Sucesso no início da década de 90, a novela “Vamp” conquistou o público infanto-juvenil no horário das 19 horas. Além de trazer uma audiência mais jovem para os folhetins, como queria o autor Antonio Calmon, a história da vampira roqueira Natasha (Cláudia Ohana) virou um clássico da teledramaturgia brasileira e se transformou em memória afetiva para os espectadores que acompanharam a trama na época. Foi partindo dessa inspiração e de uma proposta semelhante em relação ao público-alvo que o novelista escreveu, mais de 10 anos depois, “O Beijo do Vampiro”, que ganha a primeira reprise a partir da próxima segunda-feira (28), no canal Viva.
Em agosto de 2002, quando “O Beijo do Vampiro” estreou, também no horário das 19 horas, muitos criaram a expectativa de que a trama seria uma continuação de “Vamp”, mas esse nunca foi o foco do autor. A influência do clássico, no entanto, era evidente, assim como o desejo de levar o público infanto-juvenil novamente para a frente da TV naquela faixa da programação.
Na trama, Bóris (Tarcísio Meira), o senhor das sombras, é apaixonado pela princesa Cecília (Flávia Alessandra), que prefere se atirar de uma torre do que se entregar ao admirador. Séculos depois, o vampiro tem um filho com uma mulher, mas decide esconder a criança de Mina (Cláudia Raia), uma vampira vingativa que é apaixonada por ele. O garoto é acolhido pela família de Lívia (Flávia Alessandra), a reencarnação de Cecília. Quando completa 13 anos, Zeca (Kayky Britto) começa a desenvolver poderes e descobre ser filho de Bóris.
Com direção de núcleo de Marcos Paulo, “O Beijo do Vampiro” carregava menos no humor e mais em romance do que “Vamp”. Para fugir de um tom sombrio e suavizar a temática de terror, Calmon usou o politicamente correto para justificar alguns comportamentos dos vampiros da novela.
A audiência de “O Beijo do Vampiro” não correspondeu ao que era esperado para o horário e afugentou o público mais tradicional. Mesmo assim, o folhetim fez sucesso entre os jovens e também se transformou em uma memória afetiva para essa fatia dos espectadores, que passaram a pedir com frequência a volta da trama no “Vale a Pena Ver de Novo” e no Viva.
Agora, quase 20 anos depois da exibição original, a primeira reprise da novela vai permitir o resgate dessa memória pelos jovens da época, hoje adultos. A seguir, cinco curiosidades sobre “O Beijo do Vampiro”.

“Vamp” e outras influências
Depois do sucesso com “Vamp”, uma inovação para a época, Calmon revisitou a temática em “O Beijo do Vampiro”, que reuniu a experiência do autor com o público infanto-juvenil e a inspiração da clássica novela. Segundo o portal Memória Globo, dois filmes também inspiraram a trama: “Drácula de Bram Stoker” (1992), de Francis Ford Coppola; e “A Dança dos Vampiros” (1967), de Roman Polanski.
Segundo o portal Memória Globo, Calmon considera “O Beijo do Vampiro” mais realista, sensual e romântica do que “Vamp”, além de ser menos engraçada e mais centrada em valores familiares. O autor vê os vampiros como uma metáfora de hábitos aristocráticos; sexualidade; busca pela eterna beleza e juventude; corrupção política; prepotência; e maldade. Para ele, por exemplo, o vampirismo de Zeca é uma metáfora da puberdade, momento em que o jovem começa a ficar rebelde e desafia valores da família.

Tarcísio e o uso do “tu”
A ideia de Bóris utilizar o pronome “tu” ao invés de “você” nas falas foi de Tarcísio Meira, como revelou o autor de “O Beijo do Vampiro” ao programa “Donos da História”, do canal Viva. Calmon recebeu uma ligação de Marcos Paulo dizendo que Tarcísio gostaria de vê-los. O diretor de núcleo revelou, segundo o novelista, uma preocupação. “E se, de repente, ele quiser mudar o personagem?”, teria dito a Calmon.
No encontro, Tarcísio pediu ao autor para usar o “tu”. “Porque, veja bem, um vampiro tão antigo como eu não falaria ‘você’, falaria ‘tu'”, argumentou o ator. Calmon autorizou o uso do pronome, mas Marcos Paulo afirmou não ter certeza sobre a decisão, uma vez que isso poderia estimular pedidos do elenco para seguir a forma de falar de Bóris. O autor, então, disse que apenas Tarcísio estava autorizado a adotar o “tu”. “Chamar uma pessoa como o Tarcísio é chamar um tipo de interpretação. É um ator que já vem pronto”, declarou o novelista.

Politicamente corretos
Apesar de ter vampiros no centro da trama, Calmon sabia que não poderia mergulhar profundamente no universo e na temática de terror por conta das restrições do horário e da audiência. Assim, a vampirada que apareceu na cidade fictícia de Maramores seguia a cartilha do politicamente correto.
Para conseguirem sair durante o dia, os vampiros da trama usavam protetor solar especial. Eles também podiam contar com cremes que preveniam as queimaduras por água-benta. Era comum, ainda, que as criaturas importassem o sangue que bebiam da Suíça. Os personagens seguiam um “código de conduta” e não mordiam crianças, idosos e gestantes.

Vampiromania
“A sua nova novela das sete vai virar mania”. Era assim que as chamadas de “O Beijo do Vampiro” anunciavam a chegada da “vampiromania”, muito antes das histórias do gênero direcionadas ao público infanto-juvenil ganharem espaço em Hollywood. A novela ganhou um site para divulgação de bastidores da produção e histórias relacionadas ao universo dos vampiros.
Além da campanha de lançamento, foram comercializados produtos que levavam a marca da trama, como chicletes e até um gibi, que, segundo o portal Memória Globo, contava as aventuras de Bóris e era lido por Zeca na história.

Novela do capeta?
Levada ao ar de agosto de 2002 a maio de 2003, “O Beijo do Vampiro” não repetiu o fenômeno de “Vamp” e teve audiência média de 28 pontos, abaixo do que a emissora esperava para o horário. No livro “Autores: Histórias da Teledramaturgia”, Calmon disse que a propaganda eleitoral obrigatória, o horário de verão e o carnaval contribuíram para os índices baixos para a época.
A trama atingiu mais o público infanto-juvenil, como era esperado, mas houve rejeição da audiência mais conservadora, segundo Calmon. “O tema vampirismo desagrada a uma parcela das donas de casa que acha fantasioso ou é fundamentalista, acreditando que o diabo se manifesta em seus lares no momento em que se liga a TV para ver minha novela”, relatou na obra.
O BEIJO DO VAMPIRO
ONDE: canal Viva
QUANDO: a partir de 28 de fevereiro, de segunda a sábado
HORÁRIO: a partir de 12h30 e reprise às 1h15
