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“Duna” é espetáculo cinematográfico grandioso e hipnotizante

A capacidade de contar histórias é um talento admirável por si só, mas alguns cineastas conseguem ir além dela. Imprimindo personalidade, inventividade e paixão, eles criam universos inteiros e os compartilham com os espectadores. É o caso de Denis Villeneuve, que, agora, divide com o público uma visão grandiosa e fascinante sobre uma saga definitiva para o gênero de ficção científica.

“Duna”, o livro que conquistou uma legião de fãs e serviu de referência a muitas obras do gênero que vieram depois, é um produto da mente do escritor norte-americano Frank Herbert. Com uma bagagem de bons serviços prestados à sétima arte e um envolvimento pessoal declarado com obra literária, Villeneuve traduz visualmente a história com tanta propriedade e admiração que ninguém duvida que tudo aquilo também faz parte do universo criativo dele.

Na galáxia onde vivem os personagens de “Duna”, uma substância conhecida como especiaria é a mais cobiçada do universo. Além de aguçar os sentidos, ela também viabiliza as viagens espaciais. O único lugar de onde é possível extrair a especiaria é o planeta desértico Arrakis, que, por decisão do Imperador, passa a ser controlado pela Casa Atreides.

Sem poder rejeitar o controle de Arrakis, mesmo desconfiando das intenções do Imperador, o duque Leto Atreides (Oscar Issac) mobiliza um exército e parte com a família para o planeta. Lá, ele tenta estabelecer uma convivência com os Fremen, povo que vive entre as dunas do deserto e o único que se adaptou ao calor implacável daquele lugar. Não tendo muito tempo para se ambientar, a Casa Atreides é atacada pelos Harkonnen, que detinham o controle do planeta e se unem ao Imperador para derrotar o inimigo em comum.

O filho do duque Leto, o jovem Paul Atreides (Timothée Chalamet), pode ser determinante nos conflitos que se estabelecem. Em Arrakis, uma antiga profecia faz com que ele seja considerado um messias, alguém que chega para trazer um futuro melhor ao universo. Paul tem vários sonhos misteriosos e dons que chamam a atenção das Bene Gesserit, a irmandade mítico-religiosa da qual pertenceu a mãe dele, Jessica (Rebecca Ferguson), que contrariou ordens de gerar apenas mulheres.

Divulgação/Warner Bros.

Quando Villeneuve anunciou que faria uma versão de “Duna”, o nome do cineasta parecia o ideal para encabeçar um projeto tão ambicioso e considerado de difícil adaptação. O lançamento do filme tornou essa percepção uma certeza. Dono de uma filmografia de muita personalidade estética, o diretor se apropriou, no melhor sentido, da criação de Frank Herbert e levou às telas a visão grandiosa que tinha da história. Trabalhadas em escala, as cenas destacam a vastidão das paisagens e o tamanho dos personagens em relação aos elementos naturais e às construções tecnológicas.

Villeneuve, que também assina o roteiro, junto com Jon Spaihts e Eric Roth, não tem pressa em conduzir os acontecimentos. Boa parte de “Duna” corresponde a uma apresentação da trama e dos personagens, que é feita sem atropelos e de forma a oferecer um contexto sólido para o espectador, especialmente para aqueles que não tiveram contato com o livro. A narrativa segue um ritmo contemplativo na maior parte do tempo, mas isso não a faz pedante. Muito pelo contrário. Incrementada pela belíssima fotografia de Greig Fraser e trilha sonora de Hans Zimmer, ela nos envolve no enredo de tal forma que fica parecendo que estamos naquelas dunas de areia observando tudo.

Associar “Duna” à palavra “grandiosidade” pode passar uma ideia de exagero ou recursos espalhafatosos, mas o filme mostra exatamente o oposto disso. É, de fato, uma obra construída por cenas de grandes proporções, mas existe, ao mesmo tempo, uma sobriedade, um minimalismo, um voltar-se para dentro que dá um equilíbrio muito interessante ao longa. As imagens arrebatam, mas não fazem isso sozinhas. O espectador se envolve com a jornada dos personagens, com a forma como as emoções e as transformações se apresentam, que tem muito a ver com a harmonia vista na estética.

Vivendo o protagonista, Timothée Chalamet foi uma escolha acertada. O ator mescla ingenuidade, mistério e potência, deixando que cada uma dessas características surja no momento oportuno. Todo o elenco, por sinal, tem um desempenho muito bom: Oscar Issac, Rebecca Ferguson, Zendaya, Jason Momoa, Javier Bardem, Josh Brolin, Charlotte Rampling e Stellan Skarsgard, só para citar alguns.

“Duna” já tinha ganhado uma versão cinematográfica antes, através de David Lynch, em 1984, mas o resultado é muito ruim e esquecível. Agora, Denis Villeneuve nos deu um filme para ficar na memória. Primeira parte do projeto do diretor, que cobre apenas metade do livro, o longa é um espetáculo cinematográfico que hipnotiza. Cenários grandiosos, fotografia deslumbrante e uma jornada envolvente resultam em um fascínio que só a riqueza de um universo criativo é capaz de proporcionar.

DUNA

ONDE: nos cinemas

COTAÇÃO: ★★★★★ (excelente)

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