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“Bela Vingança” e a omissão da sociedade diante do machismo

Cassie (Carey Mulligan) é uma personagem de ficção, mas tem sentimentos e preocupações de mulheres reais. Vive em um mundo machista e misógino, onde elas enfrentam jornadas múltiplas de trabalho e têm os esforços pouco reconhecidos; ganham menos que os homens em cargos semelhantes; ficam sujeitas ao assédio no transporte público; ouvem comentários invasivos e nojentos disfarçados de cantadas; são julgadas pelo comprimento das roupas que vestem; têm os corpos encarados como objetos de satisfação do prazer masculino; e ainda são vítimas de violência física e sexual.

A protagonista do filme “Bela Vingança” nem precisa verbalizar todas essas questões, mas sabemos que elas estão presentes quando Cassie aparece na tela, afinal, ela é uma mulher do mundo em que vivemos. Está farta de julgamentos e comportamentos desprezíveis originados do machismo que persiste na sociedade.

Afetada por um episódio traumático envolvendo uma amiga, a personagem abandona a faculdade, arruma emprego em um café e passa a viver de forma aparentemente pacata, apenas contando com a companhia dos pais e da chefe. Essa, no entanto, é a vida “oficial” de Cassie.

Algumas noites por semana, a protagonista vai a bares e finge estar bêbada e vulnerável. Com isso, sempre consegue atrair homens que parecem apenas príncipes dispostos a ajudar uma donzela indefesa, mas que também não perdem a oportunidade de pegar à força uma “recompensa” pelo ato de cavalheirismo. O que eles não esperam é que Cassie, na verdade, nunca está embriagada e age para ensiná-los a respeitar as mulheres.

Parecendo perdida, mas, na verdade, imbuída da necessidade de fazer justiça com as próprias mãos, Cassie se abala quando encontra Ryan (Bo Burnham), um colega dos tempos de faculdade. Eles desenvolvem um interesse mútuo e começam a namorar. Esse contato permite que ela chegue mais perto de Al Monroe (Chris Lowell), alguém que precisa ser responsabilizado por ações do passado.

“Bela Vingança” é o tipo de filme que proporciona uma experiência melhor quanto menos o espectador souber antes de vê-lo. O roteiro inteligente, vencedor do Oscar neste ano, é marcado por muitas quebras de expectativa, além, é claro, das situações inspiradas e do humor ácido. Quem chega ao longa pensando se tratar de uma clássica trajetória de vingança, julgamento estimulado, inclusive, pela escolha pobre do título em português, pode perceber, se observar atentamente, que essa é uma redução injusta da história.

Divulgação/Focus Features

Cassie é sim uma justiceira que caça abusadores, mas essa é apenas uma escolha criativa de construção de trama, uma alegoria a serviço de um enredo que aparece nas entrelinhas. Está longe, inclusive, de ser um incentivo à violência, como destacam alguns comentários rasos e equivocados. A protagonista de “Bela Vingança” decide castigar os homens por sentir que não tem mais opções diante de uma sociedade omissa, formada por pessoas e instituições que minimizam abusos e comportamentos machistas, além de oferecerem brechas para que não haja uma responsabilização adequada para essas atitudes.

O roteiro de Emerald Fennell, que também dirige o filme, traz um subtexto que escancara a importância de uma mudança de conduta mais profunda em relação a denúncias e casos comprovados de estupro e violência física contra mulheres. É verdade que essas questões já evoluíram e são tratadas com mais seriedade hoje, mas também é necessário encarar que a impunidade e a proteção de agressores ainda estão muito presentes. Mecanismos que responsabilizem, punam e reeduquem os integrantes da nossa sociedade machista e misógina precisam ser defendidos e aperfeiçoados, porque, infelizmente, a realidade ainda é muito dura para as mulheres.

É claro que o revide com violência nunca vai ser uma resposta a nada, mas o longa apresenta esse extremo para frisar que a negligência e a impunidade igualmente não são opções. É preciso fazer pressão pela evolução e que medidas sejam tomadas nesse sentido para que mulheres não se sintam mais desamparadas, com a sensação de que a justiça não resolve, porque, ainda que esse sentimento não produza reações violentas como as de Cassie, ele pode gerar tortura e agressões contra elas próprias.

Para abraçar a proposta de “Bela Vingança”, só mesmo uma atriz como Carey Mulligan, sempre ótima e versátil. A intérprete transita muito bem entre as emoções da personagem, indo da fragilidade à violência. Em cena, ela dobra de tamanho, preenche os espaços e captura a atenção de quem assiste.

Esqueça o título equivocado em português. “Bela Vingança” vai além de uma simples jornada de justiça com as próprias mãos. É uma história sobre a exaustão feminina diante de uma histórica e persistente omissão da sociedade diante do machismo e da cultura do estupro. A reação de Cassie não serve como uma ameaça ou um incentivo a uma resposta violenta, mas sim como uma forma de dizer “basta” e de exigir que comportamentos sejam combatidos sem “mas” ou “poréns”.

BELA VINGANÇA

ONDE: nos cinemas

COTAÇÃO: ★★★★ (ótimo)

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