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“O Canto Livre de Nara Leão” mostra artista muito além dos rótulos

“Podem me prender, podem me bater. Podem até deixar-me sem comer, que eu não mudo de opinião”. O registro de Nara Leão cantando “Opinião”, música de Zé Keti, em 1964, é um momento muito marcante da história da música brasileira. Identificada, até aquele momento, como uma integrante da bossa nova, a cantora, gravando os versos engajados de um artista do morro, contribuía imensamente para a riqueza musical do nosso país, ainda que não se desse conta. Mas, não é só isso. A canção na voz da artista também acaba por revelar muito da personalidade dela e isso fica claro nos cinco episódios da série “O Canto Livre de Nara Leão”, disponível no Globoplay.

Enquanto público, crítica e até os próprios pares tentavam enquadrar Nara em padrões e rótulos, o ímpeto e a curiosidade da cantora impediam que ela se ajustasse a isso. A “etiqueta” mais usada para defini-la foi a de “musa da bossa nova”, mas, como qualquer tentativa de resumo ou redução, nunca fez jus ao tamanho da artista que ela era. A série documental mostra como Nara transitou entre muitos gêneros. Da bossa nova, foi ao samba de morro e experimentou as canções de protesto. Depois, mergulhou nas letras românticas de Chico Buarque, se empolgou com o iê iê iê da Jovem Guarda e até se aventurou no tropicalismo.

A inteligência musical da cantora tornava naturais essas transições, mas Nara sempre recebeu muitas críticas por não se enquadrar em um estilo, inclusive de artistas e parceiros de trabalho que viam nessa atitude uma quase traição. O que eles não podiam entender é que, fazendo isso, Nara criava elos, misturava e ajudava a construir a riqueza da nossa música.

“O Canto Livre de Nara Leão” também mostra que a escolha por cantar “Opinião” também revelava uma artista engajada, preocupada com as questões políticas e sociais do país, especialmente no período de repressão imposto pela ditadura militar. No famoso show que levou o nome da canção, foi muito significativo que a garota de classe média se unisse a um artista do morro (Zé Keti) e a um músico nordestino (João do Vale) para que, juntos, pudessem condensar ali os anseios e reivindicações de um Brasil continental.

Divulgação

Mas, essas não são as únicas facetas de Nara Leão exploradas pela série documental dirigida por Renato Terra. Nos episódios, através de depoimentos, imagens e registros históricos, conhecemos mais sobre a timidez, o romantismo, a firmeza, a doçura e a maternidade de uma mulher fascinante, cheia de camadas e contradições. Também no dia a dia e na relação com os amigos, a personalidade de Nara não permitia ser rotulada. Fazia aquilo que queria, era forte sem levantar a voz ou ser bruta. Era Nara sem deixar de ser Leão.

Entre os depoimentos mais marcantes da série, estão o de Chico Buarque, que enaltece a parceria e a amizade com a cantora; o de Maria Bethânia, que destaca o laço criado com Nara depois de substituí-la no show “Opinião”; do músico Roberto Menescal, parceiro e grande amigo; do cineasta Cacá Diegues, com quem a artista foi casada; e dos filhos Isabel e Francisco Diegues, que falam sobre a convivência e a morte da mãe.

A divisão episódica que roteiro e direção fazem para contar a história da cantora, ainda que bastante tradicional, sintetiza muito bem as fases da vida de Nara e sempre procura uma conexão afetiva que liga tantos relatos. É preciso elogiar, ainda, a habilidade da produção em transmitir ao espectador toda a complexidade e potência da artista. A escolha por exibir alguns números musicais na íntegra também é muito acertada.

“O Canto Livre de Nara Leão” vai além dos rótulos que sempre tentaram limitar uma artista que não queria ser simplesmente a musa de um gênero, aquela figura passiva que serviria apenas como rosto e inspiração. Nara Leão queria fazer, se envolver, misturar, engajar, cantar, não cantar, experimentar, se aquietar, afrontar, recuar, amar, implicar e se deixar fascinar. Por tudo isso, a organização dessa personalidade tão rica em uma narrativa documental não poderia ser menos que imperdível.

O CANTO LIVRE DE NARA LEÃO

ONDE: Globoplay

COTAÇÃO: ★★★★ (ótima)

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