Novelas

“Um Lugar ao Sol” foge do tradicional e aposta em dilemas mais complexos

Assim que “Um Lugar ao Sol” entrou no ar, na TV Globo, houve quem se apressasse em dizer que a novela de Lícia Manzo apostava no clichê do conflito entre gêmeos para conquistar o público do horário. Não demorou para perceber, no entanto, que esse julgamento não faz jus à proposta da autora, que assina o primeiro trabalho na faixa das 21 horas da emissora. O caminho mais fácil não parece ser o escolhido por ela para contar essa história e quem ganha com isso é o público, que tem encontrado no folhetim um texto acima da média e um cuidado em evitar vícios do gênero.

Seja no teatro, na literatura ou nas novelas, ter gêmeos no centro de um conflito não é nenhuma novidade e Lícia mostra logo de cara que nunca teve a intenção de investir na abordagem tradicional das personalidades antagônicas ou na troca de lugar. As vidas opostas de Christian e Renato (ambos Cauã Reymond) e os acontecimentos que culminam na usurpação da identidade de um deles são apenas instrumentos da trama, caminhos que levam ao que a autora quer realmente apresentar.

Em um primeiro capítulo dinâmico e muito bem estruturado, “Um Lugar ao Sol” mostra o nascimento e a separação dos gêmeos. Os personagens também aparecem celebrando a chegada aos 18 anos. Enquanto Renato ganha as chaves de um apartamento de luxo, Christian se despede do abrigo onde morou depois de ter sido abandonado pelo pai. O “Cauã rico”, apelido dado nas redes sociais, se revela um rapaz errante, sem pretensões profissionais, perdulário, consumidor de drogas e álcool de maneira desmedida. Já o “Cauã pobre”, sem as oportunidades que o dinheiro pode proporcionar, abraça o trabalho que encontra e luta com dificuldades para ter uma vida digna.

O primeiro (e único) encontro dos personagens é caótico, como qualquer choque entre mundos distintos. A inconsequência de Renato faz com que ele seja confundido com o irmão e morto no lugar de Christian, que, mesmo transtornado, não demora a assumir o lugar do gêmeo. Ele diz que, fazendo isso, dá continuidade a uma vida que tinha sentido, mas, no fundo, vê nessa troca de identidade uma forma de salvar a própria pele e deixar para trás as dificuldades que havia enfrentado até então.

Lícia Manzo não está meramente interessada na oposição dos gêmeos ou na mudança de identidade. Ela apresenta ao público uma história sobre consequências. Christian assume a vida do irmão pensando no bônus e sequer considera o ônus. Como Renato, o protagonista vai ter que lidar com todo o histórico negativo do gêmeo, as relações mal resolvidas, os problemas familiares e até com o peso de um assassinato. O conflito do personagem central de “Um Lugar ao Sol” se dá de dentro para fora, algo que a autora já explorou em “A Vida da Gente” e “Sete Vidas”, novelas escritas por ela para o horário das 18 horas. A nova realidade também deve trazer à tona aspectos não tão nobres da personalidade dele.

Divulgação/TV Globo

Essa escolha por explorar dilemas mais complexos não é um caminho fácil em um gênero que, com alguma frequência, apresenta histórias simplificadas ou “mastigadas” demais. Mesmo assim, a autora investe na riqueza dessa proposta e, com isso, revela um profundo respeito pelo espectador, que não é subestimado pelo texto. Quem acompanha “Um Lugar ao Sol” encontra uma narrativa muito bem estruturada, um esmero no entrelace das tramas e diálogos potentes, significativos e apurados.

Assim como nos trabalhos anteriores, Lícia não atropela os acontecimentos e nem cede às falas explicativas e repetitivas. O conteúdo e a emoção são prioridades no texto da novelista. Fugindo do maniqueísmo do gênero, a autora constrói personagens falhos, ambíguos, humanos. De alguma forma, todos apresentam características positivas e negativas, obrigando o espectador a considerar a complexidade de cada um e dificultando os rótulos ou julgamentos precipitados.

Outra qualidade de “Um Lugar ao Sol” é a direção de Maurício Farias e equipe, que ajuda a contar a história com propriedade e dinamismo. O diretor artístico mostra que sabe como transformar as palavras da autora em imagem e vai além, valorizando o texto com personalidade e dando força às referências e subtextos do roteiro. A fotografia da novela, que recebeu críticas por lembrar um filtro de rede social, não merece essa associação. Marcante, o visual é usado com critério e não parece gratuito ou pretensioso.

Em pouco mais de uma semana de exibição, Cauã Reymond, Andréia Horta, Alinne Moraes, Juan Paiva e Marieta Severo se destacaram, além de ótimas participações especiais de Tonico Pereira e Inez Viana. Andréa Beltrão, Mariana Lima, Ana Baird, Daniel Dantas e Ana Beatriz Nogueira surgiram muito bem nas primeiras cenas dos personagens que interpretam e podem roubar a cena.

“Um Lugar ao Sol” está apresentando um começo dos mais animadores. Lícia Manzo já deu provas de que não está interessada no caminho usual ou mais fácil. Investindo em uma história com foco em consequências, a autora busca envolver o espectador em dilemas mais complexos. Isso chega ao público através de uma trama bem amarrada, atenção aos detalhes e um texto muito apurado. A julgar por essas qualidades, temos um novelão para acompanhar nos próximos meses.

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