Uma história contada no cinema não surge apenas das palavras escolhidas para construir o roteiro. Além do que está escrito e é encenado, há outros elementos cinematográficos que são utilizados para transmitir o que se deseja ao espectador. Luz, enquadramento, cenário, corte e som são algumas das ferramentas que sustentam uma trama e transmitem o propósito dela, seja de maneira sutil ou explícita. “Meu Pai”, do diretor Florian Zeller, apresenta uma combinação perfeita de tudo isso e o resultado é de um impacto absurdo.
Baseado na peça teatral do próprio Zeller, “Meu Pai” foca em Anthony (Anthony Hopkins), um homem que acaba de espantar mais uma cuidadora, o que obriga a filha dele, Anne (Olivia Colman), a procurar outra profissional para a função. A mudança acontece justamente quando ela está se preparando para morar em Paris, o que torna a contratação ainda mais urgente.
Anthony é um homem de hábitos e, como a própria filha define, tem lá suas manias. Procura, por exemplo, insistentemente por um valioso relógio sempre escondido por ele mesmo, mas que insiste ter sido roubado. Também implica bastante com Anne e não economiza elogios à filha mais nova, que, segundo ele, mora fora e nunca entra em contato. O personagem ainda tem muito zelo pelo apartamento em que vive há décadas.
Tantos esquecimentos e saudosismos revelam, na verdade, um processo de demência pelo qual o protagonista está passando. Além de não lembrar onde deixa os objetos, Anthony também confunde memórias e características das pessoas que vivem à volta dele. Até mesmo o apego que ele tem ao apartamento se mistura nas memórias. Será que ele está onde imagina estar?

Assistindo “Meu Pai”, o espectador consegue claramente perceber a potência do texto teatral de Zeller e a dinâmica pensada para o palco. Aqueles que têm o pé atrás com essas adaptações, no entanto, não precisam se preocupar. Christopher Hampton, responsável pelo roteiro, entende perfeitamente como transpor as ações para as telas, encaixando-as no ritmo cinematográfico. O espectador está sempre a par das mesmas informações e percepções de Anthony, o que permite uma conexão maior com as angústias do personagem.
Com uma adaptação de qualidade em mãos, Zeller mostra inteligência e total domínio dos elementos cinematográficos que poderiam enriquecer a narrativa. O filme usa enquadramentos, cortes, trilha sonora e cenários para colocar o público dentro da confusão mental de Anthony. A decoração do apartamento onde o personagem mora muda com frequência; movimentos de câmera e a edição embaralham a cronologia; e a música eleva a tensão e o desespero. Essa escolha do diretor e a execução da equipe fazem toda a diferença no resultado final.
Anthony Hopkins é um ator consagrado e que já interpretou diversos personagens marcantes. Mas, me arrisco a dizer que ele nunca esteve tão bem. O intérprete mergulha fundo no desespero daquele homem que está perdendo as memórias e entende a complexidade de sensações, transitando com uma assustadora naturalidade entre elas. É um trabalho que emociona muito e merece o Oscar para o qual foi indicado, mesmo que o vencedor acabe sendo o favorito Chadwick Boseman, de “A Voz Suprema do Blues”. Ainda é preciso destacar a extraordinária atriz que é Olivia Colman, sempre uma presença marcante em cena.
“Meu Pai” é um filme angustiante e muito triste, daqueles que dilacera o coração do espectador. Tamanha intensidade só é possível por conta de um texto de qualidade; do uso coordenado e irretocável de elementos cinematográficos, como cortes e cenário, para enriquecer a narrativa; e do desempenho fenomenal de Anthony Hopkins, que compartilha com quem assiste todo o desespero de um homem confrontado por uma crescente confusão mental.
MEU PAI
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COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)
