Não é de hoje que ouvimos falar na “tradicional família brasileira”, aquela pautada por retidão e moralidade de costumes, que não aceita qualquer manifestação que “afronte” essa instituição. Em 2007, parte desse grupo não desgrudava os olhos de “Paraíso Tropical”, novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares que, mesmo de forma não planejada, fez a audiência torcer pelo amor bandido entre uma prostituta oportunista e um mau-caráter sem limites. O folhetim ganha, a partir desta segunda-feira (5), uma reapresentação no canal Viva.
Acostumados a opinar e fazer mobilizações contra decisões que envolvem o corpo alheio, os integrantes dessa família guardiã da moral teve que se dobrar aos encantos de Bebel (Camila Pitanga), a garota de programa que ajudava o vilão Olavo (Wagner Moura) a atrapalhar a união do casal Paula (Alessandra Negrini) e Daniel (Fábio Assunção). Com toda “catiguria”, a personagem foi ganhando espaço e deixando, ainda que apenas durante a exibição do folhetim, os preconceitos dos julgadores de plantão de lado.
Levando em conta a imagem dessa família tradicional, que defende o conservadorismo e, com frequência, usa a religião para condenar atitudes alheias, Bebel não seria uma aposta de personagem que despertaria a torcida do público, a começar pela atividade profissional. Além disso, ela não se importava em prejudicar os outros para conseguir o dinheiro e o status social necessários para abandonar a vida nada fácil nas calçadas de Copacabana.
O que poderia contribuir ainda mais com uma possível antipatia do público, especialmente dos defensores da moral e dos bons costumes, acabou se transformando no principal atrativo para a audiência do folhetim. Bebel passa a viver um amor bandido com o mau-caráter Olavo. A relação é marcada por muita volúpia, cumplicidade e, como em toda história romântica de folhetim, descompassos.
Ainda que não fosse um casal tradicional, Bebel e Olavo assumiram um espaço aberto pela inexpressividade dos protagonistas. A relação de Paula e Daniel, romântica e estruturada em virtudes, não mobilizou a audiência, que, segundo o site Memória Globo, não correspondeu às expectativas nas primeiras semanas. Uma pesquisa apontou que o motivo era justamente o romance central.
Os índices de audiência, no entanto, foram sendo recuperados e um dos fatores principais era a trajetória do casal antagonista. Os autores apostaram em uma construção humanizada daqueles personagens, que seguiam encenando sequências de sexo e armações, mas também foram ganhando características mais complexas.
Bebel teve destacado o lado batalhador, a exploração da vida nas ruas e o humor, fator que também estava presente no vilão. Olavo apresentou, ainda, um conflito que o levou para mais perto do público: em uma posição social privilegiada, vivia sentimentos contraditórios por amar uma prostituta. Com isso, não brigava apenas com os próprios preconceitos, mas também temia o julgamento alheio.
Ainda que boa parte da “tradicional família brasileira” possa não querer assumir publicamente, o amor bandido de Bebel e Olavo, regado a muita cama e vilanias, cativou. Veremos como o público se comporta agora na reprise, diante de uma sociedade que perdeu a vergonha de aplaudir o mau-caratismo, mas está mais hipócrita nas pautas relacionadas a sexo e costumes.

Choque de realidades
A ação de “Paraíso Tropical” é concentrada em Copacabana, na zona sul carioca. Nas ruas do bairro, no hotel Duvivier e no edifício Copamar, personagens de diferentes realidades sociais se cruzam e entram em choque. Essa é, aliás, uma característica do trabalho de Braga, que aqui assina os capítulos com Linhares.
Os atritos entre a chamada elite carioca e a classe média movimentam quase todas as tramas da novela. Também há personagens de grupos que ficam à margem e “invadem” a bolha dos ricos. Isso se reflete, por exemplo, nas cenas em que o estilo de Bebel colide com as regras de etiqueta da alta sociedade, estruturada por uma base superficial e que acolhe, por exemplo, a esnobe Marion (Vera Holtz), mulher que sustenta uma imagem de luxo sem ter onde cair morta.
Personagens que negam as origens, alpinistas sociais e tipos que valorizam as conquistas suadas proporcionadas pelo trabalho completam esse cenário, que Braga, em entrevista ao projeto Memória Globo, classificou como o mais autoral da carreira como novelista.

Sucesso dos substitutos
“Paraíso Tropical” se mostrou uma boa oportunidade para atores que entraram no projeto substituindo as primeiras escolhas dos autores e da direção. O papel das gêmeas Paula e Taís seria de Cláudia Abreu, convidada por Braga. Cinco capítulos já estavam escritos quando a atriz engravidou do segundo filho e disse que não poderia mais fazer a novela. Ela foi substituída por Alessandra Negrini, que não fez feio na primeira chance em um folhetim do horário nobre.
Camila Pitanga e Wagner Moura fizeram sucesso como Bebel e Olavo, mas não eram as opções iniciais da dupla de autores, que queriam Mariana Ximenes e Selton Mello. A oportunista Marion seria defendida por Joana Fomm, que chegou a gravar as primeiras cenas como mãe de Olavo e Ivan (Bruno Gagliasso). A intérprete, no entanto, precisou se afastar por problemas de saúde e foi substituída por Vera Holtz, que regravou as sequências iniciais e se destacou no papel.

Crime não planejado
Gilberto Braga é famoso por inserir misteriosos assassinatos nos folhetins que escreve. O recurso do “quem matou?” não ficou de fora de “Paraíso Tropical”, ainda que não estivesse previsto inicialmente. Segundo o projeto Memória Globo, a ideia do crime surgiu por conta da crise de audiência que a novela sofreu no início.
O mistério também seria responsável por justificar uma escolha dos autores para a construção da relação conflituosa entre Marion e os filhos, que conquistou a antipatia da audiência. O assassinato de Taís, a gêmea má de Paula, aconteceu, então, para impedir que viesse à tona a informação de que Ivan era filho do empresário Antenor Cavalcanti (Tony Ramos) e, portanto, herdeiro de uma fortuna.
Ao contrário da motivação, a revelação do assassino não chegou a ser uma surpresa: Olavo tinha matado Taís, namorada de Ivan naquele momento. O irmão queria esconder a informação sobre a paternidade do irmão para, depois, tentar herdar o dinheiro que tanto cobiçou ao longo da novela. A sequência com as revelações, levada ao ar no último capítulo, foi gravava na noite anterior à exibição e é uma das mais marcantes da trama.
PARAÍSO TROPICAL
ONDE: canal Viva
HORÁRIO: 15 horas, com reapresentação às 23h50
