve Hewson se sai melhor no início, quando Adele parece ter mais nuances, mas logo se prejudica pela perda da sutileza da história.
“Por Trás de Seus Olhos” não faz jus à boa fama das produções britânicas. A minissérie até alimenta o entusiasmo do espectador no início, mas, num piscar de olhos, embarca em um desenvolvimento tedioso e piora tudo com uma conclusão aleatória. É um daqueles casos em que a gente pensa: “por que eu perdi meu tempo vendo essa besteira?”.
POR TRÁS DE SEUS OLHOS (minissérie em seis episódios)
ONDE: Netflix
COTAÇÃO: ★ (ruim)
