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“A Mulher na Janela” é suspense perdido que toma rumo do terror chinfrim

Os bastidores de alguns filmes podem ajudar muito a entender o resultado final que chega às telas. A produção de “A Mulher na Janela”, mais recente trabalho de Joe Wright, foi bastante conturbada. Inicialmente programado para estrear em 2019, o longa chegou a ser adiado depois de uma recepção negativa em testes de exibição. A 20th Century Studios, adquirida pela Disney, exigiu refilmagens para facilitar a aceitação do público à história. O estúdio acabou vendendo os direitos da obra para a Netflix, que incorporou o produto ao catálogo da plataforma recentemente. Toda essa confusão de revisões e remendos transparece para o público.

Adaptação do livro homônimo de A. J. Finn, “A Mulher na Janela” se passa basicamente dentro da casa de Anna Fox (Amy Adams), uma mulher que sofre de agorafobia, um transtorno de ansiedade que a impede de colocar os pés na rua. Por conta disso, a personagem passa horas observando o movimento do bairro pela janela. A rotina da protagonista fica completa com as visitas do terapeuta; sessões de filmes clássicos; e as conversas por telefone com o ex-marido e a filha.

Em determinado momento, Anna recebe a visita de Ethan (Fred Hechinger), o filho do casal que se mudou para a casa que fica em frente à dela. A personagem nota um comportamento estranho e passa a desconfiar que Alistair (Gary Oldman), o pai do garoto, trata o filho de forma abusiva. A protagonista também conhece a mãe de Ethan, Jane (Julianne Moore), uma mulher expansiva e evasiva.

Olhando pela janela da casa, Anna vê Jane ser assassinada e chama a polícia. O contato com as autoridades e a versão dos vizinhos sobre o fato acabam trazendo informações que confundem a protagonista. Ela também passa a desconfiar de David (Wyatt Russell), homem que aluga um dos cômodos da casa dela e que age de forma suspeita.

“A Mulher na Janela” se apresenta como um suspense psicológico que faz o espectador duvidar do que está vendo. O roteiro tem a clara intenção de confundir o público sem revelar se os acontecimentos são reais ou fantasias da paranoia de Anna, traumatizada por um acontecimento e, até por isso, fortemente medicada.

Divulgação/Netflix

O que era para ser uma qualidade, uma escolha para instigar quem assiste, acaba dando muito errado. Primeiro, pelo fato de o roteiro não fornecer uma base sólida para o espectador se apoiar e embarcar na trama. Abrindo muitas possibilidades e não dividindo informações que possam fazer uma conexão com a jornada da protagonista, a história deixa quem assiste às cegas por tempo demais e, quando indica o caminho, já é tarde para torcer ou se envolver com o drama da personagem.

Com claras referências à obra do diretor Alfred Hitchcock, especialmente ao filme “Janela Indiscreta”, “A Mulher na Janela” não funciona como inspiração e tão pouco como homenagem. Parece uma sucessão de mistérios gratuitos e repetitivos, que mais enrolam a história do que levam a algum lugar. Para ter semelhanças com os trabalhos do mestre do suspense, é necessário muito “arroz com feijão”.

O longa acaba virando uma bagunça completa do meio para o final, quando todo o clima de suspense psicológico é abandonado e transformado em uma história de terror barata e frustrante. Nesse desfecho, é possível perceber muito claramente a mão do estúdio e a inserção das refilmagens exigidas. A opção por esse caminho parece ter o objetivo de simplificar o roteiro, tornando-o mais digerível pelo público. O efeito, no entanto, acaba sendo inverso: ignorando toda a narrativa construída até ali, o filme fica ainda mais difícil de engolir.

Não é só o roteiro de “A Mulher na Janela” que parece confuso, as atuações também ficam completamente perdidas. O melhor desempenho é o de Julianne Moore, que não passa nem dez minutos em cena. Amy Adams, quase sempre ótima, sem o apoio de uma história sólida, não consegue envolver o espectador na jornada da personagem; e Gary Oldman aparece sem força, em um papel inexpressivo que nem surge para uma conclusão por conta das refilmagens as quais o longa foi submetido.

Toda a confusão nos bastidores de “A Mulher na Janela” parece ter afetado drasticamente o produto final, um suspense perdido e pouco envolvente que decide terminar como um terror chinfrim. O dedo do estúdio para “salvar” o filme, pensando no retorno do investimento e desconsiderando qualquer ponto de vista criativo, acaba sendo a última pá de terra que ajuda a enterrá-lo.

A MULHER NA JANELA

ONDE: Netflix

COTAÇÃO: ★ (ruim)

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