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“O Esquadrão Suicida” acerta no tom e tropeça com trama nada interessante

O trailer de “Esquadrão Suicida”, filme dirigido por David Ayer e lançado em 2016, é uma das maiores propagandas enganosas da história recente do cinema. Sim, eu sei que trailers são uma especialidade de Hollywood e é difícil encontrar algum ruim, mas esse em questão era tão vibrante, musical e até anárquico que criou uma boa expectativa sobre o que viria. A frustração com o longa acabou sendo proporcional à qualidade das primeiras imagens divulgadas. O resultado foi um desastre completo, tirando um ou outro momento inspirado.

Equívocos na concepção da história, problemas narrativos e interferências do estúdio no projeto são apenas alguns dos motivos que podem explicar o fracasso da empreitada. Em 2018, o diretor James Gunn foi demitido da Marvel após uma conturbada polêmica sobre declarações antigas do cineasta e foi rapidamente contratado pela DC Comics para desenvolver uma nova versão de trama para o grupo de vilões recrutados por Amanda Waller (Viola Davis). O estilo de Gunn fez com que muitos o considerassem como o nome ideal para salvar a franquia. Agora, com a estreia de “O Esquadrão Suicida”, fica provado que era mesmo.

O primeiro ponto positivo do novo projeto é justamente a forma como Gunn escolhe reintroduzir a história nas telonas. “O Esquadrão Suicida” não é uma continuação e tão pouco uma refilmagem. O diretor, que também assina o roteiro, reapresenta as circunstâncias que reúnem os personagens, mas não ignora o fato de o público já ter informações do longa anterior, o que garante um dinamismo para o início da trama, que perde pouco tempo com apresentações.

Incumbida de mais uma missão, Amanda Waller reúne um grupo bizarro de vilões para destruir um projeto que ameaça a soberania dos Estados Unidos. A equipe é liderada por Sanguinário (Idris Elba) e também conta com Pacificador (John Cena), Caça-Ratos 2 (Daniela Melchior), Tubarão-Rei (Steve Agee) e Bolinha (David Dastmalchian). Arlequina (Margot Robbie) e Rick Flag (Joel Kinnaman) são os remanescentes do filme anterior, de triste lembrança.

O grupo embarca para uma ilha, cuja população enfrenta um golpe de Estado. Os generais que ascendem o poder tomam conhecimento, então, de uma espécie de arma secreta do governo que é mantida em uma fortaleza e que deve ser contida pelos vilões recrutados por Waller. É claro que, por trás da estratégia arquitetada pela agente, também há outros interesses dos Estados Unidos.

Divulgação

Compreender os personagens e o material disponível é o primeiro passo para emplacar um projeto como esse e James Gunn faz isso como ninguém. “O Esquadrão Suicida” é uma história sobre a reunião de tipos improváveis, incorretos e desajustados e, para retratar isso, o diretor aposta corretamente no despudor; no caos; no sangue; e no humor afiado e bem empregado. Esse tom narrativo anárquico e despreocupado em enquadrar o filme em um padrão é a personalidade que faltou ao projeto de Ayer.

É preciso fazer um elogio ao estúdio por ter escolhido James Gunn para a função. Contratar um diretor como ele, que imprime um jeito específico de contar uma história, não deve ser uma decisão fácil para uma corporação preocupada essencialmente com lucros, ainda que criativamente pareça o único caminho possível. É claro que, por mais liberdade que tenha sido dada a ele, houve algum limite, mas não deixa de ser corajoso esse comprometimento em não interferir tanto no processo de criação e condução. O longa de 2016 é uma prova contundente sobre os malefícios de uma interferência mais agressiva.

Também é necessário destacar a ótima trilha sonora, muito alinhada com o tom ditado pela direção, e o elenco. Daqueles que têm mais tempo de tela, como Margot Robbie e Idris Elba, aos que aparecem muito rápido, como Taika Waititi e Michael Rooker, todos aparecem muito bem. Uma escolha muito acertada da história foi aumentar a importância de Amanda Waller, vivida com categoria por Viola Davis, que ganhou mais possibilidades de mostrar força.

Dito tudo isso, passemos ao grande tropeção de “O Esquadrão Suicida”. Levando em consideração um proposital deboche que sustenta a base dessa reunião de vilões e combina com a proposta de Gunn, não dá para ignorar o fato de que a história do filme é uma bobagem sem tamanho. Não há nada que prenda a atenção para a trama, que entedia e parece arrastada em muitos momentos. O objetivo da missão do grupo é triste, até mesmo para um filme fantasioso e de heróis. Por mais que a visão do diretor e a ação tentem maquiar isso, tem um limite e a falta de um bom enredo fica evidente demais, sem contar as repetições de dinâmicas entre personagens e que fazem lembrar o longa anterior.

Nas mãos de James Gunn, “O Esquadrão Suicida” acertou o tom da narrativa e ganhou personalidade. Além de demonstrar compreender os personagens, o diretor impôs uma visão e a levou até onde pode, o que resultou num filme caótico e coerente. Faltou, no entanto, o mesmo cuidado na construção do roteiro. Mesmo com uma verve de deboche, o longa é muito impactado pela ausência de uma base para a trama que mantenha o espectador minimamente interessado até o final. Nem sempre dá para acertar em tudo e, em alguns casos, é melhor superar um problema de cada vez.

O ESQUADRÃO SUICIDA

ONDE: nos cinemas

COTAÇÃO: ★★ (regular)

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