Novelas

Tarcísio, o grande

Alguns nomes parecem fazer parte das nossas vidas desde sempre. Praticamente nascemos sabendo quem são e o que significam. É assim com Tarcísio Meira. Até mesmo quem não é tão ligado às artes e ao entretenimento conhece esse ícone da dramaturgia brasileira. Também pudera: por décadas, apareceu na sala de milhões de espectadores, praticamente frequentou a casa dos brasileiros através das novelas que estrelou. Mais ainda: formou o casal mais icônico da televisão com a esposa, Glória Menezes. Tarcísio e Glória, arroz e feijão, queijo e goiabada. Combinações clássicas e eternas.

Aos 85 anos e em decorrência de complicações provocadas pela covid-19, Tarcísio Meira deixou este mundo. Uma tristeza para a família, amigos e os milhões de fãs que se acostumaram a ver essa presença marcante interpretando personagens inesquecíveis.

A trajetória do ator foi construída par e passo com o desenvolvimento da televisão, do cinema e do teatro no Brasil. Protagonizou a primeira telenovela diária do país, “2-5499 Ocupado”, ao lado de Glória Menezes. Foi escalado para papéis que marcaram época, como João Coragem, da clássica “Irmãos Coragem”, de Janete Clair. A cena do personagem destruindo o diamante que gerou os conflitos da trama é fresca na minha memória, ainda que não tenha visto em 1970, somente em programas especiais sobre a história da TV.

Tarcísio em “O Rei do Gado”, “O Beijo do Vampiro”, “A Muralha” e “Velho Chico” – Divulgação/TV Globo

Tarcísio tem uma carreira extensa e já muito lembrada nas homenagens feitas a ele. Por isso, vou me ater aqui aos trabalhos que mais me marcaram, como na irretocável primeira fase da novela “O Rei do Gado”, de Benedito Ruy Barbosa, quando viveu Giuseppe Berdinazzi. Impossível esquecer de uma das primeiras cenas da trama, quando o personagem e Antônio Mezenga (Antonio Fagundes) brigam. O grande momento de Tarcísio, no entanto, acontece quando Berdinazzi recebe uma medalha em honra ao filho Bruno (Marcello Antony), morto na guerra, e enterra o objeto com esperança de que o primogênito possa renascer. Sem dúvida, um dos momentos mais tristes e belos da televisão brasileira.

Também marcante é a participação dele em “Fera Ferida”, de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares. Feliciano acreditava piamente que havia muito ouro em Tubiacanga. Convence a cidade de que podem lucrar muito com as minas escondidas no local e até chega a mostrar uma pepita que encontrou. Só que aquilo, na verdade, era pirita, também conhecida como “ouro de tolo”. Não tinha valor nenhum e isso provocou a fúria dos moradores da região. A morte de Feliciano, enquanto tentava fugir com a família, revolta o filho dele, que adota o nome de Raimundo Flamel (Edson Celulari) para colocar em prática um plano de vingança.

Foi, ainda, o duque Bóris, um vampiro que perseguiu por séculos as muitas reencarnações da mulher amada em “O Beijo do Vampiro”. Tarcísio emprestou elegância ao personagem e também contribuiu com a composição dele. Em entrevista ao programa “Donos da História”, o autor Antonio Calmon disse ter sido chamado pelo ator para conversar logo após a escalação. Junto com o diretor da novela, Marcos Paulo, foi vê-lo apreensivo, mas Tarcísio queria apenas permissão para dizer “tu” ou invés de “você” no texto. Segundo ele, um vampiro tão antigo não falaria “você” e isso realmente deu uma característica importante ao papel.

Gostei muito de Tarcísio na segunda versão de “Saramandaia”, de Ricardo Linhares. Dentro da proposta de realismo fantástico, viveu Tibério, um homem que fincou raízes no chão de tanto ficar imóvel. Teve uma bonita cena final ao lado de Candinha (Fernanda Montenegro), quando o amor dos dois se transforma em uma árvore. As novelas “Velho Chico”, “A Favorita” e “Páginas da Vida” foram outros trabalhos marcantes de Tarcísio, assim como as minisséries “A Muralha” e “Um Só Coração”.

Cartaz do espetáculo “O Camareiro” – Erick Rodrigues

No cinema, o ator interpretou Dom Pedro I no filme “Independência ou Morte”, de Carlos Coimbra, e protagonizou uma das cenas mais famosas da nossa sétima arte: o beijo em Ney Latorraca em “O Beijo no Asfalto”, texto de Nelson Rodrigues filmado por Bruno Barreto. Também esteve em “Eu Te Amo”, de Arnaldo Jabor, história embalada pela inesquecível canção homônima de Chico Buarque.

Eu já tinha visto tudo isso e sabia da importância dele para as artes no Brasil quando tive a oportunidade de vê-lo no teatro pela primeira vez. Em “O Camareiro”, vivia Sir, um ator consagrado que insistia em estar no palco mesmo com a saúde debilitada e durante um bombardeio, em plena Segunda Guerra Mundial. Como Tarcísio, valorizava o ofício que tinha e sabia que seu lugar era em cena. Nunca vou me esquecer da emoção de vê-lo sair da coxia e entrar no palco. Até me ajeitei na poltrona, afinal, era Tarcísio Meira. Igual ao personagem, o ator tinha enfrentado alguns problemas de saúde naquela ocasião, mas estava ali inteiro, imponente, hipnotizante.

Sentado na plateia naquele 10 de novembro de 2019, não via apenas Sir entrar em cena. Também estavam ali Bóris, Feliciano, Dom Pedro I, Jacinto, Copola, Tide, Giuseppe, Coronel Totonho e Dom Jerônimo. Todos vivos por conta de um talento sem igual, que jamais será esquecido. O talento de Tarcísio, o grande!

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