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“Ted Lasso”: sempre um sorriso no rosto

A construção dos personagens, com trajetórias bem definidas e nuances que vão sendo mostradas aos poucos, sempre foi um dos grandes trunfos de “Ted Lasso”. Desde a primeira temporada, a forma como eles interagem entre si e as revelações que os acontecimentos trazem à tona em cada um não só chamam atenção, como também fazem o espectador se conectar ainda mais com a história. Tendo essa qualidade tão evidente, é curioso que o único defeito do segundo ano da série esteja relacionado a essa característica.

Rebaixado da Premier League, o Richmond segue sob o comando do otimismo aparentemente indestrutível do técnico Ted Lasso (Jason Sudeikis). A preocupação com o bem-estar dos jogadores, especialmente depois de uma tragédia com o mascote da equipe, faz o time contratar a terapeuta Sharon Fieldstone (Sarah Niles) para dar suporte emocional ao grupo, algo que, inicialmente, encontra a resistência do treinador.

Lasso evita o quanto pode acreditar nos benefícios da terapia para lidar com os conflitos internos e externos que envolvem o time e se nega a sentar para conversar com Sharon. A inabalável confiança e as palavras motivacionais do técnico são, no entanto, um mecanismo de defesa usado para esconder as fragilidades dele e isso vai ficando evidente com o andar dos episódios.

Os personagens coadjuvantes, já bem explorados no primeiro ano, seguem com desenvolvimentos interessantes na segunda temporada. Rebecca (Hannah Waddingham), a dona do time, depois de deixar para trás a amargura da separação, encontra um novo interesse amoroso e lida com as emoções que surgem com a morte do pai. Já Roy Kent (Brett Goldstein) experimenta a rotina de comentarista esportivo, antes de descobrir o caminho de volta ao Richmond, ao mesmo tempo em que vive intensamente o relacionamento com Keeley (Juno Temple); e Jamie Tartt (Phil Dunster) busca construir laços mais profundos com o time e superar questões familiares mal resolvidas.

Divulgação/Apple TV+

Quem julgou, em um primeiro momento, “Ted Lasso” como uma série sobre futebol ou uma comédia fácil, que se sustenta por piadas sobre um norte-americano pouco acostumado aos hábitos britânicos, agora vê com mais clareza que se enganou muito. Já evidentes no primeiro ano, as qualidades do roteiro saltam ainda mais aos olhos na segunda temporada, que mistura mais os gêneros e, além da comédia, explora uma veia mais sentimental.

O cuidado que a produção tem com a construção de cada personagem, do principal ao que menos aparece, é admirável. Progressivamente, o espectador vai percebendo a profundidade daqueles tipos, que deixam de parecer estereotipados ou só engraçados e se revelam complexos, frágeis e contraditórios. O arco de Lasso é o exemplo mais evidente da riqueza que há por trás da aparência e de como essas nuances criam uma conexão sólida com quem assiste.

Essa habilidade em construir personagens tão bem só não é perfeita por conta da trajetória de Nathan (Nick Mohammed), o auxiliar de vestiário alçado ao posto de técnico assistente. Pacato e alvo constante do deboche dos jogadores, Nate deixa a figura de oprimido para exercer a função de um vilão na história, mas essa é uma mudança de comportamento que, mesmo com potencial, pareceu apressada. A série até contextualiza bem os motivos que levam a essa virada, mas não houve o mesmo cuidado dos roteiristas em criar algo mais sólido e crível, como acontece com as demais tramas.

O deslize na apresentação dessa nova faceta de Nate não tem força, é bom que se diga, para abalar a posição de “Ted Lasso” como um dos melhores produtos de entretenimento que temos atualmente. A construção de personagens carismáticos e ricos em camadas a serem exploradas continua sendo o grande atrativo da série, que segue provocando risos espontâneos. Agora, no entanto, a produção passa a equilibrar essa habilidade de fazer rir com momentos que podem levar o espectador às lágrimas. O interessante é que, até mesmo chorando, quem assiste vai acabar sempre com um sorriso no rosto.

TED LASSO (segunda temporada)

ONDE: Apple TV+ (todos os episódios disponíveis)

COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)

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