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“Pecado Capital” em cinco curiosidades

Um homem, uma mala de dinheiro e um dilema: devolvê-la ou não? Foi a partir desse argumento que Janete Clair desenvolveu “Pecado Capital”, novela criada a toque de caixa para resolver um problema na grade de programação da TV Globo e que se tornaria um grande clássico da teledramaturgia brasileira. Em 1975, o sucesso já não era uma novidade para a autora, mas o folhetim, além de confirmar a capacidade produtiva e inventiva da novelista, também serviu para agregar novos elementos à obra dela.

Ao longo da carreira, Janete escreveu mais de 40 radionovelas, 18 telenovelas e quatro especiais. A predileção pelo romance, a valorização do heroísmo dos protagonistas e a inclinação para a fantasia sempre foram características marcantes nos trabalhos da autora. A partir de “Pecado Capital”, o realismo e as questões sociais foram incorporados ao estilo da novelista.

Pouco convencional para os padrões da época, o protagonista Carlão (Francisco Cuoco) encontra uma mala de dinheiro no táxi que dirige, produto do roubo a um banco, e fica em dúvida sobre o que fazer com ela. Para o personagem, entregar a grana à polícia poderia significar o risco de ser apontado como cúmplice do assalto. Por outro lado, ficar com 800 mil cruzeiros, uma fortuna na época, resolveria os problemas financeiros do taxista.

“Pecado Capital”, que passa a fazer parte do catálogo do Globoplay nesta segunda-feira (31), marcou a história da telenovela brasileira por diversas razões, entre elas, a transgressão de conceitos tradicionais para a construção de um folhetim. Como em todo sucesso, há muitos detalhes sobre os bastidores da trama e, para marcar a chegada da produção ao streaming, vamos lembrar cinco curiosidades aqui.

Divulgação/TV Globo

Novela feita às pressas

Em 1975, a TV Globo estava com tudo pronto para estrear “Roque Santeiro”, de Dias Gomes, no horário das 20 horas, mas, às vésperas da estreia, a Censura Federal proibiu que a trama fosse levada ao ar. A emissora foi obrigada a descartar 36 capítulos já gravados e decidiu exibir uma versão compacta de “Selva de Pedra” até ter condições de lançar outra novela inédita na faixa.

Janete Clair, que estava escrevendo “Bravo!” para o horário das 19 horas, entregou a condução da trama para o colaborador, Gilberto Braga, e assumiu a missão de criar uma história que pudesse estrear apenas três meses depois. No livro “Circo Eletrônico – Fazendo TV no Brasil”, o diretor Daniel Filho, parceiro da autora em diversos trabalhos, revelou que foi a novelista que se prontificou a resolver o problema na grade de programação. “Ela sempre tinha uma história meio pronta na cabeça, nem que fosse a ideia inicial. Era realmente um arquivo de ideias”, disse o diretor.

A novela em desenvolvimento deveria reaproveitar o elenco e parte dos cenários da censurada “Roque Santeiro”. Segundo Daniel Filho, a sinopse apresentada por Janete chamava-se “O Medo” e o protagonista era Rafa, um motorista de táxi envolvido no dilema moral de ficar ou não com um dinheiro que não era dele. Assim nasceu “Pecado Capital” e aquele que, posteriormente, ficaria conhecido como Carlão, personagem marcante da nossa teledramaturgia.

“Dinheiro na mão é vendaval”

O produtor musical Guto Graça Mello e Daniel Filho encomendaram músicas para a abertura da novela a três compositores. A escolhida foi “Pecado Capital”, de Paulinho da Viola, composta e gravada em cerca de 24 horas, de acordo com o site do projeto “Memória Globo”. Ter um samba como canção-tema de um folhetim foi uma novidade para a época.

“Pecado Capital” proporcionou, ainda, uma mudança significativa para a área das trilhas sonoras. Até aquele momento, as músicas para os folhetins eram feitas sempre sob encomenda, mas Mello defendia que melhores resultados seriam obtidos se a produção musical fosse feita considerando a sinopse das novelas e o catálogo das gravadoras. Conforme apontou o “Memória Globo”, a resistência a essa ideia acabou com a necessidade de produzir uma trilha às pressas para a trama de Janete Clair. Apenas a música de Paulinho da Viola foi encomendada.

