Quem olha para uma metrópole enxerga, na superfície, desenvolvimento, dinheiro, uma rotina frenética e até muitas oportunidades para melhorar de vida. Pouca ou quase nenhuma atenção se dá para características que parecem escondidas, quando levamos em conta apenas essa visão distante, mas que estão entranhadas no funcionamento daquele dia a dia. “7 Prisioneiros”, filme disponível na Netflix, se dispõe a olhar para um grave problema que, para a grande maioria das pessoas, permanece invisível, algumas vezes por conveniência: a escravidão moderna.
O longa de Alexandre Moratto começa com o sonho de uma vida melhor. Mateus (Christian Malheiros) mora com a família no interior, mas consegue um trabalho em São Paulo. Confiando na proposta e na chance de ganhar dinheiro para ajudar no sustento da casa, ele viaja para a cidade ao lado de outros três jovens: Isaque (Lucas Oranmian), Ezequiel (Vitor Julian) e Rodiney (Josias Duarte).
O grupo chega para trabalhar no ferro-velho de Luca (Rodrigo Santoro) cheio de entusiasmo e expectativas, mas não demora para os jovens descobrirem que foram enganados. Eles têm os documentos retidos pelo patrão, são encaminhados para acomodações precárias e não recebem nada pelo trabalho. Quando se rebelam contra a situação, ainda passam a ficar trancados durante à noite e são ameaçados com armas.
Isolados de qualquer contato externo e sufocados por uma rede de pessoas coniventes com Luca, os jovens tentam diversas formas de fugir, todas fracassadas. Eles, então, firmam um acordo com o patrão para o pagamento da dívida, sem qualquer garantia de que serão libertados depois disso. A união entre o grupo fica abalada quando Luca passa a ver Mateus como um aprendiz, que o acompanha em todos os momentos, inclusive na hora de escolher mais mão de obra forçada.
Roteirizado por Moratto e produzido por Fernando Meirelles e Ramin Bahrani, “7 Prisioneiros” coloca luz em um tema oportuno e quase invisível. Vez ou outra, vemos notícias de denúncias sobre trabalho análogo à escravidão, mas pouco conhecemos profundamente sobre as redes que se formam para privar pessoas da liberdade, explorá-las e expô-las a condições de vida degradantes.

Apesar de ser conhecida também como escravidão moderna, essa prática utiliza artifícios muito antigos. Usar dívidas que nunca têm fim para prender pessoas, infelizmente, não é nenhuma novidade, especialmente se pensarmos nos imigrantes que vieram para trabalhar em fazendas brasileiras no século 19 ou, até mais recentemente, em outros arranjos feitos para explorar trabalhadores do campo. Isso sem falar nas ameaças a familiares e na participação de autoridades nesses esquemas.
Até a metade do filme, quando a história fica concentrada na exploração do grupo de jovens, o roteiro adota um tom de thriller. O espectador é convidado a se envolver com o problema e torcer para que os personagens consigam se libertar daquela situação. Depois, “7 Prisioneiros” tenta se aprofundar na relação entre Luca e Mateus e nos conflitos internos que surgem dessa aproximação. Essa indefinição narrativa acaba prejudicando o ritmo e, por consequência, a experiência de quem assiste.
O longa também ensaia explorar os muitos braços dessa rede de exploração de pessoas, mostrando, inclusive, como essa prática se aproxima da política. A forma rasa e até clichê de introduzir esse elemento na história acaba fazendo com que essa iniciativa fique pelo caminho.
A qualidade do trabalho do elenco é um ponto a favor de “7 Prisioneiros”. Rodrigo Santoro e Christian Malheiros aproveitam cada cena e contribuem com potência e complexidade. Dá para dizer o mesmo dos desempenhos de Lucas Oranmian, Vitor Julian e Josias Duarte, que ajudam o espectador a se envolver com o drama dos personagens.
“7 Prisioneiros” se prejudica pela mudança de tom da narrativa, porém, mesmo diante desse problema, consegue apontar toda a desumanidade e degradação de um tipo de exploração que, infelizmente, ainda está por aí. Essa escravidão moderna só persiste porque é sustentada por muita omissão e conivência, que garantem que a prática se mantenha escondida, por exemplo, na rotina frenética dos grandes centros urbanos.
7 PRISIONEIROS
ONDE: Netflix
COTAÇÃO: ★★★ (bom)
