Por conta de uma rotina de violência doméstica, Alex (Margaret Qualley) sai de casa, no meio da noite, levando a filha Maddy (Rylea Nevaeh Whittet) e uns poucos pertences. Sem nenhum amparo da família, é obrigada a dormir no carro. Quando procura o serviço social, esbarra em um sistema marcado por uma burocracia sem fim e uma inaceitável ineficácia para o acolhimento. Ela é obrigada a comprovar renda para conseguir uma moradia popular, mas não pode trabalhar porque precisa cuidar de uma criança. Sem uma retaguarda familiar e assistência para financiar uma creche, como vai conseguir garantir o contracheque exigido pelos programas sociais? Inicialmente, a personagem não aceita que é alvo da violência praticada pelo marido, afinal, ela não está fisicamente machucada. Mesmo quando passa a entender o conceito amplo de abuso, encontra outras dificuldades para construir independência e segurança.
Todos esses acontecimentos são só o primeiro episódio de “Maid”, minissérie disponível na Netflix. E, que fique claro, o uso de “só” é uma mera escolha de palavra enfatizar que trata-se apenas do início da saga de Alex. Para qualquer mulher, real ou da ficção, tudo isso é muito e, assim como acontece com a protagonista da produção, para várias, compõe apenas a parcela de uma rotina construída em cima de ciclos de violência, abandono, medo e machismo.
Sair de casa no meio da noite é o ímpeto de Alex para tentar salvar a filha e a si mesma. Sean (Nick Robinson), alcoólatra e com um histórico familiar problemático, não bate na esposa, mas esmurra a parede, grita, intimida e quebra objetos. Além de abusar psicologicamente da protagonista, também pratica violência patrimonial, restringindo o acesso da personagem a dinheiro. Apesar de tudo isso, consegue fazer com que ela seja descreditada como mãe.
Apoiado por um sistema jurídico falho, fruto de uma sociedade patriarcal e de leis criadas para beneficiar os homens, Sean consegue a guarda provisória de Maddy. Supervalorizando a burocracia e a necessidade de provas materiais de abuso, a justiça desconsidera a fragilidade, a falta de orientação e as circunstâncias que empurraram Alex para o tribunal poucos dias depois de sair de casa e sem ter tido uma estrutura de amparo.
Os problemas de Alex também passam pela falta de empatia de empregadores; pela instabilidade mental e egocentrismo da mãe, Paula (Andie MacDowell); e pelo relacionamento tumultuado com o pai, Hank (Billy Burke). Nessa jornada árdua, além do amor incondicional da filha, a protagonista encontra apoios importantes em Denise (BJ Harrison), responsável por um abrigo que acolhe mulheres que sofrem violência doméstica; Nate (Raymond Ablack), um antigo colega de trabalho; e Regina (Anika Noni Rose), que contrata Alex como faxineira e, depois de um início conturbado de relação, torna-se uma fundamental mão estendida.

“Maid” não é uma minissérie fácil de maratonar. Os episódios angustiam o espectador, causam desconfortos, desesperos. No entanto, são esses os sentimentos que provam o quanto essa história é urgente, já que inúmeras mulheres vivenciam os problemas de Alex todos os dias e encontram as mesmas dificuldades da personagem para superá-los. O mal-estar de quem assiste não é nada perto do sofrimento dessas mulheres, que buscam força nelas, nos filhos ou em qualquer outro motivo para enfrentar situações semelhantes.
O roteiro, que é inspirado no livro homônimo de Stephanie Land, acerta não idealizando a jornada da protagonista. Os episódios mostram os percalços que surgem a partir da decisão de acabar com os ciclos de violência doméstica e reforçam que essa é uma trajetória feita, na maioria das vezes, de tentativas. Por isso, é tão importante o acolhimento, o reforço à autoestima, a empatia e a coragem.
É uma qualidade da produção, ainda, apontar as falhas de um sistema social e jurídico que deveria ajudar e acaba criando uma série de empecilhos. Isso fica claro não só em relação à temática da violência doméstica, mas no todo. É a falência do “American Way of Life”, uma realidade com desabrigados, desempregados e desassistidos pelas políticas públicas. Uma situação, é bom que se diga, que não é exclusiva dos Estados Unidos.
A história escolhe aprofundar a discussão sobre os ciclos de violência destacando que, com muita frequência, eles estão presentes nos alicerces de uma estrutura familiar e que, se não rompidos, seguem produzindo vítimas por gerações. O passado de Sean, o marido abusivo que foi criado em um ambiente em que comportamentos semelhantes eram normalizados, ainda que não possa e não deva servir como justificativa, ajuda a explicar essa ideia.
Além do texto bem escrito, parte da empatia que o espectador cria por Alex vem da força da interpretação de Margaret Qualley. No meio de personagens com tipos bem marcados, ela escolhe um caminho de trabalho mais simples e introspectivo. A atriz se destaca por isso e, também, por um olhar que domina a tela e a atenção do espectador. Anika Noni Rose, BJ Harrison, Nick Robinson e a garota Rylea Nevaeh Whittet são outros bons nomes do elenco.
A dureza de “Maid” mostra a quem assiste o quanto essa história é necessária. A jornada de Alex é cruel, injusta, exaustiva e, infelizmente, comum a muitas mulheres que não são acolhidas pela família, pela sociedade e até pelo sistema que foi criado para ajudá-las. Avanços aconteceram, é verdade, porém, é preciso mais estrutura e mudanças de comportamento para que os ciclos de violência sejam quebrados com mais frequência e eficácia. Essa minissérie serve como inspiração para isso.
MAID (minissérie em dez episódios)
ONDE: Netflix
COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)
