O produtor e diretor Ryan Murphy foi contratado pela Netflix, em 2018, a peso de ouro para criar conteúdo para a plataforma. Com isso, deixou para trás um acordo com a Fox, onde desenvolveu as minisséries “Feud: Bette and Joan” e “American Crime Story”, os melhores trabalhos dessa fase. Na gigante do streaming, vive um período produtivo, mas bem menos empolgante. Além das fracas séries “The Politician” e “Hollywood”, lançou o esquecível filme “A Festa de Formatura”. Agora, com a chegada ao catálogo de “Halston”, ele se redime um pouco dos equívocos anteriores.
Na minissérie de cinco episódios, Murphy assume as funções de produtor executivo e roteirista, deixando a direção com Daniel Minahan. O foco da produção é o estilista norte-americano Halston, que teve uma trajetória profissional de altos e baixos, vivendo as glórias proporcionadas pelo talento e os efeitos de uma personalidade autodestrutiva.
Halston (Ewan McGregor) começa a carreira como designer de chapéus e atinge o ápice dessa fase em 1961, quando a então primeira-dama dos Estados Unidos, Jackie Kennedy, usa o chapéu modelo “pillbox”, desenhado por ele. Em seguida, entra para o universo da alta costura e abre um ateliê para oferecer um serviço exclusivo e personalizado para as clientes. Nesse período, vira amigo e estilista oficial da atriz Liza Minnelli (Krysta Rodriguez).
O talento de Halston chama a atenção do empresário David Mahoney (Bill Pullman), que, influenciado pela esposa, faz uma oferta para comprar a marca do estilista e produzir peças mais populares, que seriam vendidas em lojas de departamento. O sucesso da empreitada, especialmente por conta de uma criação em particular, estimula o desenvolvimento de outros produtos com a grife Halston, como malas, bolsas, móveis e de um perfume feminino que vendeu igual pão quente.
Os episódios não se limitam aos feitos do estilista e mostram como Halston colocou tudo a perder. Assumindo uma persona arrogante e controladora, de dimensões proporcionais ao talento, se desinteressava pelas coleções e testava a paciência dos parceiros profissionais. De certa forma, também se autossabotava e tentava esconder uma vulnerabilidade originada por questões da infância.
Da relação com os amigos, Halston esperava receber bajulação e exigia gratidão por impulsioná-los, mesmo quando não era tão responsável pelos feitos deles. Teve, ainda, uma vida amorosa atribulada, com relacionamentos marcados por excessos, inclusive de carência.

O roteiro de “Halston” constrói uma narrativa que conduz o espectador por uma jornada de ascensão e queda. Nela, o protagonista não precisa de ninguém para desafiá-lo ou prejudicá-lo. O estilista, que reconhecidamente contribuiu para a moda nos anos 70, simplificando traços e popularizando modelos, aparece como o grande inimigo de si mesmo.
A personalidade soberba, que também servia como um escudo para as fraquezas, colocou Halston em uma espiral de infortúnios e fez com que a marca concebida por ele passasse de mão em mão. No fim, ainda que recebendo algum dinheiro pelo que tinha construído, terminou sem poder usar o próprio nome para trabalhar.
Além das características pessoais do estilista, “Halston” acaba retratando, ainda, um clima de euforia que marcou os anos 70. Além do abuso de álcool e cocaína, o protagonista aparece inserido no auge de uma revolução sexual que proporcionou mais liberdade aos homossexuais. O impacto dos diagnósticos de HIV, já na década seguinte, também aparece na história.
Parte do êxito da minissérie da Netflix se deve ao desempenho de Ewan McGregor. O ator consegue fazer o espectador enxergar as diversas camadas que compõem Halston, da arrogância às fragilidades causadas por episódios da infância. Não vai me espantar se ele aparecer como nome forte na próxima temporada de premiações. Já entre os bons coadjuvantes, vale destacar o trabalho de composição de Krysta Rodriguez, que, muitas vezes, nos faz acreditar que aquela em cena é a própria Liza Minnelli.
Muito produtivo, mas nem sempre bem-sucedido, Ryan Murphy pode colocar “Halston” entre seus acertos. A minissérie reconhece o talento de uma importante figura do mundo da moda e, ao mesmo tempo, entretém com uma história que mostra como uma mesma personalidade é capaz de elevar e derrubar.
HALSTON (minissérie em cinco episódios)
ONDE: Netflix
COTAÇÃO: ★★★ (boa)
