Primeiro ator a interpretar o espião James Bond no cinema, Sean Connery ajudou a cristalizar a imagem de autoconfiante, machão e sedutor que o personagem carregou em quase seis décadas. Talvez por isso alguns pensem ser uma heresia não considerar o intérprete como a melhor representação do agente britânico criado pelo escritor Ian Fleming. Ocorre que “Sem Tempo para Morrer”, vigésimo quinto filme da franquia, além de concluir a fase mais interessante do personagem, também prova de uma vez por todas que Daniel Craig é quem merece o título de melhor 007 de todos os tempos.
Dirigido por Cary Fukunaga, “Sem Tempo para Morrer” mostra Bond aproveitando a aposentadoria ao lado de Madeleine (Léa Seydoux) e bem longe das missões especiais do MI6, o serviço secreto britânico. Só que o personagem é chamado por Felix Leiter (Jeffrey Wright) para voltar à ativa e ajudar a capturar um cientista russo que, por sua vez, é parte de um plano da Spectre.
Na volta ao trabalho em campo, Bond descobre que o MI6 deu à agente Nomi (Lashana Lynch) o número 007 e a missão de também tentar encontrar o cientista. A investigação leva o protagonista à descoberta de que M (Ralph Fiennes) é responsável por um projeto químico que pode causar milhões de mortes e que o passado de Madeleine está diretamente ligado ao plano assassino.
Quando foi escolhido para estrelar “Cassino Royale”, Craig recebeu uma chuva de críticas por parte dos fãs e da imprensa, além de ter lidado com alguma incredulidade dos próprios envolvidos na produção da franquia. Desde “007 contra o Satânico Dr. No”, de 1962, todos os intérpretes do personagem tinham mais ou menos o mesmo tipo físico e Craig chegava para derrubar esse padrão. Loiro, olhos azuis, carrancudo, mais baixo que os antecessores e sem um sex appeal evidente, todas essas características eram usadas para contestar a escolha pelo ator.
Não deixa de ser irônico que Craig, massacrado no início, é o ator que desbancou todos os anteriores, inclusive Sean Connery, e, agora, com muita justiça, pode ser considerado o rosto do espião no cinema. Mais do que provar que a aparência e o apego exagerado ao tradicional são questões menos importantes, ele conseguiu deixar uma marca muito valiosa na construção do personagem, na forma de modernizá-lo e mantê-lo relevante.

Como intérprete, produtor e voz ativa na franquia, Craig contribuiu buscando as complexidades do personagem, propósito que permitiu que os filmes mergulhassem fundo na origem do espião e o fizessem abandonar a imagem pela qual James Bond ficou tão marcado em 60 anos de franquia. Na tela, o resultado disso foi um 007 machucado pelo passado, apaixonado, hesitante e bem menos impenetrável. Resumindo assim, pode não parecer grande coisa, mas isso trouxe possibilidades mais ricas às histórias e um melhor entretenimento para o público.
Em “Sem Tempo para Morrer”, Craig ganha uma despedida muito digna para fechar um ciclo de 15 anos e cinco filmes. Totalmente conectado aos longas anteriores, o roteiro consegue a atenção do espectador de tal forma que nem se percebe que a história tem mais de duas horas e meia. No entanto, não dá para deixar de apontar que a produção tem um problema de ritmo, provocado pela opção por uma trama muito cortada. Esse detalhe deixa evidentes, de alguma forma, dificuldades criativas que, durante o processo, ocasionaram uma troca de diretor e a chegada da roteirista Phoepe Waller-Bridge para revisar e acrescentar ideias.
O filme também tem dois problemas de escalação que impedem “Sem Tempo para Morrer” de chegar perto de “Operação Skyfall”, não só o melhor longa protagonizado por Craig, como também de toda a franquia. Mesmo com um olhar muito penetrante, Léa Seydoux não consegue segurar a importância da personagem e, muitas vezes, aparece apática. Já Rami Malek, o vilão da vez, demonstra não ter estofo para sustentar um antagonista desse porte, faltando a ele qualidade de composição e personalidade mesmo.
Sean Connery vai continuar sendo pioneiro e até um ícone para a franquia, porém, Daniel Craig é o James Bond. O ator não só redefiniu o olhar para a aparência física do personagem, mas também fez parte de um importante aprofundamento da construção das características do espião, que agora vão além da fama de mulherengo e da preferência por martini batido, não mexido.
Ser James Bond, a partir dessa redefinição, ficou bem mais difícil. Vai demandar dos atores que virão um envolvimento com a qualidade das histórias; atenção e um mergulho mais fundo para as complexidades introduzidas; e uma interpretação menos viciada e confortável. Se nada disso for feito, vai ser praticamente impossível superar Craig, o melhor 007 de todos os tempos.
007 – SEM TEMPO PARA MORRER
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COTAÇÃO: ★★★★ (ótimo)
