Filmes, Listas

Esnobados do Oscar 2021

Mesmo que a cerimônia do Oscar e os indicados aos prêmios mudem a cada ano, sempre há uma certeza: vai haver uma lista de filmes e artistas que são solenemente esnobados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.

Mais diversa do que em anos anteriores, refletindo uma tentativa da Academia de renovar os votantes e expandir o olhar, a lista de indicados não escapou de ignorar boas obras e atores com desempenhos dignos de elogios. É claro que podemos compreender que o número de indicações é limitado em cada categoria, mas, ainda assim, alguns nomes são ausências sentidas. Vamos lembrar deles a seguir:

Divulgação/Netflix

– Destacamento Blood

Mais uma vez unindo discurso relevante e boa dramaturgia, Spike Lee criou um filme surpreendente e que toca em questões fundamentais dos Estados Unidos. “Destacamento Blood” apresenta um grupo de amigos que lutou na Guerra do Vietnã e que, anos depois, decide voltar ao local do conflito para enterrar dignamente os restos mortais de um companheiro e, ainda, recuperar um tesouro deixado por lá. Nessa jornada, o espectador descobre personagens construídos por várias camadas e vê discussões importantes sobre racismo, política, traumas e violência. “Destacamento Blood” tem todas as qualidades para estar entre os indicados ao Oscar, mas foi esnobado nas principais categorias, como melhor filme e diretor, e acabou apenas com uma mísera menção entre os possíveis vencedores de melhor trilha sonora original.

Divulgação/Netflix

– Delroy Lindo

Por falar em “Destacamento Blood”, o filme não teria o mesmo resultado se não fosse a atuação impressionante de Delroy Lindo. No ano passado, quando o longa foi lançado pela Netflix, a indicação do ator era dada como certa, mas isso não aconteceu. Mais uma das injustiças da Academia. Lindo mostra vigor em cena e entrega um desempenho que evidencia as complexidades de Paul, um homem assombrado pelos fantasmas do passado de guerra. É um personagem que vive em extremos e aparece na história à beira da loucura, o que angustia os companheiros de jornada dele e o espectador. Um belo trabalho do ator, que não precisa do Oscar para esse reconhecimento.

Divulgação/Netflix

– Chadwick Boseman

Para terminar de apontar as injustiças com “Destacamento Blood”, é preciso citar Chadwick Boseman. É verdade que ele foi indicado ao prêmio de melhor ator por “A Voz Suprema do Blues” e até tem chances de ganhar, mas poderia tranquilamente ter o nome lembrado também em outra categoria: a de ator coadjuvante. Boseman faz uma participação pequena, mas muito marcante no filme de Spike Lee. O personagem funciona como um elo entre os amigos que lutaram no Vietnã e o destino dele determina o futuro dos companheiros. Em pouco tempo de tela, Boseman surge gigante e se estabelece como uma das forças do filme. Já que não é incomum que a Academia indique um mesmo ator em categorias diferentes, ficou faltando esse reconhecimento ao penúltimo trabalho de Boseman, que faleceu no ano passado.

Divulgação

– Babenco

O documentário brasileiro que marca a estreia de Bárbara Paz como diretora sequer chegou a ser indicado, foi barrado nas fases de pré-seleção, mas merecia muito uma vaga. “Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou” é um dos melhores filmes do ano passado, um projeto pessoal da cineasta que chega facilmente ao coração de quem assiste. Utilizando registros íntimos, Bárbara Paz revisita a carreira do renomado diretor Hector Babenco, com quem foi casada, e registra a forma como ele lidou com problemas de saúde até falecer, em 2016. O documentário tem momentos difíceis e tristes, mas a diretora também encontra espaço para celebrar a vida e para mostrar a beleza que pode surgir da dor. Belíssimo.

