Dois filmes, duas versões, um crime. Lançar “A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou Meus Pais” simultaneamente, seja por estratégia ou vaidade, mostrou-se eficiente desde as primeiras divulgações. Além do fato de abordar os assassinatos cometidos por Suzane Von Richthofen e Daniel Cravinhos, crimes que mobilizaram o país, a possibilidade de ter acesso a produções guiadas por pontos de vista distintos desperta a curiosidade do espectador. Mas, na prática, a proposta fica bem longe de funcionar como poderia.
Em “A Menina que Matou os Pais”, Daniel (Leonardo Bittencourt) senta no banco dos réus, durante o julgamento pelo assassinato do casal Manfred (Leonardo Medeiros) e Marísia (Vera Zimmermann), e fala sobre como conheceu a namorada Suzane (Carla Diaz) e do relacionamento com a família. Ele também destaca a influência exercida por Suzane, que o convenceu a cometer o crime, e a participação do irmão Christian (Allan Souza Lima) no plano.
Já em “O Menino que Matou Meus Pais”, é Suzane quem presta depoimento diante do juiz. A jovem segue basicamente a mesma linha do tempo, mas aborda de forma diferente o relacionamento com Daniel, o comportamento dos pais em relação ao namoro e a iniciativa em arquitetar o assassinato de Manfred e Marísia.
Dirigidos por Maurício Eça, ambos os filmes foram concebidos a partir dos autos do processo e dos depoimentos dados, na ocasião do julgamento, por Suzane e Daniel. É aí que mora o primeiro problema. Restritos às versões dos namorados, claramente orientadas por advogados para tentar evitar condenações, os roteiros abordam o caso de maneira superficial e não abastecem o espectador com informações que possam esclarecer questionamentos sobre o crime.

A falta de um material robusto para a construção de narrativas sobre o caso, que poderia vir de análises de especialistas e depoimentos complementares, acaba comprometendo a proposta que tanto desperta a curiosidade do espectador. Tirando as mudanças de comportamento de Suzane e Daniel, evidenciadas na tentativa de transferir a culpa um para o outro, os filmes quase não mudam. Além de algumas cenas iguais, os roteiros se prendem a detalhes insignificantes que contribuem para uma sensação de repetição, não de complemento ou novidade.
Essa abordagem superficial não afeta apenas a forma como as narrativas são estruturadas, mas também os diálogos. Pobre, o texto está repleto daquelas frases que o espectador consegue prever antes de saírem da boca dos atores. As falas causam um estranhamento, soam inverossímeis e pouco coloquiais, o que também tem a ver com a direção do elenco.
E, por falar no elenco, é preciso dizer que as atuações são sofríveis. De um modo geral, há um exagero no tom das interpretações que parece originário de um desejo de “desenhar” para o espectador as intenções dos personagens. Vi em algum lugar, inclusive, que essa teria sido uma escolha proposital para evidenciar a dissimulação dos depoimentos, mas é um argumento que não cola. Há formas mais inteligentes e sutis de sinalizar contradições entre o que um personagem sente e diz.
“A Menina que Matou os Pais” e “O Menino que Matou Meus Pais” lembram muito dramatizações de programas policiais, como as do extinto “Linha Direta”. As narrativas são superficiais e criadas para transmitir obviedades ao espectador, que ainda ouve diálogos batidos e vê interpretações exageradas. Ao invés de dois filmes de cerca de 80 minutos cada, um longa-metragem de duas horas seria o suficiente para a proposta. Pensando bem, considerando o material apresentado, também seria muito.
A MENINA QUE MATOU OS PAIS
COTAÇÃO: ★ (ruim)
O MENINO QUE MATOU MEUS PAIS
COTAÇÃO: ★ (ruim)
ONDE: Amazon Prime Video
