Mais do que uma oportunidade para desopilar o fígado e relaxar, a comédia sempre teve a importante função de expor o ridículo da vida e as mazelas do ser humano. O humor tem a capacidade de desarmar o público e, ao mesmo tempo e desde que feito com inteligência, pode servir de lente de aumento para apontar problemas sociais, desvios de conduta e fraquezas.
Durante a montagem do espetáculo “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, em 2018, a atriz Denise Fraga costumava dizer que a peça provocava um tipo de risada conhecido como “pior que é”. Estimulado pelo texto cômico, evidentemente, esse riso é aquele que vai perdendo intensidade e dando lugar a uma identificação e reflexão sobre o que está sendo mostrado. “Não Olhe para Cima”, filme disponível na Netflix, é todo construído para levar o espectador a essa risada.
Escrito e dirigido por Adam McKay, o mesmo do ótimo “A Grande Aposta”, “Não Olhe para Cima” começa com uma descoberta científica de Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), que reúne evidências de que um cometa gigantesco deve colidir com a Terra em cerca de seis meses. Os cálculos dela são conferidos pelo astrônomo Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) e outros pares, que corroboram o trabalho da personagem.
Logo depois da confirmação, os astrônomos sentem o dever de alertar o governo dos Estados Unidos sobre a ameaça de extinção do planeta, mas são completamente ignorados pela presidente Orlean (Meryl Streep), que, além de não dar a devida atenção às informações, ainda considera poder prejudicar as eleições e outras articulações políticas se levar o problema adiante. Os cientistas decidem, então, vazar a descoberta para a imprensa e, assim, alertar a população. O que eles encontram, no entanto, é uma sociedade que duvida da ciência, acredita em teorias da conspiração e se deixa levar pela conveniência das notícias falsas.
Negacionismo; escalada do autoritarismo e danos à democracia; exposição nas redes sociais; culto à imbecilidade; machismo; racismo; apologia à violência e ao ódio; propagação de boatos e mentiras; manipulação de massas; despreparo e incompetência de agentes públicos. “Não Olhe para Cima” satiriza esses e outros temas presentes na realidade assustadora em que vivemos.

A ridicularização de personagens e atitudes que se encaixam nesse cenário não é feita para “dar palco” a esses elementos e sim para expor e nos fazer vigilantes aos incontáveis absurdos que têm ocupado espaço no nosso dia a dia. Isso só é possível graças ao roteiro de McKay, irônico e preciso nas críticas. A sátira explícita não quer tirar do espectador um riso fácil e escandaloso, mas busca a tal da risada “pior que é”, que não demora a se transformar em uma reflexão urgente.
Infelizmente, não dá para ser otimista e achar que as pessoas alvos das críticas do longa vão fazer essa ponderação, seja por falta de inteligência ou interesse. Quem já tem alguma consciência de tantos absurdos, ri e, logo em seguida, se angustia pelo cenário estabelecido, podendo até achar que o choque com um cometa não seria tão ruim.
O impacto de “Não Olhe para Cima”, no entanto, é amortecido pelo fato de estarmos soterrados e cansados de tantos retrocessos e comportamentos bizarros. Acaba sendo uma tarefa ingrata para o filme apontar os aspectos ridículos e assustadores de um mundo que não se envergonha mais deles.
Além do texto, a direção de McKay e a edição são qualidades do longa que devem ser lembradas, assim como a escalação do elenco. Leonardo DiCaprio, Meryl Streep, Jonah Hill, Cate Blanchett, Mark Rylance, Rob Morgan e Tyler Perry aparecem muito bem. Até Jennifer Lawrence consegue se encaixar no tom e na proposta da história.
“Não Olhe para Cima” provoca risadas que dão lugar a angustiantes reflexões sobre a nossa realidade. Infelizmente, a quantidade exagerada de absurdos que nos atinge diariamente enfraquece a potência da sátira, que certamente será questionada por aqueles que aparecem retratados nela. Em todo caso, nunca se deve deixar passar a oportunidade de usar a comédia para tentar fazer a sociedade corrigir a rota. E, para aqueles que preferem continuar ignorando fatos e reflexões, o que se pode dizer é: continuem não olhando para cima.
NÃO OLHE PARA CIMA
ONDE: Netflix
COTAÇÃO: ★★★ (bom)
