Confesso que a minha predileção pelos vilões se manifestou desde cedo. Nos desenhos e histórias de heróis, eram eles que chamavam primeiro a minha atenção. Viviam em castelos, na Lua; tinham cetros; usavam poderes especiais; jogavam feitiços; queriam conquistar o mundo. É verdade que sempre eram derrotados, mas, até por isso, despertavam mais simpatia.
Calma, ninguém precisa se assustar com essa confissão. Hoje, eu entendo melhor esse fascínio e não se trata de nenhum desvio de caráter. Pelo menos, espero que não. Os maus da ficção, geralmente, são os personagens mais interessantes, complexos, os mais próximos das nossas falhas tão humanas, dos nossos sentimentos contraditórios. São eles, também, que fazem o que muitas vezes nós desejamos. Não estou falando, claro, de crimes, mas daqueles pensamentos não tão virtuosos que temos de vez em quando, mas que abafamos e tentamos fingir que eles nem passaram pela cabeça.
Quando comecei a ver novelas, claro, a preferência pelos vilões continuou, mas foi uma atriz que tornou isso definitivo: Eva Wilma. Naquela época, o menino de oito anos ficava hipnotizado com Maria Altiva Pedreira de Mendonça e Albuquerque, a megera falida de “A Indomada”, folhetim escrito por Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares.
Aquela mulher com mania de grandeza, língua ferina, ambição e um vocabulário que misturava palavras em inglês com o sotaque do nordeste do Brasil nunca mais saiu da minha cabeça e isso se deve ao talento dessa atriz extraordinária, que faleceu neste sábado (16), aos 87 anos, por conta de um câncer no ovário.
Já vi algumas entrevistas em que Eva Wilma disse que Altiva era uma “personagem de olé”. Sustentada por um texto inspirado, a vilã exigia muito da atriz, que precisava equilibrar o humor e as maldades e fazer jus à qualidade das linhas escritas pelos autores. Ela não só fez isso, como engrandeceu mais a antagonista do folhetim.

Também em uma dessas entrevistas, a atriz declarou que se divertia muito fazendo esse papel e acredito que isso tenha feito toda a diferença para o resultado final. Aguinaldo Silva já afirmou que cria suas vilãs como se elas fossem personagens de desenho animado, daqueles que bolam planos infalíveis para acabar com os arquirrivais e sempre se dão mal. Já nascendo com essa caricatura, essas antagonistas precisam de atrizes que abracem a proposta e mergulhem de cabeça na interpretação, sem rede de proteção e com muito talento para não passarem do ponto. Eva Wilma fez tudo isso.
Aquele menino de oito anos cresceu com essa interpretação na cabeça, lembrando de todos aqueles “oxente, my God” ditos com pausas e entonações que só uma atriz estupenda como ela poderia fazer. Que momento aquele em que a vilã morre queimada e vira uma fumaça roxa no céu de Greenville. Dando gargalhadas, Altiva ainda tem tempo de ameaçar a todos: “I will be back. Me aguardem, eu voltarei”. Nunca esqueci disso e nunca vou esquecer graças a Eva Wilma.
Longe de querer fazer parecer que ela era atriz de uma personagem só. Teve uma carreira fantástica, foi uma das pioneiras da TV brasileira e encenou grandes textos no teatro. Escolhi Altiva por uma preferência pessoal, mas todo trabalho de Eva Wilma merecia atenção. Emocionou na belíssima primeira fase de “O Rei do Gado” como Marieta, a matriarca dos Berdinazi que convivia com a dor da perda de um filho e a loucura do marido. Foi uma presença marcante como a médica Martha, do seriado “Mulher”; e uma avó nada simpática que mimava o neto, a Cândida de “Desejo Proibido”.
Há mais de uma década, tive o privilégio de ver Eva Wilma no palco. Era o espetáculo “O Manifesto”, texto de Brian Clark com direção de Flávio Marinho, que a atriz encenava ao lado de Othon Bastos, outro ótimo intérprete. Confesso que gostaria de lembrar mais da história em si, acho que era muito novo para entender a profundidade daquela discussão política e social. Um detalhe daquela noite eu nunca esqueci: a emoção de ver aquela atriz fantástica tão de perto. Queria até que fosse ainda mais de perto, mas não havia mais ingressos para a primeira fila, onde eu gosto de sentar para ver os grandes em cena.
Na nossa teledramaturgia, as vilãs se destacam mais do que os homens maus. Elas são mais bem construídas pelos autores, têm mais possibilidades, mas só entram para a história se ganharem vida através de grandes atrizes. Eva Wilma tornou Altiva inesquecível e fez do meu amor pelas antagonistas algo definitivo. Como espectador, uso essas linhas para representar a minha admiração e agradecer a essa atriz brilhante, que deixa de habitar esse mundo, mas que nunca vai sumir da história das artes e da cabeça desse humilde fã.
