“Príncipe”, “perfeito” e “ideal” são alguns dos termos utilizados pelas vítimas de Simon Leviev para explicar as impressões iniciais que tiveram do israelense que aplicou nelas e em outras mulheres um golpe de milhões de dólares. Para envolver afetivamente os alvos, o personagem central de “O Golpista do Tinder”, documentário disponível na Netflix, usa mais do que a capacidade de mentir. Ele também se aproveita do conceito de amor romântico, que se caracteriza, entre outros aspectos, pela idealização do outro.
O documentário mostra como Leviev, um dos nomes utilizados pelo golpista, é desmascarado pelas denúncias de mulheres e por uma reportagem que expôs a foto do israelense na internet, prejudicando os planos dele. O primeiro contato com as vítimas era feito pelo Tinder, aplicativo de relacionamento, e, após uma troca de mensagens, o casal combinava um encontro.
Educado, carinhoso e interessado, Leviev se apresentava sempre como um homem rico e consumidor de artigos de luxo. Em um dos papéis que interpretou, foi o herdeiro de um império de diamantes e, por isso, vivia hospedado nos hotéis mais caros, comia nos melhores restaurantes e viajava em jatos particulares. Desconfiadas, as vítimas conferiam as informações e encontravam, na internet, evidências de que tudo aquilo era real.
Depois dessa fase inicial de encantamento, os problemas começavam a aparecer. Leviev dizia que a família tinha muitos inimigos no ramo dos diamantes, o que justificava estar sempre acompanhado de um segurança. Alegando ataques ou risco de morte, o golpista dizia às vítimas que estava impossibilitado de utilizar os próprios recursos e convencia as mulheres a conseguir dinheiro para sustentar viagens e hospedagens. Elas limpavam as contas, faziam empréstimos e se afundavam em dívidas astronômicas.
Não é preciso nem dizer que não havia inimigos ou risco iminente. Leviev, na verdade, utilizava o dinheiro tirado das vítimas para ostentar, construir a imagem de milionário confiável e financiar os gastos que convenceriam outras mulheres e formar um ciclo ininterrupto de golpes.
Os traços de sociopatia ajudam a explicar a eficiência das fraudes do personagem de “O Golpista do Tinder”, mas a questão vai mais além. Leviev também tinha a seu favor o conceito de amor romântico, uma construção social que se sustenta pela idealização do par perfeito e pela associação dos relacionamentos à única forma de felicidade possível.
No segundo volume de “O Livro do Amor”, a psicanalista Regina Navarro Lins explica que o amor romântico é uma criação do Ocidente e tem origem no amor cortês, que surgiu no século 12. Sete séculos depois, no período conhecido como Romantismo, essa construção ganhou força a partir da ideia de que o amor era uma finalidade nobre da vida e, desde então, segue na mentalidade da sociedade.
O amor romântico é sustentado, segundo a psicanalista, por um ideal amoroso calcado na idealização. Criam-se ilusões e outras expectativas sobre o outro que se baseiam unicamente nas próprias necessidades do indivíduo, não na realidade. Isso leva, ainda, à propagação da ideia de que a felicidade só é possível se houver uma relação amorosa e à busca pelo parceiro certo, ideal, a outra metade da laranja.

Essa construção social e cultural de amor é fundamental para entendermos como as fraudes de Leviev foram bem-sucedidas por tanto tempo. Essa busca pelo relacionamento perfeito, pelo afeto incondicional do outro e por alguém que represente a parte que completa o todo produz ilusões, faz com que sinais de perigo evidentes sejam maquiados e que expectativas sejam criadas.
Essa idealização está presente na maioria dos relacionamentos e produz muitas consequências, entre elas, a frustração de descobrir que o outro não é nada aquilo que imaginamos. O mito do amor romântico, ainda que de maneira inconsciente e não planejada, alimenta a busca pelo príncipe, pela donzela na torre e pelo parceiro perfeito, ilusões que conectam vítimas a golpistas como Leviev.
Se essa ideia do amor ideal já é uma arma poderosa à disposição dos mal-intencionados, ela vira algo ainda mais eficiente quando associada a uma ferramenta criada para projetar ilusões: as redes sociais. A internet permite que golpes ganhem consistência com a produção de provas e até de vidas totalmente inventadas. É a fome com a vontade de comer.
É interessante observar, também, as reações que surgem da exposição dessa história. Leviev foi preso, por crimes anteriores e não pelas fraudes, é bom que se diga; cumpriu apenas um terço da pena e foi colocado em liberdade para novamente ostentar uma rotina de luxo. Antes de ser banido das redes sociais, ganhou, inclusive, certo status. Enquanto isso, as vítimas são, com frequência, julgadas como burras ou inocentes, expondo o olhar machista que predomina sobre os fatos.
As vítimas estão inseridas nessa cultura do amor romântico, mas a entrega a uma relação idealizada, que pode ser um golpe, não é uma exclusividade do gênero feminino. Ainda que esse conceito afete com mais peso a vida das mulheres, por conta do patriarcado, qualquer um, inclusive homens, pode cair, se não nesse tipo de fraude, em outros e ter prejuízos de maior ou menor grau. As denunciantes que aparecem em “O Golpista do Tinder” são, na verdade, corajosas por expor a armação e exigir a responsabilização do sociopata.
Provocar reflexões e debates sobre o caso é a principal qualidade do documentário, que conquista o espectador pela história interessante. Sobre a forma como o filme é organizado, há pouco a se dizer. A construção narrativa é básica, para não dizer pobre, e fazem falta recursos visuais que ilustrem melhor os depoimentos e ações.
“O Golpista do Tinder” tem feito sucesso por conta do enredo curioso e das discussões que levanta. O conceito de amor romântico é essencial para explicar o sucesso do golpe aplicado por Leviev. A combinação da ilusão do romance ideal, redes sociais e más intenções cega e desarma quase que totalmente uma pessoa que busca o mito do par perfeito.
O GOLPISTA DO TINDER
ONDE: Netflix
COTAÇÃO: ★★★ (bom)
