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“Mães Paralelas”: a verdade não fica enterrada para sempre

Sob o regime do general Francisco Franco, a Espanha viveu um dos períodos mais cruéis da história do país. A ditadura franquista, que se instalou depois de uma guerra civil e comandou o território espanhol entre 1939 e 1975, era apoiada pelo fascismo italiano e pelo nazismo alemão. Durante essa fase, milhares de pessoas foram mortas ou desapareceram e muitas famílias jamais conseguiram saber o paradeiro ou recuperar restos mortais de entes queridos, cujos corpos eram amontoados em valas comuns. O fim desse governo de horror só aconteceu com a morte do ditador.

Logo de cara, especialmente se considerarmos o título do filme, “Mães Paralelas”, o mais recente trabalho do diretor Pedro Almodóvar, não parece ter ligação com esse período nefasto da Espanha. O fato histórico, no entanto, está intimamente ligado à jornada de Janis (Penélope Cruz), personagem que busca detalhes sobre o passado da família.

Trabalhando como fotógrafa, Janis conhece Arturo (Israel Elejalde), um antropólogo que pode ajudá-la a conseguir recursos para escavar um terreno em que podem estar enterradas vítimas do franquismo, entre elas, o bisavô da protagonista. Os dois acabam se envolvendo e Janis fica grávida, mas resolve criar o bebê sozinha, uma vez que Arturo é casado e não pretende terminar com a esposa.

Já na maternidade, prestes a dar à luz, Janis conhece Ana (Milena Smit), uma adolescente insegura e amedrontada pela maternidade iminente. As filhas de ambas nascem no mesmo dia e um laço se estabelece entre elas. Depois de um período afastadas, as personagens voltam a se encontrar e um segredo entrelaça ainda mais as vidas delas.

Depois do ótimo “Dor e Glória”, um projeto mais introspectivo e de investigação pessoal, Almodóvar retorna ao melodrama e reforça o domínio que tem do gênero. O cineasta conduz a narrativa valorizando as características que definem as histórias melodramáticas, como a intensidade e o exagero. O diretor, no entanto, consegue construir tudo isso com um refinamento ímpar. Nada do que é mostrado parece desmedido ou fora de tom.

Divulgação

Além de dominar o melodrama como ninguém, Almodóvar também é um mestre de construção de personagens. O diretor envolve de tal forma que, quando o espectador percebe, já suspendeu qualquer julgamento que pudesse fazer sobre a trama ou os tipos nela envolvidos. O cineasta faz com que tenhamos empatia e compreensão das motivações, ao mesmo tempo em que não concordamos com atitudes. Almodóvar nos faz mais humanos.

A subtrama política de “Mães Paralelas” parece, a princípio, descolada do resto do filme, mas não demora para que a conexão fique evidente. Mais do que falar sobre ancestralidade e influência do passado familiar sobre alguém, o longa mostra como as pessoas são feitas de contradições e que a verdade, de alguma maneira, dá um jeito de se impor. Janis não mede esforços para buscar informações sobre o bisavô, mas, diante de um dilema, escolhe manter um segredo sobre a origem da filha.

E, por falar na protagonista, é preciso destacar o trabalho deslumbrante de Penélope Cruz. Em mais uma parceria com Almodóvar, a atriz reforça o afinamento que tem com as escolhas artísticas do diretor e dá potência à personagem. É uma atuação vigorosa, quente, totalmente entregue e que contempla todas as nuances que o roteiro do espanhol quer deixar transbordar. Mais uma belíssima mulher de Almodóvar para essa belíssima intérprete.

Disponível na Netflix e com duas indicações ao Oscar, “Mães Paralelas” é um melodrama potente e irresistível, daqueles que só Pedro Almodóvar é capaz de fazer. Ainda que a relação entre a história central e a subtrama não fique clara logo de início, a resposta sobre essa conexão não demora a aparecer: na política, na família e na vida, como um todo, é impossível deixar uma verdade enterrada para sempre.

MÃES PARALELAS

ONDE: Netflix

COTAÇÃO: ★★★★ (ótimo)

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