Divulgação/TV Globo

Nada de mocinhos tradicionais

Inicialmente, os protagonistas Carlão e Lucinha foram construídos com características mais românticas e heroicas. No livro “Circo Eletrônico”, Daniel Filho contou que Betty Faria precisou ser convencida a aceitar o papel feminino central. Segundo o diretor, a atriz considerava a personagem talhada para Regina Duarte, habituada a interpretar mocinhas clássicas. Por conta dessa resistência, Lucinha acabou ganhando uma certa malandragem e um gingado carioca.

Para convencer Francisco Cuoco a aceitar o convite para viver Carlão, Daniel Filho propôs ao ator uma imagem diferente para o protagonista. “O que eu vejo nesse personagem é um pequeno bigodinho, óleo no cabelo, uma costeleta, a camisa meio aberta, a calça um pouco mais para baixo para a barriga ficar um pouco mais proeminente. Tudo isso para você ser aquele homem que realmente dirige com uma toalha em volta do pescoço, por causa do suor, o Fusca que é o seu táxi”, disse o diretor a Cuoco na época.

Muito identificado, até então, com os bons moços que interpretava na TV, Cuoco aceitou os argumentos e virou Carlão, um protagonista nada convencional para os padrões da época.

Reprodução/TV Globo

Morte do protagonista

Autora e diretor de “Pecado Capital” discordavam sobre o final de Carlão. Mesmo com o personagem seguindo um caminho torto e distante da virtude dos heróis das novelas, Janete defendia um desfecho de redenção, enquanto Daniel Filho acreditava que o público deveria ser surpreendido com a morte do taxista.

A novelista acabou convencida a abandonar a ideia de que deveria criar um final feliz e, pela primeira vez em uma novela, o protagonista teve um desfecho trágico. A sequência em que Carlão morre com a mala de dinheiro nos braços é considerada um marco da teledramaturgia brasileira. No livro “Circo Eletrônico”, o diretor afirma que o fim escrito por Janete serviu para mostrar que a telenovela não precisa ser sempre “um jogo de cartas marcadas”.

Divulgação/Memória Globo

Nossa Senhora das Oito

Antes de “Pecado Capital”, Janete já tinha escrito sucessos para o horário das 20 horas, mas fora incumbida pela Globo de desenvolver histórias para às 19 horas. Isso aconteceu por conta de críticas sobre o excesso de fantasia da autora, o romantismo e as muitas coincidências criadas nas tramas.

Na biografia da novelista, escrita pelo jornalista Artur Xexéo, Dias Gomes, autor e marido de Janete, revelou que a esposa ficou magoada com a mudança de horário e achava que “tinha sido rebaixada”. O objetivo da emissora era levar o realismo, que era uma marca do horário das 22 horas até então, para a faixa das oito. A escolha de Gomes para fazer “Roque Santeiro”, depois de sucessos como “Bandeira Dois” e “O Bem-Amado”, se deu a partir desse propósito.

Com a censura ao folhetim de Gomes, Janete se propôs a resolver o problema da Globo com o espaço deixado na programação. Insatisfeita com o horário das 19 horas, deixou “Bravo!”, a novela que escrevia, aos cuidados do colaborador Gilberto Braga. A emissora teve receio de entregar a responsabilidade a um iniciante e, por conta disso, Janete se comprometeu a supervisionar o trabalho, mesmo envolvida no novo projeto para às 20 horas.

“Pecado Capital” não foi só uma volta de Janete ao horário nobre, mas também acrescentou à obra da autora elementos novos, como o realismo e as preocupações sociais. “Mudei meu gênero. Não fiz ‘Pecado Capital’ para imitar o Dias, mas, pelo menos, para me igualar um pouco ao estilo dele. Levei meu romantismo para o lado realista. Parece que, de ‘Pecado Capital’ em diante, eu dei uma melhorada”, disse, em depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS).

O dilema de Carlão sobre a mala de dinheiro é considerado, até hoje, um dos trabalhos mais maduros de Janete Clair. A habilidade da autora em criar novelas que mobilizassem a audiência rendeu a ela diversos elogios e apelidos, entre eles, o de Nossa Senhora das Oito, em referência ao horário cuja consolidação deve muito à novelista.

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