De um personagem à beira da morte, seja no cinema ou na literatura, espera-se um gesto grandioso, um pedido de desculpas ou, até mesmo, uma revelação antes do último suspiro. Em “Cidadão Kane”, o protagonista intriga a todos dizendo simplesmente “Rosebud”. Dita pela primeira vez em um cinema há 80 anos, essa misteriosa palavra expõe um quebra-cabeças de percepções que, para muitos, se tornou o melhor filme de todos os tempos.
Primeiro longa-metragem dirigido por Orson Welles, que também atua como protagonista, “Cidadão Kane” entrou para a história do cinema por diversos motivos e mesmo tendo sofrido uma campanha que tentava desqualificar a produção. Essa ação era encabeçada por William Randolph Hearst, magnata da imprensa que inspirou Charles Foster Kane, o personagem central da história.
A morte de Kane e a última palavra dita no leito de morte servem de pontapé inicial para o filme, que, a partir daí, persegue o jornalista Jerry Thompson (William Alland) tentando descobrir o significado de “Rosebud”. Para isso, ele entrevista pessoas que faziam parte do dia a dia do magnata e cujas lembranças são mostradas ao espectador através de flashbacks.
Depois de revelar a infância modesta e o afastamento da mãe, a história mostra Kane já adulto e interessado pela direção de um jornal de pouca expressão. Sem qualquer compromisso com a ética jornalística, o protagonista faz fortuna e se transforma em uma figura influente. Aproveitando-se da reputação e do dinheiro, passa a almejar um cargo político, mas nunca consegue reverter o prestígio em vitória.
Na vida pessoal, depois do casamento com Emily Monroe (Ruth Warrick), Kane se casa com Susan Alexander (Dorothy Comingore), uma cantora medíocre que tem a carreira prolongada por insistência do marido. A relação, no entanto, começa a ruir quando o casal se isola em uma propriedade construída a partir do desejo megalomaníaco do magnata.

Mas, afinal, o que quer dizer “Rosebud”? Buscando o significado da última palavra dita por Kane, Thompson encontra visões diferentes sobre o protagonista, relatos que evidenciam uma personalidade complexa. Se sozinha a palavra não é capaz de definir facilmente o personagem, pelo menos, ela ajuda a entender um pouco o caminho percorrido por ele.
“Cidadão Kane” tem um roteiro estruturado a partir da construção de um personagem cheio de nuances, um homem que constrói um império, mas que, no fim das contas, sempre parece não ter nada. Frustrações, ressentimento, ilusões e ambição moldam o protagonista que acabou irritando William Randolph Hearst, que não poupou esforços para que o filme caísse rapidamente no esquecimento. Não deu certo, no fim das contas.
A estreia do longa nos cinemas norte-americanos, em maio de 1941, levou ao público uma sofisticação cinematográfica que acabou revolucionando a indústria. As qualidades começavam pelo roteiro, que, além de apresentar nas telas um estudo de personagem, ficou marcado pelos diálogos inspirados.
Toda grande obra sempre tem uma história igualmente interessante nos bastidores e em “Cidadão Kane” não é diferente. Até hoje, seguem discussões sobre a autoria do roteiro do filme. Há quem diga que todo o crédito deveria ser dado a Herman J. Mankiewicz, roteirista contratado por Welles. Também há, no entanto, a versão que aponta o diretor como responsável por engrandecer as linhas escritas por Mankiewicz. No fim, os dois acabaram igualmente creditados, mas a polêmica rendeu tanto que, oito décadas depois, inspirou um longa-metragem, do qual falaremos mais adiante.
Aspectos técnicos também fizeram “Cidadão Kane” virar um marco, um ponto de virada entre o cinema clássico e o moderno. Estreando na direção e ávido pela glória, Welles emprestou um olhar arrojado à história com ângulos de câmera até então pouco usados e expandindo a profundidade dos quadros filmados. Com o diretor de fotografia Gregg Toland, o cineasta investiu, também, em um jogo de luz e sombra que se tornou definitivo na indústria a partir dali.

O contexto da obra em “Mank”
Partindo da polêmica sobre a autoria de “Cidadão Kane”, o jornalista Jack Fincher, pai do cineasta David Fincher, criou o roteiro de “Mank”, filme que resgatou as discussões sobre a criação do clássico e até foi acusado de tomar partido de Mankiewicz, figura que acabou menos conhecida do que Welles.
“Mank”, no entanto, fornece muito mais do que material para essa antiga rixa. O longa-metragem, lançado pela plataforma de streaming Netflix e vencedor de dois Oscars, oferece ao espectador o contexto que permite entender melhor as inspirações e o cenário político dos anos 30 e 40, que teve influência direta em Hollywood.
Interpretado por Gary Oldman, Mankiewicz foi responsável por vários sucessos cinematográficos, mas vivia um período difícil quando foi chamado para escrever um roteiro para Welles, naquele momento um nome em evidência por conta da transmissão radiofônica de “Guerra dos Mundos”, obra literária de H. G. Wells. Com a perna quebrada, por conta de um acidente de carro, foi isolado e colocado sob os cuidados de uma enfermeira para que se concentrasse na história e, especialmente, ficasse longe do álcool.
Imobilizado, Mankiewicz estrutura, então, o roteiro que seria futuramente cultuado e alvo de tantas discussões. Apostando em recursos consolidados por “Cidadão Kane”, escolha que ganha um tom de homenagem, “Mank” destrincha o processo criativo da obra e destaca, inclusive, como personagens reais, como Hearst e a atriz Marion Davies, serviram de inspiração para o clássico.
Não é só esse tipo de contexto que “Mank” fornece. O longa de Fincher, feito em um belíssimo preto e branco, permite que o espectador tenha noção da situação política da época em que o roteiro estava sendo produzido e da influência disso na sociedade, que ainda sentia os efeitos da Grande Depressão, a crise econômica de 1929, e que encontrou em Hollywood uma indústria que construiu uma imagem de fábrica de sonhos, um escapismo para a realidade.
“Mank” também consegue se aproximar do mundo em que vivemos hoje quando aborda a disseminação de notícias falsas em benefício de agentes políticos da época, prática que ganhou modernização e se faz presente diariamente na nossa rotina.

O melhor de todos os tempos?
“Cidadão Kane” é apontado, com frequência, como o melhor filme de todos os tempos e aparece em inúmeras listas do gênero. Alguém pode questionar: o longa é mesmo a maior obra já produzida no cinema?
A única resposta possível a essa pergunta é: depende de quem escolhe. A discussão em torno disso é muito subjetiva e, ao que me parece, bem menos importante quando se pensa na revolução que “Cidadão Kane” causou há 80 anos e na influência que o filme teve sobre tudo o que foi produzido depois.
Bem mais justo do que discutir se o longa aparece em primeiro ou em terceiro em um ranking de melhores filmes de todos os tempos é valorizar a riqueza e as mudanças proporcionadas pela última palavra dita por um homem complexo no leito de morte.
CIDADÃO KANE
ONDE VER: Telecine Play
COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)
MANK
ONDE VER: Netflix
COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)
