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“Roque Santeiro” em cinco curiosidades

Asa Branca, uma cidadezinha perdida no interior do Brasil, vive em função de um mártir, um santo milagreiro. Por lá, todos conhecem a história de Roque, coroinha e artesão de imagens de barro que morreu defendendo o município do ataque do bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro). Depois disso, uma menina doente diz que teve uma visão com Roque e ficou curada. A partir daí, outros supostos milagres passam a ser atribuídos a ele.

A fama de Roque Santeiro se espalha, atraindo romeiros e curiosos. A economia, a política e os costumes da população de Asa Branca giram em torno desse cidadão ilustre, que ganha, inclusive, uma estátua na praça central. Por trás de todo mito, no entanto, há sempre a verdade: o ex-coroinha não tem nada de santo. Roque (José Wilker) aparece vivo depois de ter fugido com o dinheiro da igreja.

Esse retorno é visto, especialmente pelos poderosos, como uma ameaça ao que foi construído na cidade. O coronel Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e a Viúva Porcina (Regina Duarte), que ficou famosa por se apresentar como esposa do falecido sem nunca tê-lo conhecido, diga-se de passagem, escondem a verdade sobre o falso mártir para se manterem relevantes. Outros descobrem o segredo e nem todos concordam com a sustentação da mentira.

A exploração política e econômica de um mito sustentado pela fé popular é a temática que conduz “Roque Santeiro”, uma das novelas mais emblemáticas da televisão brasileira que, nesta segunda-feira (21), passa a fazer parte do catálogo do Globoplay.

Até hoje apontado como um dos melhores do gênero, o folhetim fez sucesso por conta dos dilemas criados a partir da construção e adoração de um herói, além, é claro, dos personagens inspirados que povoavam Asa Branca, um lugar de sotaques misturados, falhas e muita fé.

Para marcar a chegada da novela ao streaming, aqui vai uma lista com cinco curiosidades sobre essa história marcante:

Reprodução/TV Globo

Origem teatral

“Roque Santeiro” é inspirada na peça teatral “O Berço do Herói”, escrita por Dias Gomes. No espetáculo, o personagem central é Cabo Jorge, um pracinha da Força Expedicionária Brasileira que é dado como morto, na Itália, após enfrentar nazistas na guerra. A fama de herói do soldado faz a cidade onde ele vivia mudar de nome e passa a reger a economia local. Assim como Roque, Cabo Jorge, na verdade um desertor, também aparece vivo para desespero daqueles que desejam preservar os lucros e o poder conquistados com a lenda.

“O Berço do Herói” deveria ter sido encenada, pela primeira vez, em 1965, no Teatro Princesa Isabel, no Rio de Janeiro. O espetáculo, dirigido por Antonio Abujamra, foi proibido pela censura federal duas horas antes da estreia. A ditadura militar manteve o texto proibido por cerca de 20 anos. A primeira encenação da peça acabou acontecendo nos Estados Unidos, em 1976.

Divulgação/TV Globo

Novela censurada

Substituindo a temática militar, em 1975, Dias Gomes propôs à TV Globo uma adaptação do espetáculo para o horário das 20 horas. A sinopse e os primeiros capítulos foram enviados para a censura federal e aprovados. A produção seria protagonizada por Francisco Cuoco (Roque), Betty Faria (Porcina) e Lima Duarte (Sinhozinho Malta). Perto da estreia, com 36 capítulos já gravados, a emissora foi notificada de que a exibição do folhetim estava proibida.

Sem conseguir reverter a decisão, a Globo foi obrigada a exibir uma versão compacta de “Selva de Pedra”. A emissora também solicitou que a autora Janete Clair criasse uma história a toque de caixa, que reaproveitasse o elenco e parte dos cenários. Em apenas três meses, a novelista desenvolveria outro clássico da teledramaturgia: “Pecado Capital”.

Em “O Livro do Boni”, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, todo poderoso da área de entretenimento da emissora na época, revelou o motivo da revisão da censura. Uma ligação de Dias Gomes a Nelson Werneck Sodré havia sido grampeada pelo governo. Na conversa, o autor disse que “Roque Santeiro” era “O Berço do Herói” sem farda.

Boni contou no livro que sugeriu que a censura fosse exposta em um editorial no “Jornal Nacional”. Roberto Marinho, dono do grupo Globo, autorizou e encomendou o texto ao diretor de jornalismo, Armando Nogueira. Parte do elenco da novela chegou a viajar a Brasília para tentar uma audiência com o presidente Ernesto Geisel, sem sucesso. “Roque Santeiro” só seria exibida em 1985.

Divulgação/Memória Globo

Sai um autor, entra outro

Sem empecilhos para ser produzida, “Roque Santeiro” finalmente estreou e os capítulos que tinham sido escritos por Dias Gomes dez anos antes foram reaproveitados. O autor, no entanto, não quis seguir com o projeto e Aguinaldo Silva foi chamado para assumir a novela a partir do capítulo 41, segundo o projeto “Memória Globo”.

Marcílio Moraes, Joaquim de Assis e a pesquisadora Lilian Garcia atuaram como colaboradores. A trama foi um sucesso e Gomes procurou Boni para reassumir o folhetim. Silva escreveu até o capítulo 163 e, segundo o ex-todo poderoso do entretenimento, foi difícil convencê-lo a entregar a novela ao criador da história.

“Foi difícil tirá-la do Aguinaldo, que havia acertado em cheio e tinha todo o direito e concluir o projeto. Como o sofrimento do Dias era muito grande, contei com a ajuda e a compreensão do Aguinaldo. Fizemos uma transição a oito mãos, bem rápida, e o Dias escreveu os capítulos finais”, contou o diretor da emissora em “O Livro do Boni”.

Divulgação/TV Globo

Audiência

“Roque Santeiro” foi um fenômeno de audiência, atingindo recordes logo nas primeiras semanas. Segundo Aguinaldo Silva, “Roque Santeiro” registrou média de 67 pontos no horário. A novela entrou para a história da televisão brasileira como a única que obteve 100% de audiência no último capítulo, exibido no dia 21 de fevereiro de 1986.

O projeto “Memória Globo” destacou que, em Recife, jornais da época apontaram que candidatos às eleições para deputado chegaram a cancelar comícios que seriam realizados no horário em que a novela era exibida. “Roque Santeiro” ganhou duas reprises no “Vale a Pena Ver de Novo” e também fez sucesso no canal Viva.

Divulgação/TV Globo

Dois finais… ou seriam três?

Oficialmente, foram escritos dois finais para “Roque Santeiro”. No primeiro, Porcina ia embora de Asa Branca com Roque. Já no segundo, a viúva que foi sem nunca ter sido terminava com Sinhozinho Malta. Em entrevistas, Aguinaldo Silva disse que preferia que a personagem de Regina Duarte fosse feliz ao lado do falso santo milagreiro, mas, como foi Dias Gomes que finalizou o folhetim, Porcina ficou com o coronel vivido por Lima Duarte. A cena foi inspirada no clássico “Casablanca”, filme protagonizado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.

No documentário “A Negação do Brasil”, do diretor Joel Zito Araújo, ator Tony Tornado, que viveu Rodésio, o capataz da Viúva Porcina na trama, contou que participou da gravação de um terceiro final. Nele, a personagem de Regina Duarte deixava Roque e Sinhozinho para ficar com Rodésio. Tornado disse considerar o desfecho coerente, uma vez que o capataz “era o único que não tinha abandonado Porcina”. O ator declarou que “faltou coragem” para levar esse final ao ar.

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