Não é incomum que Hollywood cresça os olhos para sucessos do cinema falados em língua não-inglesa. Há inúmeros casos de histórias que conquistaram o mundo, venceram prêmios, despertaram o interesse do mercado norte-americano e foram transformadas em remakes que, quase sempre, não carregam as mesmas qualidades dos originais.
É claro que qualquer estúdio tem todo o direito de querer contar as histórias que julgar relevantes ou lucrativas, mas, sempre que Hollywood escolhe fazer isso, a iniciativa vem acompanhada de um ar de tentativa de apropriação, como se um roteiro precisasse passar por aquela engrenagem para melhorar ou ser mais definitivo. Isso sem contar a expectativa financeira e o fato de apresentar um bom enredo ao público norte-americano sem que eles precisem acompanhar as legendas, o que, em geral, eles detestam fazer.
Vencedor do Oscar de melhor filme internacional no Oscar 2021, “Druk – Mais uma Rodada” é a mais recente vítima desse olhar de cobiça de Hollywood. Segundo o portal Deadline, após levar uma estatueta dourada, o longa dirigido por Thomas Vinterberg teve os direitos adquiridos pela Appian Way, a produtora do ator Leonardo DiCaprio, cotado para estrelar a versão norte-americana do sucesso dinamarquês.
O sul-coreano “Parasita”, vencedor de quatro Oscars no ano passado, também foi alvo de especulações sobre um remake em Hollywood. Falou-se, inclusive, em dar à história um formato de série, que seria protagonizada por Mark Rufallo. Felizmente, nesse caso, as notícias não se confirmaram.
Nem todos os longas cobiçados pela indústria norte-americana têm a mesma sorte de “Parasita”. Alguns acabam em Hollywood depois da venda dos direitos, mas são raros os que conseguem repetir o sucesso e a qualidade dos originais.
Vamos relembrar quatro filmes hollywoodianos que são versões de histórias criadas fora dos Estados Unidos e que provam que adaptar “Druk – Mais uma Rodada” é uma péssima ideia.

Olhos da Justiça (2015)
O filme dirigido por Billy Ray foi lançado cinco anos depois que “O Segredo dos Seus Olhos”, original argentino, ganhou o Oscar de melhor longa-metragem estrangeiro. A obra de Juan José Campanella é um suspense instigante, daqueles que deixa o espectador vidrado em frente à tela e de boca aberta com o final inesperado. Toda essa potência tentou ser copiada por Hollywood, mas o resultado é um remake bastante esquecível, sem personalidade e que não contava com um décimo da qualidade do texto original. Somou-se a isso a perda do impacto do desfecho e o trabalho automático do elenco, encabeçado por Julia Roberts, Chiwetel Ejiofor e Nicole Kidman. Ao contrário dos astros da adaptação norte-americana, em “O Segredo dos Seus Olhos”, Ricardo Darín brilha como o oficial de justiça aposentado que não consegue esquecer o caso mais marcante em que trabalhou.

Cidade dos Anjos (1998)
Muita gente não sabe que o romance estrelado por Nicholas Cage e Meg Ryan é a versão hollywoodiana de “Asas do Desejo”, uma obra-prima do diretor Wim Wenders. Passando pela peneira da indústria norte-americana, sobrou quase nada do original alemão, lançado em 1987. A adaptação passou por mudanças e perdeu muito da profundidade e da poesia contidos na história de amor de um anjo por uma mortal. É verdade que “Cidade dos Anjos” fez sucesso e conquistou fãs, mas está anos-luz distante da obra de Wenders, bem mais marcante e romântica.

Amigos para Sempre (2017)
O filme francês “Intocáveis” foi um sucesso automático no mundo todo, o que despertou o desejo do mercado norte-americano de se apropriar daquela história. O resultado é o remake “Amigos para Sempre”, um longa sem alma, óbvio, de estrutura narrativa mecânica. Nem mesmo a presença de Bryan Cranston no elenco foi capaz de levantar de levantar a produção. Um dos erros da versão norte-americana é a escalação de Kevin Hart, que não tinha o carisma necessário para viver o cuidador que desenvolve uma amizade improvável com um milionário. Não tinha como superar a dupla Omar Sy e François Cluzet, que dão charme ao agradável texto do original francês.

171 (2004)
“Nove Rainhas” é um espetacular filme argentino sobre dois vigaristas unidos para executar um plano que pode mudar a vida deles. Além das ótimas interpretações de Ricardo Darín e Gastón Pauls, o longa conta com um roteiro inteligente, que engana e surpreende o espectador, e uma direção competente de Fabián Bielinsky. Com todas essas qualidades, é claro que Hollywood ia se apropriar da obra para relançar a ideia e tentar alcançar um público que nem saberia da versão original. Assim surgiu “171”, o remake norte-americano estrelado por John C. Reilly e Diego Luna. A adaptação é de uma pobreza criativa absurda, que pode ser vista tanto na direção quanto nos diálogos, que faz o espectador desejar que aquilo acabe logo. Bem diferente é “Nove Rainhas”, que, mesmo com o final desvendado, é um filme para ver várias vezes sem cansar ou se entediar.

Essas listas são boas para a gente fugir, neh, rs. Realmente, o que fizeram com O segredo dos seus olhos tem um nome muito feio!
Abraços, meu amigo!
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