Começar esse texto com uma pergunta no título, além de uma provocação, um convite à reflexão, também é uma forma de sinalizar que as linhas que virão a seguir não têm a pretensão de apresentar respostas definitivas, mas sim pensamentos e discussões que surgem especialmente quando um produto de entretenimento ambientado em algum período histórico é lançado, como é o caso da novela “Nos Tempos do Imperador”.
Exibida no horário das 18 horas, na TV Globo, a trama de Alessandro Marson e Thereza Falcão é uma continuação de “Novo Mundo”, folhetim que mostrou, entre outros acontecimentos, a chegada da família real portuguesa ao Brasil, o “Dia do Fico” e a declaração da Independência. Agora, o ponto de partida é o ano de 1856 e o foco está em D. Pedro II (Selton Mello), imperador do Brasil; o relacionamento dele com a imperatriz Teresa Cristina (Letícia Sabatella), um casamento arranjado; e a paixão do filho de D. Pedro I (Caio Castro) por Luísa (Mariana Ximenes), a condessa de Barral, preceptora das princesas Isabel (Any Maia) e Leopoldina (Melissa Nóbrega).
Logo que a novela estreou, começaram os questionamentos sobre o que é real e o que é ficção em “Nos Tempos do Imperador”. D. Pedro II era mesmo um abolicionista? O amor do imperador pela condessa de Barral foi mesmo tão arrebatador? O encontro entre o protagonista da trama e Solano López (Roberto Birindelli), presidente do Paraguai, em solo brasileiro ocorreu?
Despertar a curiosidade do espectador sobre a história do Brasil é, incontestavelmente, a grande qualidade da novela. O folhetim pode servir de estímulo para a busca por informações, hoje mais ao alcance por conta da internet. É preciso, no entanto, atenção à credibilidade das fontes para que essa procura não acabe desinformando. Historiadores como Paulo Rezzutti e Eduardo Bueno têm materiais interessantes no YouTube sobre os personagens retratados na trama e há, ainda, diversas indicações bibliográficas sobre o período.
Rezzutti, por exemplo, esclarece que o encontro entre D. Pedro II e López, que abre a novela, não ocorreu. O historiador, que é autor do livro “D. Pedro II – A história não contada”, também diz que o relacionamento entre o imperador e a condessa de Barral não foi uma paixão avassaladora, como aparece na trama, mas um amor mais contido e ligado à admiração intelectual. Já Bueno destaca contradições entre as convicções do filho de D. Pedro I e as escolhas feitas por ele no comando do país. Vale a pena pesquisar todo esse material.

“Nos Tempos dos Imperador”, como os próprios autores destacam, é uma ficção e isso torna compreensível que encontros entre personagens, reações e dramas sejam acrescentados ao contexto histórico, afinal, uma narrativa ficcional precisa criar conflitos para conquistar o espectador, diferente do documentário ou da reportagem, que lidam apenas com fatos, documentos e estudos.
É necessário considerar, no entanto, que uma parcela do público, talvez a maior parte, não vai atrás das informações reais e pode tomar o que aparece na novela como uma verdade absoluta. Exatamente por isso é fundamental que haja cuidado e responsabilidade para que a fantasia não engula o contexto histórico ou suprima detalhes importantes.
D. Pedro II aparece, em “Nos Tempos do Imperador”, como um abolicionista convicto e a pesquisa sugerida acima confirma essa posição do imperador. Porém, tirando breves citações, ainda não foi enfatizado na novela que, mesmo pensando assim, ele não aboliu a escravidão para agradar aos donos de terras que atuavam no Congresso. Já havia um movimento contra a monarquia e muitas pessoas continuaram escravizadas para garantir o reinado dele. As contradições do personagem central começaram a ficar mais acentuadas no capítulo desta segunda-feira (13), quando o imperador é questionado pelo escritor José de Alencar, eleito deputado pelo Ceará, sobre a venda de títulos de nobreza em troca de apoio. Esse jogo de interesses, inclusive, segue muito atual na política brasileira.
O compromisso com a responsabilidade também deve atuar no cuidado para que uma obra não reforce preconceitos ou ideias equivocadas. Há algumas semanas, “Nos Tempos do Imperador” errou feio mostrando uma sequência do chamado racismo reverso, que, mesmo não existindo, é usado com frequência para minimizar o preconceito sofrido por pessoas negras. A autora veio a público pedir desculpas, mas o fato é que aquilo já foi para o ar e pode ter servido para alimentar conceitos errados.
O cineasta Joel Zito Araújo, diretor do filme “A Negação do Brasil”, que analisa a representação dos negros na telenovela brasileira, escreveu um artigo para o jornal Folha de S. Paulo que merece ser mencionado nessa reflexão. O diretor destaca o fato de a trama ser conduzida por uma visão branca, que limita a retratação dos negros do período aos escravizados e libertos, mas ignora uma elite negra da Corte, como aponta Araújo, e personagens relevantes do período, como os irmãos Rebouças e José do Patrocínio. É claro que, sendo coerente com o contexto histórico, a escravidão deveria aparecer, mas também seria muito importante e inovador que “Nos Tempos do Imperador” pudesse expandir a forma de contar a história e retratasse o que o cineasta chama no artigo de complexidade das relações raciais brasileiras.

No campo da política, misturando ficção e realidade, “Nos Tempos do Imperador” tem no personagem Tonico Rocha (Alexandre Nero) um grande acerto. O fazendeiro que vira deputado é um “suco” do que há de pior na elite brasileira, influenciada por fatores políticos e econômicos. Preconceituoso, oportunista e alpinista social, Tonico aparece em tramas que falam muito diretamente com a nossa realidade de hoje. Ele, por exemplo, mostrou como era fácil fraudar uma eleição de votos impressos e “auditáveis”.
A pergunta do título não foi usada para sugerir qualquer cerceamento criativo ou limite que possa tolher qualquer liberdade ao se contar uma história. Muito longe disso. No entanto, é preciso considerar a responsabilidade de apresentar ao público um contexto histórico e tomar cuidados para não desvirtuá-lo. A ficção deve ir até a linha que a separa da desinformação. É preciso cuidado para não deseducar o espectador.
Até aqui, “Nos Tempos do Imperador” tomou liberdades compreensíveis e necessárias para criar os conflitos que tornam um folhetim atrativo; cometeu erros de abordagem; e mostrou qualidades, sendo a principal delas a curiosidade que pode despertar sobre a nossa história. Ainda é injusto dizer que é mais um desserviço do que um entretenimento, mas já é possível apontar os pontos que precisam ser melhorados na nossa teledramaturgia.
