Séries

“Sex Education” volta ainda melhor afrontando retrocesso e falso moralismo

Mostrar a importância do diálogo aberto, do acesso a informações e da derrubada de tabus e preconceitos sempre foi o grande valor de “Sex Education”, série que faz parte do catálogo da Netflix. Agora, com os episódios da terceira temporada já disponíveis, a produção acerta ao expandir as críticas e afrontar o retrocesso que tem ganhado espaço na sociedade e que pode afetar, entre outros campos, a educação e a qualidade de vida de uma geração em desenvolvimento.

Depois de mais um verão, os alunos de Moordale voltam a frequentar a escola e descobrem que muitas mudanças estão sendo implantadas pela nova diretora. Hope (Jemima Kirke) é adepta da “moral e dos bons costumes” e quer acabar com a fama que a instituição ganhou na temporada passada de “escola do sexo”. A personagem se mete na forma como os alunos devem andar pelos corredores, obriga o uso de uniformes e até interfere nas escolhas artísticas dos grupos de teatro e música.

Focada em “moralizar” a escola e agradar investidores, Hope, inclusive, altera o currículo escolar para acabar com as aulas de educação sexual. A disciplina é transformada em uma oportunidade de amedrontar os jovens e pregar a abstinência de sexo. Parte dos alunos é atingida por esse discurso de que a sexualidade é algo “sujo” e, também por conta da falta de orientação da clínica de Otis (Asa Butterfield) e Maeve (Emma Mackey), entra em parafuso.

Separados desde a temporada passada, Otis e Maeve seguem caminhos diferentes. A jovem se aproxima cada vez mais de Isaac (George Robinson); segue em conflito com a mãe; e vive a expectativa de estudar nos Estados Unidos, através de um programa escolar. Já o filho de Jean (Gillian Anderson) aparece às voltas com um novo relacionamento e se acostuma ao arranjo familiar estabelecido pelos preparativos do nascimento de um irmão.

A proposta de revelar aos poucos as camadas dos personagens não perde o fôlego e segue em renovação em “Sex Education”. Desde o primeiro ano, o roteiro, inicialmente, dá a impressão de apresentar tipos estereotipados de jovens e, em seguida, começa um processo de desconstrução desses perfis. Com o andar dos episódios, vemos um aprofundamento das nuances daqueles adolescentes cheios de dúvidas e inseguranças. No final, mesmo tão diferentes, há um elo que os une e também nos liga a eles.

Divulgação/Netflix

Por falar em diferenças, o respeito a elas é outro tema da terceira temporada. Na cruzada de Hope pela “moralidade”, a nova diretora de Moordale tenta apagar a identidade dos alunos, especialmente daqueles que não se identificam com o gênero de nascimento. Conflitos sobre o uso do uniforme e do banheiro aparecem através de Cal (Dua Saleh), personagem não-binário que vira alvo das regras impostas por Hope.

Mesmo que sempre tenha se colocado contra discursos conservadores, “Sex Education” aprofunda essa proposta, agora, afrontando retrocessos e falsos moralistas que têm ganhado espaço na nossa sociedade, inclusive na política. Essas visões atrasadas, que privilegiam o silêncio e a hipocrisia ao invés do diálogo e das informações embasadas, já impactaram gerações anteriores e seguem tentando se impor para interferir na sexualidade e nas escolhas dos jovens. Por isso, por exemplo, são tão preocupantes políticas públicas e educacionais que induzem à abstinência de sexo e tentam blindar o acesso de adolescentes a conteúdos informativos de educação sexual, que nada têm a ver com promiscuidade.

Na terceira temporada, “Sex Education” reserva, ainda, jornadas interessantes para alguns personagens. Ruby (Mimi Keene), a patricinha maldosa, passa por um processo de humanização que expõe as fragilidades e incertezas da personagem. A transformação e as descobertas de Adam (Connor Swindells) são muito bem construídas e é curioso ver como esse arco sinaliza uma aproximação do garoto com o pai, Michael (Alistair Petrie), que também passa por revisões de trajetória.

Todas as críticas e situações que mobilizam os personagens são conduzidas sempre por um humor sagaz. O texto e as cenas fazem o espectador rir de forma espontânea, sem fazer força ou causar constrangimentos. Quando os episódios acabam, desejamos que outros sejam lançados rapidamente.

Ainda melhor do que nas temporadas anteriores, “Sex Education” volta mostrando que a abertura de espaço para retrocessos e ideias conservadoras interfere diretamente na qualidade de vida de uma geração em desenvolvimento, que precisa de informações e canais abertos para que cada um viva plenamente a sexualidade e própria identidade. A série afronta o atraso e os falsos moralistas da melhor forma possível: com inteligência, humor e despudor.

SEX EDUCATION (terceira temporada)

ONDE: Netflix (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)

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