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“Alvorada” é retrato íntimo sobre impeachment que esbarra em personagem resistente

É possível ver um personagem por inteiro em um documentário? Será que uma figura seguida por uma câmera se mostra por completo ou é apenas uma versão editada, um fragmento de personalidade que interessa a uma narrativa? Em “Alvorada”, documentário de Lô Politi e Anna Muylaert sobre os últimos dias de Dilma Rousseff (PT) na presidência antes do impeachment, o espectador é convidado a observar um retrato íntimo desse momento e tem contato com uma rotina curiosa, ainda que o foco da narrativa seja uma personagem resistente que acaba restringindo o campo de visão.

Primeira mulher a ocupar a presidência da República no Brasil, Dilma sofreu impeachment e deixou o cargo em agosto de 2016. O então vice-presidente Michel Temer (MDB) foi alçado ao posto de comando mais alto do país sob as acusações de “golpista” e “ilegítimo”. Enquanto esteve apenas afastada oficialmente da função, a presidente permaneceu morando no Palácio da Alvorada, onde organizava sua defesa, fazia reuniões com aliados e recebia apoiadores e representantes de movimentos sociais.

O documentário, rodado de julho a setembro daquele ano, acompanha as incertezas do período que antecedeu a votação, no Senado, da cassação do mandato da presidente. Mais do que apenas seguir Dilma, o longa-metragem também mostra como o clima de tensão se refletia no trabalho de funcionários do palácio.

O cineasta Jorge Furtado tem uma definição interessante de documentário: é simplesmente um filme que o autor diz que é documentário. Pode parecer uma explicação óbvia e pouco elucidativa, mas não é. O diretor quer dizer que a diferença entre uma narrativa ficcional e uma não-ficcional passa por uma questão ética, um compromisso que o realizador assume com o espectador, ainda que não verbalizado, em construir uma narrativa natural, sem interferências em reações e acontecimentos.

“Alvorada” é, nesse sentido, um êxito dos mais interessantes. Lô Politi e Anna Muylaert conseguiram permissão para registrar um ponto de vista importante para compor o quadro da crise política que começou com o impeachment de Dilma, prosseguiu nas eleições seguintes e permanece presente na rotina dos brasileiros.

Sustentada por manobras e pelo interesse de parte da classe política, a cassação da presidente é relevante para entendermos o caminho que o país percorreu a partir dali. O registro íntimo da rotina de Dilma era a parte que faltava de um quadro também composto pelos documentários “Excelentíssimos”, sobre os bastidores do processo de impeachment na Câmara dos Deputados; “O Processo”, que apresenta o andamento da cassação no Senado; e “Democracia em Vertigem”, um olhar sobre a turbulência política a partir do movimento nas ruas.

Divulgação/Vitrine Filmes

A linguagem cinematográfica, seja ela qual for, sempre pressupõe uma dose de encenação, mesmo no documentário, afinal, não é nada natural ter a rotina acompanhada por uma câmera, a não ser que sejam imagens de câmeras escondidas ou de segurança. Um limite pode ser imposto por um personagem sobre o que vai ser mostrado e Dilma faz isso.

A então presidente é uma personagem muito resistente à câmera e sempre aparece incomodada pela lente, seja por personalidade ou pela tensão do momento. Até mesmo em momentos mais descontraídos, “Alvorada” não consegue perfurar a camada de figura pública de Dilma, a mesma que é vista em entrevistas ou outros registros do gênero. As falas e a postura sempre seguem um padrão para sustentar uma carcaça de confiança e serenidade.

É bom destacar que isso não é um julgamento de personalidade, ela realmente pode ter essas características, mas a imagem pública de Dilma é algo já conhecido e, por isso, não enriquece a proposta íntima do documentário. Faltou à personagem ser aberta a mostrar um lado mais humano, mais profundo, uma entrega maior e até uma sensação de aproveitar a câmera, no melhor sentido, para expor sentimentos que passavam pela cabeça naquele momento.

No documentário, Dilma fala sobre a importância de oportunidades para mostrar o ponto de vista do lado em que ela está da história, mas a própria presidente cassada prova que, naquele momento, não conseguia entender a força e a importância de conseguir se despir do que se espera de uma imagem pública para atingir um ponto de vista mais complexo e que poderia contribuir com uma compreensão futura dos acontecimentos.

É compreensível que Dilma tenha preservado a intimidade de reuniões políticas sobre o impeachment, uma vez que elas envolviam terceiros, e até que tenha uma personalidade reservada, que, de alguma forma, crie atritos com a proposta íntima de “Alvorada”. Mesmo assim, é uma pena que o documentário tenha esbarrado com a resistência da personagem central. Um desprendimento da postura pública, de respostas e atitudes programadas, que dividisse com a câmera sensações e pensamentos, poderia enriquecer mais esse retrato que já nasceu interessante.

ALVORADA

ONDE: nos cinemas e em plataformas digitais de aluguel

COTAÇÃO: ★★ (regular)

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