Ele nasceu Claudio Besserman Vianna e era o caçula de três irmãos, Os pais eram comunistas, intelectuais, e deram muita liberdade para os filhos fazerem as próprias escolhas, respeitando os caminhos e decisões tomadas por eles. Do contato com amigos e frequentadores da casa onde vivia, o garoto absorveu cultura e informações. Não era o melhor dos alunos, estava sempre na praia e jogava muito bem sinuca. Tinha um jeito malandro e arrancava risos dos colegas. Diante de incertezas sobre o futuro, encontrou no humor a vocação profissional. Foi Claudio apenas na certidão de nascimento e por alguns anos de vida, mas logo acabou conhecido como Bussunda.
Sucesso do humor brasileiro na década de 90, Bussunda é tema da série documental “Meu Amigo Bussunda”, dirigida por Claudio Manoel, Micael Langer e Júlia Besserman. Em quatro episódios disponíveis no Globoplay, a produção revisita a trajetória do humorista, costurada por depoimentos afetuosos de amigos e familiares.
Logo de cara, a narração de Claudio Manoel relembra a relação de amizade entre ele e Bussunda, que morreu precocemente em junho de 2006, durante a Copa do Mundo da Alemanha. Com essa escolha emocional, o amigo consegue aproximar mais o espectador da história contada. Em seguida, Manoel conversa com os irmãos do humorista, Marcos e Sérgio Besserman, que revelam detalhes sobre a criação pouco convencional dos pais e até uma preocupação com o futuro do filho caçula antes do mergulho dele no mundo da comédia.
A curiosa escolha do apelido que, posteriormente, tornaria Claudio famoso nacionalmente é revelada pelos amigos. Bussunda surge de um jogo de palavras e da antipatia que ele tinha por banhos quando jovem. “Eu tenho uma vida a lazer”, dizia o futuro humorista para justificar a falta de comprometimento com os estudos e a predileção por atividades mais relaxantes, como dormir e passar horas na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
A série documental também mostra que, apesar da pouca afinidade com a rotina escolar, Bussunda se transformou em um leitor voraz e, na faculdade, além do engajamento com o movimento estudantil, se juntou a um grupo de amigos para escrever um jornal de humor que, depois, se transformaria em revista. Assim nasceu a “Casseta Popular”.

A produção conta, ainda, como o grupo foi contratado pela TV Globo para escrever um programa revolucionário para a comédia brasileira: a “TV Pirata”. Nessa época, quem também fazia parte da redação da atração eram os integrantes do “Planeta Diário”, outra publicação de humor. Do encontro entre os integrantes desse jornal e da “Casseta Popular”, surgiriam, depois, os humorísticos “Dóris para Maiores” e “Casseta & Planeta Urgente”, este último um marco da TV na década de 90.
Não há como pensar em “Casseta & Planeta Urgente” sem lembrar da figura de Bussunda fazendo paródias de novelas. Uma das mais famosas foi “Esculachos de Família”, em que o humorista fazia uma imitação impagável de Vera Fisher, na época vivendo Helena em “Laços de Família”, sucesso de Manoel Carlos. O humorista também imitava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dava vida ao jogador Marrentinho Carioca, do Tabajara Futebol Clube. No fundo, a graça de todos estava na personalidade de Bussunda.
Além da narração e direção de Claudio Manoel, “Meu Amigo Bussunda” muda de condução no último episódio. Júlia Besserman, a filha de Bussunda, aparece diante das câmeras e assume as entrevistas para ouvir depoimentos sobre o pai e entender mais sobre a trajetória do humorista. A esposa dele, Angélica Nascimento, também aparece para relembrar a convivência com o marido.
Além da narrativa emocional, a série documental acaba construindo um retrato sobre a comédia na TV entre o fim dos anos 80 e o início dos anos 90, caracterizada por experimentação, que veio com a redemocratização do país, e transgressão. No episódio final, a filha de Bussunda conduz uma reflexão sobre o tipo de humor que o pai fazia. Humoristas contribuem com uma análise sobre a constante transformação da comédia e as injustas revisões feitas em materiais do passado, contextualizados em outras realidades.
“Meu Amigo Bussunda” propõe ao espectador um passeio afetuoso pela vida de Bussunda, revisitando a família, as amizades e a personalidade do humorista. De quebra, quem assiste também rememora ou conhece, dependendo da idade, as características do humor de uma época, que, seguindo o curso natural do tempo, evoluiu.
MEU AMIGO BUSSUNDA (série documental em quatro episódios)
ONDE: Globoplay
COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)
