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“Mare of Easttown” constrói narrativa consistente sem supervalorizar mistério

Muitas das tradicionais histórias de “quem matou?” concentram a potência dramática na revelação do assassino. A preocupação em despistar e causar impacto no público com o desfecho pode, inclusive, deixar a motivação para o crime ofuscada, quase esquecível diante do desejo irresistível de surpreender o espectador. Em “Mare of Easttown”, minissérie da HBO, a resolução de um mistério é parte importante da trama, mas outros elementos aparecem com a mesma força, sem que um sobressaia mais do que o outro.

A minissérie de sete episódios começa um ano depois do desaparecimento da jovem Katie Bailey (Caitlin Houlahan). A polícia da pequena cidade de Easttown não tem pistas do que pode ter acontecido, o que coloca a investigadora Mare Sheehan (Kate Winslet) sob intensa pressão popular, especialmente da mãe da garota, Dawn (Enid Graham).

Easttown, localizada no interior do estado norte-americano da Pensilvânia, é uma típica cidade pequena, onde todos se conhecem e, por isso, a comunidade sabe que Mare, além da cobrança no trabalho, também passa por problemas pessoais. A investigadora sofre calada com a perda de um filho; vê um casamento de anos desmoronar; passa a viver com a mãe, com quem tem uma relação conflituosa; e ainda corre o risco de perder a guarda do neto, reivindicada pela ex-nora, recém-saída de uma clínica de reabilitação.

Tantos conflitos pessoais fazem Mare mergulhar de cabeça no trabalho, mas o mistério sobre Katie Bailey nunca é desvendado. Chega, então, à cidade o detetive Colin Zabel (Evan Peters), chamado para contribuir com as investigações, algo que desagrada e muito a protagonista. A tensão sobre o caso aumenta ainda mais quando Erin (Cailee Spaeny), outra jovem da região, é encontrada morta, o que obriga a polícia a intensificar as ações para descobrir se os crimes estão ou não relacionados.

Por mais que pareça um clássico suspense sobre a revelação de um assassino, “Mare of Easttown” se destaca exatamente por ir além dessa expectativa. O roteiro se preocupa em construir uma narrativa consistente, que fornece uma base sólida de informações para que o público possa acompanhar e ficar instigado com a trama. Os crimes não são a única sustentação da história, eles dividem essa importância com a construção de personagens complexos e a dinâmica dos relacionamentos entre eles.

Divulgação/HBO

Mais do que apenas se concentrar em ações, a minissérie se interessa pelas reações, traumas, dores, instintos e superações dos personagens. Por ser ambientada em uma cidade pequena, onde todos são amigos ou parentes, “Mare of Easttown” levanta questões sobre a força das aparências e como pessoas são capazes de atitudes que não condizem com a imagem pública que inspiram na comunidade. Também há dilemas morais que ajudam a envolver o espectador ainda mais na história.

O cuidado em construir um roteiro sólido também aparece na resolução do mistério. A minissérie não cai na armadilha de alimentar um suspense gratuito, que entrega pistas falsas pela simples expectativa de surpreende o espectador a todo custo no final. É verdade que as suspeitas variam ao longo dos episódios, mas essas insinuações têm funções na narrativa. O desfecho acaba não sendo uma grande surpresa, mas é tão bem colocado e justificado que isso não tem a menor importância.

Um drama com essas qualidades só poderia ser protagonizado por uma atriz do porte de Kate Winslet, que, mais uma vez, está extraordinária. A intérprete traz toda a complexidade de Mare para os detalhes que estão visíveis ao espectador. Pelos gestos, expressões e reações da personagem, é possível sentir as dores e se compadecer com aquela mulher tão machucada. Um primor de trabalho. O resto do elenco, justiça seja feita, também é ótimo, especialmente Evan Peters, Jean Smart, Julianne Nicholson, Joe Tippett, Robbie Tann e Enid Graham.

Fazendo muita força, é possível perceber um defeito mínimo na minissérie, se é que pode ser chamado assim. O primeiro episódio é irretocável, uma aula de apresentação de personagens e conflitos em um ritmo orgânico, sem atropelos. Isso faz o espectador esperar que esse nível seja superado pelos capítulos seguintes, mas isso não acontece, nem mesmo no final.

“Mare of Easttown” é, por enquanto, a série do ano. Ao invés de supervalorizar o mistério e se preocupar excessivamente em enganar o espectador, a produção prefere construir uma narrativa sólida, que coloca o suspense a serviço do enredo e dá a mesma importância para o desenvolvimento dos personagens e das relações entre eles. Buscando apenas uma palavra para definir a minissérie, a melhor parece ser perfeição.

MARE OF EASTTOWN (minissérie em sete episódios)

ONDE: HBO GO (a partir de 29 de junho, na HBO Max)

COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)

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