O novo filme do espião James Bond, “007 – Sem Tempo para Morrer”, que estreia nesta quinta-feira (30), nos cinemas, não representa apenas um marco por ser o 25º. longa lançado nos quase 60 anos da franquia. A produção também é a despedida do ator Daniel Craig, que interpretou o agente secreto com licença para matar por 15 anos.
Antecedido no papel por Sean Connery, George Lazenby, Roger Moore, Timothy Dalton e Pierce Brosnan, Craig superou uma descabida rejeição inicial e, hoje, deixa o personagem como um dos melhores intérpretes do espião britânico. A resistência dos fãs e da imprensa ao nome do ator, quando anunciado para protagonizar “Cassino Royale”, é relatada pelos produtores da franquia em “Being James Bond”, um especial disponível na Apple TV+ que faz uma retrospectiva sobre a fase de Craig como 007.
Loiro, aparentemente carrancudo e desprovido do evidente sex appeal dos antecessores eram algumas das características apontadas pelos críticos da escolha. Tudo mudou, como mostra o especial, com a divulgação da primeira foto do set de filmagem e, claro, após a estreia do longa. Superando a resistência sem sentido, apegada a padrões que podem e devem ser quebrados, Craig emplacou no papel e virou uma estrela de Hollywood, o que impactou a vida pessoal dele. A dedicação do ator também é citada no especial, já que, algumas vezes, o intérprete precisou gravar machucado.
Craig foi o rosto do espião em uma fase importante para a franquia. “007 – Cassino Royale” funciona como uma história de origem e convida o espectador a mergulhar nas complexidades do protagonista, muito pouco exploradas até então. Essa proposta renovou o interesse do público pela série de filmes e modernizou os conflitos do personagem, inclusive aqueles que acontecem internamente.
Por conta da relevância da fase em que Daniel Craig esteve à frente da franquia, vale a pena revisitar os quatro filmes que vieram antes de “Sem Tempo para Morrer” e ajudaram a construir a despedida que encerra um ciclo e sinaliza o início de outro.

A origem do espião
Estreando como James Bond, em 2006, Craig encarou a tarefa de ajudar a contar nas telas a origem do espião criado pelo escritor Ian Fleming. Em “007 – Cassino Royale”, o agente recebe a primeira missão após conquistar a licença para matar. O alvo da investigação do Serviço Secreto Britânico é Le Chiffre (Mads Mikkelsen), responsável por financiar grupos terroristas. Disposto a deixar o vilão sem recursos, Bond se infiltra em um cassino exclusivo e enfrenta o bandido em um torneio de pôquer.
“007 – Cassino Royale” não é apenas um filme que destaca o início da carreira de Bond como um agente 00. O longa também começa a dissecar as camadas da personalidade do espião, mostrando uma profundidade nunca antes explorada na franquia. Vemos, por exemplo, o laço com M (Judi Dench) sendo construído e descobrimos que o amor por Vesper Lynd (Eva Green) e os traumas que surgem dele explicam a forma como o protagonista se relaciona com as Bond Girls ao longo da franquia.

O erro no percurso
O entusiasmo com a origem dos conflitos do espião deu lugar à decepção provocada pelo filme seguinte. Concebido em meio a muitos problemas, entre eles uma greve de roteiristas em Hollywood, “007 – Quantum of Solace”, lançado em 2008, apresenta uma trama nada empolgante e vilões inexpressivos, sem contar certa confusão na construção da narrativa.
“007 – Quantum of Solace” retrocede na proposta de explorar as complexidades de James Bond. O argumento pobre que envolve a perseguição a Dominic Greene (Mathieu Amalric), envolvido na morte de Vesper, torna a vingança pessoal do espião muito artificial. O longa também não acrescenta nada à revelação das camadas do protagonista e ao relacionamento dele com M. Sem dúvida, um dos piores filmes de toda a franquia.

Do fiasco à glória
Depois do fiasco incontestável, a franquia deu um salto para o outro extremo. “007 – Operação Skyfall”, de 2012, é um momento de glória para o personagem e resgata a profundidade inserida em “Cassino Royale”. O roubo de informações do MI6 e a caçada ao vilão Silva (Javier Bardem) expõem o passado de M e levam James Bond a reviver memórias da infância.
A direção de Sam Mendes e a fotografia de Roger Deakins inserem beleza e um tom soturno que valorizam a franquia. O fim do ciclo de M e a substituição por Mallory (Ralph Fiennes) também contribuem para as nuances de Bond. A produção apresenta, ainda, uma série de referências a elementos clássicos dos longas anteriores, modernizados como uma homenagem à trajetória cinematográfica do personagem. É o melhor filme do espião.

A organização
Não seria fácil repetir o êxito de “Operação Skyfall” e, de fato, isso não acontece, mas “007 – Contra Spectre”, que chegou aos cinemas em 2015, não faz feio. Mesmo com alguns problemas, como a fraca apresentação do vilão Ernst Stavro Blofeld (Christoph Waltz), o longa apresenta a Spectre como a organização criminosa por trás dos maiores criminosos da franquia.
Mencionada pela primeira vez em “007 contra o Satânico Dr. No”, de 1962, o filme que inaugura a franquia no cinema, a Spectre vira alvo das investigações de Bond após um encontro com Mr. White (Jesper Christensen), inserido em “Cassino Royale”. Estabelecendo uma ligação do passado entre o protagonista e o vilão, o longa dá mais um passo na direção de se aprofundar nos conflitos internos do espião.
007 – CASSINO ROYALE
COTAÇÃO: ★★★★ (ótimo)
007 – QUANTUM OF SOLACE
COTAÇÃO: ★ (ruim)
007 – OPERAÇÃO SKYFALL
COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)
007 – CONTRA SPECTRE
COTAÇÃO: ★★★ (bom)
