Se você não mora em Marte ou confortável em uma bolha de ilusões, certamente é capaz de reconhecer que vivemos em um mundo injustamente desigual. Qualquer resistência a esse fato pode significar que você está se deixando cegar por algum dos privilégios que constroem essa realidade. “The White Lotus”, série disponível na HBO Max, escancara a forma como o ser humano estabelece relações de poder através de uma sátira afiada e que conduz os conflitos entre os personagens com uma progressão impecável.
O título da produção remete ao nome de um resort de luxo, no Havaí, que recebe hóspedes interessados em relaxar e guardar recordações de férias perfeitas. A série começa com um grupo de turistas chegando para uma estadia no paraíso. Entre eles, está o casal Shane (Jake Lacy) e Rachel (Alexandra Daddario), que vai passar a lua-de-mel no local.
Também faz parte do grupo a família Mossbacher, formada por Nicole (Connie Britton), uma executiva maníaca por controle; o marido Mark (Steve Zahn), apreensivo por conta do resultado de um exame; a filha Olivia (Sydney Sweeney), acompanhada da amiga Paula (Brittany O´Grady), duas adolescentes prepotentes e superficialmente engajadas; e Quinn (Fred Hechinger), o filho deslocado e viciado em celular.
Quem completa o grupo é Tanya (Jennifer Coolidge), uma mulher egocêntrica e excessivamente carente que está levando as cinzas da mãe para serem jogadas no mar do Havaí. Todos eles são recepcionados por Armond (Murray Bartlett), o gerente do hotel, e por Belinda (Natasha Rothwell), a responsável pelo spa do resort, que logo cai nas graças de Tanya.
O resort de luxo de “The White Lotus” é um microcosmos onde se estabelecem relações de poder sustentadas por inúmeros privilégios usufruídos pelos hóspedes ricos e brancos. É o mundo do “você sabe com quem está falando?”, do “não sou preconceituoso, mas…”, da prosperidade meritocrática e da falsa consciência social.
Os conflitos entre os personagens são construídos progressivamente ao longo dos seis episódios da primeira temporada, como se estivessem sendo cozidos em uma panela de pressão que, em algum momento, vai explodir. Os diálogos afiados, por mais amigáveis que possam parecer, carregam sempre um tensionamento, especialmente quando são travados entre hóspedes e funcionários.

Os turistas, cada um querendo aproveitar aquele paraíso de uma forma, não se acanham em humilhar, subestimar, tirar vantagem ou simplesmente ignorar a equipe que trabalha para que eles tenham dias de descanso. Do alto dos privilégios conferidos a eles, os hóspedes sabem que não vão ser afetados pela violência que instigam, sempre por motivos banais ou crises existenciais rasas como um pires. Aparecem certos de que regras e punições não foram feitas para eles. Todas as situações são tratadas pelo roteiro com cinismo, que expõe o quão ridículas elas são.
Shane, por exemplo, é o típico babaca que acredita que o mundo está à disposição das vontades dele e que o valor das pessoas é medido pela conta bancária. Vira uma criança mimada, daquelas que chama pela mamãe, quando descobre que a suíte em que está hospedado é a segunda melhor do resort, não a primeira. Além de estragar a própria lua-de-mel por conta disso, ele também persegue o gerente para puni-lo pelo erro na reserva.
Tanya é outro bom exemplo de como as relações entre os personagens jogam luz em questões sociais relevantes. Descompensada emocionalmente, se escora na atenção dada por Belinda e chega a iludir a funcionária do resort com uma proposta de trabalho. Quando transfere o foco da carência para outra pessoa, simplesmente perde o interesse pela gerente do spa e abandona aquela relação ilesa. Bem diferente termina Belinda, usada e iludida pela promessa de realizar um sonho e mudar de vida.
Li por aí alguns textos sobre “The White Lotus” que criticam o desfecho da história, que mostra os privilegiados da sociedade deixando a ilha bem, sem terem sido atingidos profundamente por seus dramas burgueses, enquanto que os funcionários terminam como os grandes prejudicados. Mas, não é assim na vida real? Quem, geralmente, se dá mal no mundo lá fora?
“The White Lotus” é uma sátira social muito inteligente e instigante. Construídos com calma, cinismo e tensão, os conflitos entre os personagens revelam a quem assiste como as relações de poder se estabelecem em um mundo de privilégios. Uma pena que tenha sido renovada para a segunda temporada, pois estaria de bom tamanho encerrada como uma minissérie. É engraçada, oportuna e deliciosamente implacável.
THE WHITE LOTUS (primeira temporada)
ONDE: HBO Max (todos os episódios disponíveis)
COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)
