“A ave constrói o ninho; a aranha, a teia; o homem, a amizade”. A frase do poeta inglês William Blake abre “First Cow – A Primeira Vaca da América”, filme da diretora Kelly Reichardt disponível na plataforma de streaming Mubi. Em seguida, o espectador acompanha uma garota que, passeando com o cachorro, encontra duas ossadas em uma cova. Após a descoberta, o longa conduz quem assiste para o ponto onde a história vai se desenvolver: o ano de 1820, no estado norte-americano de Oregon.
Cookie (John Magaro) trabalha como cozinheiro para um grupo de caçadores que percorre as densas florestas do estado procurando animais para comercializar as peles. Além de organizar a pouca comida que eles conseguem armazenar, é função de Cookie procurar, nos arredores dos acampamentos que montam, outros itens comestíveis, como cogumelos. É durante essa tarefa que o cozinheiro conhece King-Lu (Orion Lee), um chinês que diz estar sendo perseguido por russos que desbravam a região em busca de ouro.
Cookie socorre King-Lu sem revelar a presença do chinês ao resto do grupo. Logo depois, o fugitivo desaparece e só volta a encontrar o cozinheiro algum tempo depois, em um entreposto comercial da região. Considerando os caminhos que seguiriam dali, os dois naturalmente passam a morar no mesmo casebre e decidem utilizar o talento de Cookie para vender bolinhos fritos e, assim, conseguir algum dinheiro para o futuro.
Como aquela é uma região de difícil acesso, seria complicado conseguir um dos ingredientes da receita: leite. Seria, se não fosse pela descoberta de que a autoridade do entreposto (Tom Jones) tem uma vaca, a única da região. Então, todas as noites, Cookie e King-Lu se esgueiram pela escuridão para ordenhar o animal. Os bolinhos fazem sucesso, geram um bom dinheiro e acabam chamando a atenção do dono da vaca, que vira um cliente fiel da dupla de amigos.
“First Cow – A Primeira Vaca da América” pode dar a impressão inicial de ser um filme simples demais, uma narrativa sem grandes atrativos. Quem der uma chance a ele, no entanto, vai descobrir o quanto se deixou enganar por esse julgamento. Sem dúvida, o roteiro é construído com uma singeleza, mas é impressionante como essa escolha nos leva a descobrir a beleza daquela história, escondida na sutileza dos gestos e na profundidade dos personagens.

A citação inicial e o prólogo indicam ao espectador, logo de cara, que a amizade é a razão da história existir, mas há muito mais a explorar além disso. Para conduzir o espectador nessa jornada, o longa não escolhe o caminho mais fácil, o da narrativa explicativa demais. É preciso atenção aos detalhes e à forma como os conflitos, muitos deles velados, se estabelecem. O microcosmos criado ali acaba sendo uma representação da origem dos Estados Unidos e do que viria a ser o conceito do tão difundido “sonho americano”.
Também é possível perceber que Cookie e King-Lu aparecem em uma realidade de necessidade de sobrevivência, com acesso a recursos precários e cercados por um sistema criado para manter o controle nas mãos de poucos e conter a escalada daqueles que ousam melhorar de vida. Enquanto dois amigos constroem uma relação baseada em cooperação, são boicotados por um poder econômico que se fortalece pelo individualismo.
Ainda que inevitavelmente condenados por esse sistema, os personagens apresentam trajetórias que revelam uma compreensão sobre a importância de uma riqueza maior, que dá mais sentido à jornada do que o desejo de prosperar social e financeiramente: a amizade. Essa conexão e os sentimentos que surgem dela são tudo o que resta no fim.
Nós, os seres humanos, incansavelmente procuramos boas histórias e é muito inspirador quando, nessa busca, que nunca tem fim e sempre se renova, encontramos uma experiência valiosa que brota de uma história tão singela. O que importa em “First Cow – A Primeira Vaca da América” é, essencialmente, o sentimento e a reflexão que surgem da simplicidade e dos detalhes. Explicações excessivas e recursos mirabolantes são dispensáveis quando um material já nasce com uma proposta tão rica.
FIRST COW – A PRIMEIRA VACA DA AMÉRICA
ONDE: Mubi
COTAÇÃO: ★★★★ (ótimo)
