É natural que fãs queiram a continuidade ou reedição de um universo criativo que fez muito sucesso no cinema. A torcida do público é sucedida pelo interesse do estúdio e demais envolvidos em seguir com a história, seduzidos pela repercussão e, especialmente, pela possibilidade de lucrar mais. Para os executivos, um projeto do gênero, inicialmente, também parece mais seguro do que apostar em novas ideias. Essas e algumas outras questões estão por trás do lançamento de “Matrix: Resurrections”, quarto filme de uma franquia que não deveria ter sido retomada.
Seguindo os passos da trilogia concebida pelas irmãs Wachowski, “Resurrections” traz de volta Neo (Keanu Reeves) e Trinity (Carrie Anne-Moss), agora integrados a uma nova matrix. Aprisionados nessa ilusão, eles vivem com diferentes aparências e rotinas. Enquanto o protagonista ressurge como Thomas Anderson, um famoso desenvolvedor de jogos, a parceira dele é Tiffany, inserida em um falso núcleo familiar, com marido e filhos.
Rotulado como um homem com problemas psiquiátricos, Neo é acompanhado de perto por um analista (Neil Patrick Harris), que orienta e prescreve pílulas azuis para mantê-lo sob controle. O protagonista é pressionado pelo chefe a criar uma continuação do jogo que o tornou conhecido, uma versão dos acontecimentos que formam os três primeiros filmes de “Matrix”.
Assim como ocorre na trilogia, Neo é estimulado a despertar para a realidade. Ele é abordado por Bugs (Jessica Henwick), que reúne um grupo para resgatar o famoso “Escolhido” e fazê-lo consciente sobre a manipulação da nova matrix. Quando isso acontece, o protagonista se empenha para libertar Trinity do controle exercido pelo sistema.
Finalizada em “Revolutions”, mesmo que não tenha agradado a todos os fãs, a história da franquia “Matrix” ganha, em “Resurrections”, um prolongamento genérico e absolutamente desnecessário. O longa apresenta justificativas básicas para colocar os personagens novamente no centro da ação e, já contando com as informações inseridas na trilogia, repassa conceitos de forma atropelada.

Com uma ou outra variação, a dinâmica de ação é semelhante ao primeiro longa da franquia, assim como a relação entre os personagens. “Matrix: Resurrections” retoma, ainda que de maneira bem mais superficial, as discussões relacionadas ao livre arbítrio, manipulação e percepção de realidade. Há, também, conceitos inseridos para modernizar o contexto da história, como paralelos com as redes sociais e os ruídos cada vez mais numerosos na comunicação, mas tudo isso parece jogado no roteiro, artificial mesmo.
“Matrix”, para além da ficção científica, sempre foi uma história de amor. Havia na trilogia, no entanto, uma abordagem menos convencional e de desfecho trágico para o romance. Em “Resurrections”, é perceptível uma preguiça do roteiro em construir a jornada para que Neo e Trinity fiquem juntos novamente. O filme também dá a impressão de ter sido feito para que os fãs tivessem um final mais positivo para o casal.
No primeiro terço de “Matrix: Resurrections”, o longa abusa da autorreferência para tentar criticar a forma como a indústria do cinema explora projetos de sucesso, evidenciando as questões mercadológicas e até uma crise criativa. A primeira citação, associada ao conceito de que escolhas são ilusões e que a Warner faria o quarto filme de qualquer jeito, funciona, mas se desgasta a partir daí, além de soar vazia e desconectada do todo. É uma ideia que, com certeza, funcionava melhor no papel.
A continuação também consegue o feito de desvalorizar personagens importantes da trilogia. Morpheus (Yahya Abdul-Mateen II) e Smith (Jonathan Groff) parecem caricaturas das versões originais e ficam perdidos na construção da nova história. Já o analista é um vilão quase folhetinesco, que destoa do resto.
Dirigido agora apenas por Lana Wachowski, “Matrix: Resurrections” não pode ser classificado como um filme ruim, especialmente pelas qualidades técnicas, mas ele também não é necessário. Trata-se de uma continuação genérica, preguiçosa e oca, mesmo com a tentativa de crítica à própria existência. A volta ao universo da franquia pode, inclusive, ser tranquilamente ignorada, ficando na memória apenas a conclusão na trilogia. São poucos os reencontros que superam as saudades.
MATRIX: RESURRECTIONS
ONDE: nos cinemas
COTAÇÃO: ★★ (regular)
