Diante de uma realidade acachapante, ouvir ou assistir histórias pode ajudar a fugir do mundo por alguns breves momentos, mesmo quando elas são criadas para emular a vida real ou provocar reflexões sobre nós mesmos. Em um período de pandemia e tantos problemas políticos e sociais, como esse que estamos vivendo, buscar um entretenimento que estimule sentimentos agradáveis é a opção de muita gente. Para quem quer ou precisa se deixar contaminar por amor e tudo mais que pode surgir a partir dele, a segunda temporada da antologia “Modern Love” é a pedida.
Depois de uma bem-sucedida primeira temporada, a série, que é inspirada em uma coluna do jornal The New York Times, volta com oito novas histórias, uma a cada episódio. O fio condutor de todas é o amor, que aparece em experiências distintas e que nem sempre acabam de maneira convencional. Como quase todas as antologias, se não todas, “Modern Love” é desregular, com algumas tramas melhores que outras. O segredo para uma boa produção do gênero é conseguir um equilíbrio para que o espectador olhe para o todo e goste da proposta, mesmo que alguns capítulos funcionem melhor que os demais.
Aqui, cada história de amor se apresenta com uma personalidade, mas, ainda que muito diferentes entre si, é possível perceber uma harmonia. Nenhuma se distancia da proposta de deixar quem assiste com o coração aquecido e um sorriso no rosto. Vamos, então, falar das que mais se destacam.
“Estranhos em um trem (de Dublin)” é o melhor episódio dessa temporada. A história começa, como o título indica, com o clichê do encontro de duas pessoas no trem, mas logo a expectativa de adivinhar o que acontece depois é quebrada por uma aproximação da ficção com a realidade. Paula (Lucy Boynton) e Michael (Kit Harington) estão indo passar duas semanas com os familiares por conta da pandemia, que, naquele momento, ainda estava no início. Ninguém sabia quanto tempo durariam todos os protocolos sanitários e determinações de governo.
Depois de uma conversa, eles marcam um encontro na estação de trem para o dia da volta aos estudos e trabalho. Não trocam telefones e nem redes sociais, acreditam que aquela conexão especial que sentiram merece um tratamento à altura. Na data acertada, no entanto, o casal não consegue chegar ao local por conta das medidas de isolamento. Michael até descobre uma pista de Paula, mas será que adianta? É um amor que vai acontecer? Precisa acontecer? A beleza está justamente nesse sentimento que nunca se concretiza, na expectativa, no desencontro.

Outro belo episódio é “Sou? Talvez esse teste me diga”, protagonizado Lulu Wilson. A atriz vive Katie, uma adolescente que passa pelo processo da descoberta da sexualidade. A estudante sente atração por Alexa (Grace Edwards), mas não entende direito e até tentar negar essa paixão. Insegurança, descoberta, ingenuidade, hormônios à flor da pele, tudo isso se mistura e ganha um tratamento delicado e até complexo.
“Em uma estrada sinuosa, com a capota aberta”, episódio que abre a temporada, também merece ser destacado. Nele, a atriz Minnie Driver interpreta uma mulher em um impasse: vender ou não um carro que só dá problema? O veículo foi uma herança do marido falecido e representa muitos bons momentos que viveram juntos, inclusive o nascimento da filha. Ela refez a vida e casou novamente, mas aquelas memórias ainda são muito presentes e preservam a conexão com aquele amor. Afinal, o carro velho é algo que apenas dá despesas ou tem um valor que vai além disso?
O segundo ano da série termina com o episódio “Tentando novamente, com corações e olhos abertos”. Elizabeth (Sophie Okonedo) e Van (Tobias Menzies) estão separados, mas continuam amigos e dividindo harmoniosamente os cuidados com as duas filhas. O amor entre eles renasce, só que em outros termos. O casal não é mais o mesmo de antigamente e essa reaproximação traz uma empolgação, um frescor. No meio do caminho, ela fica doente, porém, o amor passa a fazer parte do processo de cura.
O grande trunfo dessa antologia é conseguir se conectar muito rapidamente com o espectador, afinal, trata de um tema universal e de identificação imediata. Os personagens são, de uma forma geral, bem desenhados e carismáticos, o que também ajuda o público a embarcar nesse entretenimento que descaradamente quer tocar o coração de quem assiste.
Entre as ótimas histórias, há episódios menos inspirados no segundo ano de “Modern Love”, que acabam apagados quando pensamos na temporada como unidade. Nenhum, no entanto, pode ser acusado de fugir da proposta e, independente da potência da trama, todos eles transmitem boas sensações ao espectador. É amor, sem fórmulas ou regras; certos e errados; lógica e sentido. É tudo o que precisamos e nunca vai ser demais.
MODERN LOVE (segunda temporada)
ONDE: Amazon Prime Video
COTAÇÃO: ★★★ (boa)
