Boa parte das histórias que conhecemos é construída a partir de contrapontos, de polaridades. Protagonista e antagonista, bem e mal, herói e vilão. O choque entre opostos está na origem dos conflitos entre personagens desde sempre. Muitas vezes, não há nem explicações elaboradas para justificar essa rivalidade, a disputa entre mocinho e bandido surge em um enredo como natural e inevitável. Mas, o que acontece quando os dois símbolos máximos dessa oposição não existem mais? Como fica o mundo depois disso?
A rivalidade entre He-Man e Esqueleto é uma das mais conhecidas da história do entretenimento. Desde o lançamento da primeira série animada, na década de 80, vemos o herói impedindo o vilão de conseguir colocar as mãos no poder escondido no Castelo de Grayskull. Por conta disso, é corajoso e inteligente que “Mestres do Universo: Salvando Eternia”, nova versão da história dos personagens da Mattel, disponível na Netflix, apareça com uma proposta de ir além desse conflito.
A série animada começa com uma batalha definitiva. Depois de inúmeras tentativas, Esqueleto (voz de Mark Hamill) consegue acesso ao grande poder de Grayskull. O ataque ao castelo acontece enquanto Teela (voz de Sarah Michelle Gellar) está sendo condecorada como Mentora do exército do rei Randor (voz de Dietrich Bader) e da rainha Malena (voz de Alicia Silverstone). Ao lado do príncipe Adam, transformado em He-Man (voz de Chris Wood), as forças do reino são deslocadas para salvar Eternia.
Após render a Feiticeira (voz de Susan Eisenberg), Esqueleto chega ao poder máximo que sustenta o universo. Com essa força desprotegida, He-Man tenta impedir a destruição de tudo e, para isso, é necessário se sacrificar. O vilão interfere na ação do herói e os dois acabam mortos. O desfecho da batalha também revela a verdade sobre o segredo do príncipe Adam, o que revolta Teela e a faz abandonar a função do exército real.
Tempos depois, Eternia está ameaçada pelo fato de a batalha entre He-Man e Esqueleto ter acabado com a magia no universo. Teela reaparece como uma espécie de caçadora de recompensas, mas logo é chamada para sair em busca das duas metades da espada do poder, que foi dividida no ataque a Grayskull. Além da amiga Andra (voz de Tiffany Smith) e velhos conhecidos, como Mentor (voz de Liam Cunningham) e Gorpo (voz de Griffin Newman), ela se une a Maligna (voz de Lena Headey) para tentar restabelecer essa magia.

Criada por Kevin Smith, “Mestres do Universo: Salvando Eternia” consegue modernizar uma história já tão conhecida com ousadia e inteligência. Não é nenhuma inovação “passar o bastão” para personagens novos ou coadjuvantes e explorar novos caminhos, mas a proposta bem executada é o que faz a diferença aqui. Começar a série animada em um momento posterior a uma batalha decisiva entre He-Man e Esqueleto aguça a curiosidade do espectador e traz um frescor para a dinâmica dos conflitos.
Com herói e vilão, que representam o bem e o mal extremos na história, extintos daquela realidade, a narrativa se refaz colocando personagens até então coadjuvantes no centro da ação. Eles se afastam do tradicional maniqueísmo e passam a existir em uma zona mais acinzentada, apresentando características mais complexas. Nem sempre isso funciona em projetos de modernização, mas, nessa nova versão, essa construção cabe bem. A produção também mostra atenção ao mundo de hoje quando dá mais importância a um grupo de personagens femininas, liderado por Teela.
É claro que as mudanças não agradaram a todos. Fãs do clássico dos anos 80 chegaram a dizer que He-Man perdeu o protagonismo e que a nova série animada “destruiu o herói que todos conhecem”. Além de apontar a crítica como exagerada, já que o personagem ainda tem muita relevância na história, o único comentário que pode ser feito é que essa é uma visão resistente a revisões. Gostar ou não da nova proposta é legítimo, mas falar em desrespeito ao original é um pouco demais. Se não fosse para modernizar ou apresentar caminhos diferentes, seria suficiente colocar os episódios da animação antiga no catálogo da plataforma.
Coragem e inteligência são fundamentais em projetos de revisão de clássicos. É preciso ousar para evitar repetições e construir mudanças sólidas, que convidem o público a embarcar em jornadas formadas por alguns elementos conhecidos. “Mestres do Universo: Salvando Eternia” cumpre bem esses quesitos na primeira parte da temporada e deixa o espectador ansioso pelos próximos episódios, ainda sem data oficial de lançamento.
MESTRES DO UNIVERSO: SALVANDO ETERNIA (primeira parte da temporada)
ONDE: Netflix
COTAÇÃO: ★★★ (boa)
