A bem-sucedida criação de um universo cinematográfico compartilhado permitiu que a Marvel desenvolvesse novos projetos e chegasse à televisão ou, mais especificamente, ao streaming. Para engrossar o catálogo, o Disney+ já lançou “WandaVision” e, agora, colocou à disposição dos assinantes toda a primeira temporada de “Falcão e o Soldado Invernal”. Nos dois produtos, é possível perceber que, mais do que turbinar uma plataforma, eles servem ao propósito de impulsionar os futuros lançamentos do estúdio no cinema.
Ao contrário de “WandaVision”, que, apesar dos problemas, tentou imprimir uma identidade diferente de tudo o que já tinha sido feito pela Marvel, em “Falcão e o Soldado Invernal” ficamos diante de um produto mais genérico, construído a partir de elementos mais comuns no universo cinematográfico da Marvel.
Em seis episódios, a série coloca em evidência dois coadjuvantes inseridos nas tramas do Capitão América (Chris Evans), ambos vivendo conflitos pessoais e tentando entender o mundo que se apresentou após a volta da metade da população global eliminada por Thanos (Josh Brolin), em “Vingadores: Guerra Infinita”.
Em posse do escudo do Capitão América, Sam (Anthony Mackie) decide entregar o item ao governo norte-americano, renunciando, assim, ao direito de assumir as funções de Steve Rogers. Enquanto ele resiste e segue como o Falcão, um militar é escolhido para vestir a fantasia com as cores da pátria e defender os interesses do Tio Sam.
A nova escolha incomoda Bucky (Sebastian Stan), que abandona uma rotina de terapia e reparação de erros do passado para insistir que Sam pegue o escudo de volta e assuma a identidade de Capitão América.
Enquanto tudo isso acontece, a dupla se vê envolvida em uma ação para impedir os planos de um grupo chamado “Apátridas”, radicais que defendem a extinção das fronteiras entre países e a criação de uma nova configuração mundial. O rosto principal dessa organização é Karli Morgenthau (Erin Kellyman), que recebeu o soro do Super Soldado, o mesmo aplicado em Steve Rogers. Para caçá-la, Sam e Bucky reencontram velhos conhecidos, como Zemo (Daniel Brühl) e Sharon Carter (Emily VanCamp).

Mais uma vez dando protagonismo a personagens que ficavam em segundo plano no cinema, “Falcão e o Soldado Invernal” apresenta uma história de ação genérica, que pouco empolga e explora de forma rasa os conflitos pessoais dos heróis. Sam e Bucky são colocados em jornadas de transformação superficiais, somente impulsionadas pela expectativa de como o desfecho vai indicar um novo caminho para a Marvel nas telonas.
Impulsionar os futuros lançamentos cinematográficos parece ser, aliás, a principal função da série. Mais do que apenas trazer assinantes para o Disney+, “Falcão e o Soldado Invernal”, assim como “WandaVision”, é um produto que alimenta com migalhas a curiosidade dos fãs desse universo para as mudanças que vão ser apresentadas nos próximos filmes do estúdio. A produção não demonstra força própria para se destacar nesse universo, serve somente para justificar transformações que não merecem filmes solos, mas estarão presentes nas histórias. Não por acaso, logo após a estreia no último episódio da temporada, foi anunciado o desenvolvimento de “Capitão América 4”, com Anthony Mackie assumindo o lugar de Chris Evans.
“Falcão e o Soldado Invernal” ainda se prejudica pela trama com vilões pouco expressivos e personagens mal aproveitados, como é o caso das guerreiras de Wakanda que caçam Zemo e da entrada de Vallentina Allegra de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus), jogada na série para deixar os fãs da Marvel alvoroçados sobre o espaço dela no futuro. Também é bastante óbvio e questionável o rumo dado para Sharon Carter.
Foi muito boa a ideia de colocar outra pessoa vestindo a fantasia do Capitão América antes da jornada de aceitação de Sam estar completa. A escalação de Wyatt Russell para viver o militar John Walker é, inclusive, um dos acertos da série, já que causa uma estranheza, como se ele não combinasse ou não tivesse direito a exercer aquela função. É uma pena que, em determinado momento, essa trama seja desvalorizada.
Evidentemente, “Falcão e o Soldado Invernal” é uma série bem produzida e um entretenimento razoável, mas poderia ser mais do que isso se houvesse a intenção de expandir a importância dos personagens e explorar caminhos diferentes no streaming. Ao invés disso, a produção genérica apenas cumpre tabela mantendo o universo Marvel relevante e gerando comentários até os futuros lançamentos no cinema, esses sim produtos onde o estúdio investe mais recursos criativos.
FALCÃO E O SOLDADO INVERNAL
ONDE: Disney+ (todos os episódios disponíveis)
COTAÇÃO: ★★ (regular)