Divulgação/Amazon Prime Video

– A Vastidão da Noite

Eu sei que o espaço que o Oscar dá a filmes pequenos é limitado, mas “A Vastidão da Noite” é tão bom que merecia mais atenção dos membros da Academia de Hollywood. Essa ficção científica de baixo orçamento impressiona pela qualidade do material e, especialmente, por submeter o público a uma espécie de experiência sensorial. Uma ameaça extraterrestre chega a uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos, mas os personagens não conseguem vê-la, apenas escutam. O espectador é colocado nesse mesmo ponto e experimenta a agonia daqueles que fogem das criaturas. A câmera frenética do longa ajuda nessa imersão na história. Se o Oscar é vendido como a premiação dos melhores, “A Vastidão da Noite” deveria estar entre os indicados, mesmo que só aparecesse concorrendo a prêmios técnicos.

Divulgação/Netflix

– Ellen Burstyn

Às vésperas do lançamento de “Pieces of a Woman”, muitos apostavam no nome de Ellen Burstyn como uma das indicadas ao prêmio de melhor atriz coadjuvante. Bom, isso não aconteceu. A atriz até chegou a ser lembrada em outras premiações, mas ficou de fora do Oscar. A ausência pode ter sido reflexo de uma campanha contrária ao filme, que foi inserido no meio de uma polêmica envolvendo o ator Shia LaBeouf, que enfrenta acusações de agressão e abuso sexual. Ellen Burstyn merecia uma vaga entre as indicadas, é uma força de “Pieces of a Woman”, ainda que apareça pouco em cena. O grande momento da atriz no longa é uma discussão que ela tem com a filha, papel de Vanessa Kirby, que encara a perda do filho recém-nascido. Nesse acerto de contas, Ellen Burstyn mostra todo o talento e humaniza a personagem.

Divulgação/Netflix

– A Voz Suprema do Blues

O filme baseado na peça teatral de August Wilson foi citado em algumas categorias, como melhor atriz e ator, mas ficou de fora da principal: a de melhor filme. Qualidades para pleitear o prêmio mais importante da cerimônia o longa tem de sobra. “A Voz Suprema do Blues” acompanha um dia de gravação do disco de Ma Rainey (Viola Davis) e a relação da gravadora com a cantora e os músicos que a acompanham. Com diálogos marcantes, o longa deixa claro o racismo que os artistas negros tinham que enfrentar naquele meio, onde o talento deles era explorado em benefício dos brancos. As atuações são bases importantes do filme, é verdade, mas a produção merecia mais reconhecimento por outros aspectos.

Divulgação

– Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

Outra produção pequena que poderia não só ter sido indicada, como também impulsionada por citações no Oscar. “Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre” acompanha uma adolescente que fica grávida e que, sem contar aos pais, segue com a prima para Nova York em busca de uma clínica que interrompa a gravidez. Nessa jornada, além das inseguranças que surgem dessa condição, a adolescente encara a jornada que as mulheres enfrentam todos os dias, alvos de um mundo machista e perigoso. É um filme que trabalha mais com reações do que com palavras, os silêncios que se impõem acabam dizendo muito mais sobre a história. “Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre” pode não ter se credenciado para o Oscar pela temática, o que configura mais uma injustiça da Academia, mas é um filme sensível e muito necessário.

Divulgação/Amazon Prime Video

– Uma Noite em Miami e Regina King

A estreia da ótima atriz Regina King como diretora foi ignorada pela Academia de Hollywood neste ano, assim como “Uma Noite em Miami”, que até emplacou algumas indicações, mas também ficou de fora da categoria de melhor filme. A condução segura da direção é um dos pontos altos do longa, que imagina um encontro fictício entre o boxeador Muhammad Ali, o ativista Malcolm X, o cantor Sam Cooke e o jogador Jim Brown. Reunidos em um quarto de hotel, os quatro discutem as carreiras, o futuro, a violência e o racismo da sociedade. Contando com texto e elenco ótimos, “Uma Noite em Miami” acaba dialogando muito com os dias atuais e, somente por isso, merecia a indicação ao Oscar de melhor filme, além, é claro, de uma menção ao nome de Regina King na lista de diretores da premiação.

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